Sudão: Os Capitalistas Mancham
o Nilo de Vermelho, os Operários Devem Levantar a Bandeira Vermelha!
No Sudão, o Nilo, Darfur
e Kordofan estão novamente a sofrer num mar de sangue; o massacre contra os operários
em cidades como Cartum e El-Fasher não é um assunto puramente local, nem esta
guerra se deve à pura maldade de senhores da guerra criminosos, tal como é
apresentada pela media burguesa. Esta guerra é mais um capítulo da depravação
causada pela crise de lucros estagnados do capitalismo, na qual os operários
são sempre os que pagam o preço mais alto. A guerra actual criou a maior crise
humanitária actual, com mais de 12 milhões de refugiados internos e externos,
mais de 150.000 mortes e actos indescritíveis de brutalidade cometidos contra operários
que enfrentam insegurança alimentar, fome e privação de água como táctica de
cerco.
A causa da guerra em
2023 é muitas vezes esquecida. O general das Forças Armadas Sudanesas (SAF),
Al-Burhan, e Hemedti das Forças de Apoio Rápido (RSF) tiveram um
desentendimento sobre a tentativa do exército de absorver a RSF, vendo a RSF
apenas como uma camada extra e um dreno nos lucros do ouro e nas elaboradas
redes de tráfico e patrocínio do Estado.
A RSF começou como as
milícias “Janjaweed”, que actuavam como irregulares para criar negação por
parte do estado na realização de massacres no Darfur, onde grupos armados
contra o estado operavam. A RSF também serviu ao antigo ditador Omar Al-Bashir
como uma enorme força anti-golpe. Mas tudo isso mudou no final de 2018, quando
o regime de Al-Bashir, abalado pela crise, foi derrubado numa revolta popular
de várias classes devido ao estado implementar austeridade para pagar a crise,
inflação crescente, escassez de bens essenciais e repressão em massa. A RSF
então actuou como a principal força de repