Quando o bloqueio de Ormuz fortalece o poder
energético americano
10 de Junho de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub.
Durante anos, os Estados Unidos não dependeram directamente do Estreito de
Ormuz para o seu fornecimento ou exportação de petróleo. Esta realidade marca
uma grande transformação histórica na sua posição energética mundial.
Durante várias décadas, especialmente após os choques petrolíferos dos anos
70, a segurança do Golfo Pérsico foi um imperativo estratégico vital para
Washington: a economia americana continuava fortemente dependente dos
hidrocarbonetos do Médio Oriente, e qualquer perturbação do tráfego marítimo no
Estreito de Ormuz ameaçava directamente a sua estabilidade económica interna.
A Revolução Energética Americana e o
Declínio Estratégico de Ormuz
Esta configuração mudou profundamente nos últimos quinze anos como
resultado da revolução não convencional dos hidrocarbonetos. Graças à
exploração massiva do petróleo e gás de xisto, os Estados Unidos tornaram-se
uma das principais potências energéticas mundiais, tanto produtores como
exportadores. A sua dependência estrutural do petróleo do Golfo foi
significativamente reduzida. A maior parte dos seus fornecimentos energéticos
provém agora do seu próprio território, do Canadá ou de outros parceiros nas Américas.
Quanto às suas exportações de petróleo e gás, transitam principalmente pelos
terminais do Golfo do México e não pelas rotas marítimas do Golfo Pérsico.
Nestas condições, um bloqueio ao Estreito de Ormuz não penalizaria directamente
os Estados Unidos, cujo abastecimento e exportação de energia já não dependem
estruturalmente dos hidrocarbonetos do Golfo Pérsico. Por outro lado, as
principais economias asiáticas, que dependem fortemente dos hidrocarbonetos do
Médio Oriente, ficariam imediatamente expostas a sérias tensões energéticas e
industriais. A China, Índia, Japão e Coreia do Sul importam uma parte
considerável do seu petróleo das monarquias do Golfo. Para estas potências
industriais, o Estreito de Ormuz continua a ser uma artéria energética vital. A
sua interrupção causaria tensões imediatas nas suas cadeias de abastecimento,
custos industriais e segurança energética. Por outro lado, os Estados Unidos
têm agora uma autonomia energética relativa que os protege em grande parte de
uma perturbação material directa dos fluxos de petróleo que atravessam o Golfo.
O choque petrolífero como alavanca do
poder geo-económico
No entanto, num sistema económico mundial interligado, os hidrocarbonetos
estão sujeitos a dinâmicas de mercado fortemente integradas, pelo que qualquer
grande perturbação no Golfo leva automaticamente a um pico nos preços
internacionais do petróleo e gás. Este aumento dos preços tem também outra
dimensão que é frequentemente subestimada: tende também a fortalecer a posição
das principais potências exportadoras de energia. No entanto, os Estados Unidos
são agora um dos principais entre eles.
Neste contexto de aumentos sustentados dos preços do petróleo e gás, os
produtores americanos de petróleo de xisto e os exportadores de gás natural
liquefeito estão a ver as suas margens e a sua competitividade internacional
aumentarem acentuadamente. Quanto mais altos os preços mundiais, mais rentável
se torna a exploração dos hidrocarbonetos americanos, incluindo em campos
anteriormente considerados demasiado caros. Esta dinâmica é particularmente
favorável às grandes empresas energéticas dos EUA, bem como à expansão das
exportações para a Europa e Ásia.
A crise ucraniana já forneceu uma ilustração deste fenómeno. A ruptura
progressiva entre a Europa e os hidrocarbonetos russos levou a um aumento
maciço das exportações americanas de gás natural liquefeito para o mercado europeu.
As tensões geo-políticas contribuíram assim para reforçar o papel energético
internacional dos Estados Unidos. Uma crise prolongada no estreito de Ormuz
produziria efeitos comparáveis numa escala ainda maior. Quanto mais os
fornecimentos do Golfo se tornarem instáveis, vulneráveis ou caros, mais
numerosos serão os países importadores que procurarão diversificar os seus
fornecedores para reduzir a sua exposição geo-política. Nesta estratégia de
diversificação, os Estados Unidos surgem como um fornecedor relativamente
estável, com capacidades de exportação consideráveis e infraestruturas
energéticas em expansão contínua.
A instabilidade crónica do Médio Oriente já não constitui para Washington
um obstáculo estratégico comparável ao que representava no século XX. Numa
altura em que a economia dos EUA dependia directamente do petróleo do Golfo,
qualquer perturbação regional ameaçava imediatamente os seus interesses vitais.
Hoje, a situação inverteu-se: um choque petrolífero mundial pode agora
fortalecer os interesses energéticos e comerciais dos Estados Unidos ao
promover um aumento sustentado dos preços dos hidrocarbonetos e a expansão das
suas exportações.
A crise de Ormuz e a recomposição do
balanço energético mundial de poder
É neste contexto que formulamos a seguinte tese: um bloqueio prolongado ao
Estreito de Ormuz fortaleceria objectivamente a posição energética americana na
economia mundial. Uma escassez parcial de petróleo do Golfo nos mercados
internacionais, combinada com um aumento duradouro dos preços, aumentaria
mecanicamente a atractividade dos hidrocarbonetos americanos. Importadores
europeus e asiáticos, ansiosos por garantir os seus fornecimentos, seriam
incentivados a aumentar as suas compras a produtores americanos, mesmo a custos
mais elevados.
Mesmo que o estreito reabrisse sob controlo iraniano com elevados direitos
de passagem, os efeitos estruturais continuariam potencialmente favoráveis aos
exportadores norte-americanos. A introdução de uma taxa estratégica numa das
principais rotas energéticas do mundo ajudaria a manter preços elevados e um
clima de incerteza logística a longo prazo. Num mercado mundial extremamente
sensível à estabilidade dos fluxos de energia, esta situação pode encorajar uma
proporção crescente de compradores internacionais a reduzir a sua dependência
do Golfo Pérsico em favor de fornecedores considerados mais seguros ou menos
arriscados politicamente, sobretudo os Estados Unidos.
Desde logo, a questão do estreito de Ormuz transcende amplamente o âmbito
regional do conflito entre o Irão e os seus adversários. Ela toca numa
recomposição muito mais profunda das relações de força energéticas mundiais. O
controlo das rotas marítimas, a segurança do abastecimento e a redistribuição
dos mercados de petróleo e gás constituem hoje questões centrais da competição
geo-económica internacional. Nesta nova configuração, os Estados Unidos
aparecem menos como uma potência vulnerável às crises do Golfo do que como um actor
susceptível de transformar a instabilidade energética mundial num alavanca
adicional de consolidação da sua potência geo-económica.
Em consequência, o bloqueio do estreito de Ormuz, assim como a sua
reabertura sob controlo tarifário iraniano, serviriam, em ambos os casos, os
interesses energéticos dos Estados Unidos.
A esse respeito, a
julgar pelos discursos oficiais, Trump afirma querer negociar com Teerão e
restabelecer a livre circulação no estreito de Ormuz. No entanto, cada vez que
a hipótese de um acordo parece aproximar-se, ele próprio torpedeia as
negociações com novos bombardeamentos contra o Irão, revelando assim que o
prolongamento do conflito e a manutenção do bloqueio do estreito de Ormuz
servem mais aos interesses geo-estratégicos e económicos do capital americano
do que a uma resolução rápida da crise. Vários meios de comunicação
internacionais notaram aliás o desfasamento crescente entre as declarações
diplomáticas americanas e a continuação das operações militares contra o Irão.
Sintomaticamente, os Estados Unidos retomaram os seus ataques ao sul do Irão na
terça-feira, 27 de Maio, precisamente no momento em que Washington afirmava
prosseguir as negociações com Teerão, alimentando assim as acusações iranianas
de violação da trégua.
Hidrocarbonetos, a indústria armamentista e o capitalismo militarizado americano
Em última análise, as tensões em torno do estreito de Ormuz não
beneficiarão apenas os exportadores americanos de hidrocarbonetos. Elas também
terão contribuído para reforçar todo o aparelho militar-industrial
estadunidense. Esta guerra contra o Irão estimulou a expansão das despesas
militares, a produção de armamentos, os contratos de segurança e as
dependências estratégicas dos aliados regionais de Washington. Ela também
favoreceu a expansão espetacular do orçamento militar americano, que deverá
passar de menos de 1 000 mil milhões de dólares para mais de 1 500 mil milhões
até 2027. Este aumento histórico das despesas de defesa reflectirá menos uma
simples resposta conjuntural às crises geo-políticas do que um aprofundamento
da militarização estrutural do capitalismo americano e do peso crescente do
complexo militar-industrial na economia dos Estados Unidos. Além disso, devido
à subida dos riscos geo-políticos, as monarquias do Golfo intensificarão as
suas compras de equipamentos militares, de sistemas anti-mísseis, de
tecnologias de vigilância e de armamentos sofisticados junto dos industriais
americanos.
Nesta configuração, a prolongada crise iraniana tem sido não só um factor
na consolidação do poder energético dos Estados Unidos, mas também uma poderosa
alavanca de apoio ao complexo militar-industrial americano.
Como resultado, por detrás do discurso oficial sobre segurança regional e
estabilidade internacional, a crise de Ormuz terá participado de forma mais
profunda numa dinâmica de militarização do capitalismo americano, onde os
interesses energéticos, a expansão militar e a lógica da acumulação económica
se terão reforçado mutuamente.
Em conclusão
Ao contrário das análises dos "especialistas" dos media
ocidentais que anunciam uma derrota americana no Médio Oriente, o capital dos
Estados Unidos emergirá, como em guerras anteriores lideradas por Washington,
fortalecido por este conflito contra o Irão. É claro que os dois principais
pilares do capitalismo militarizado dos EUA – hidrocarbonetos e a indústria
armamentista – terão obtido benefícios financeiros significativos desta guerra
deliberadamente prolongada.
Trump, como agente zeloso do capital americano, terá cumprido com
virtuosismo a missão que lhe foi atribuída pelos seus senhores. Assim, se não
fosse o Prémio Nobel da Paz que tanto cobiçava, Trump mereceria pelo menos o
prémio pela rentabilidade imperial dos conflitos.
Khider MESLOUB
Fonte: Quand le blocus d’Ormuz renforce la puissance énergétique américaine – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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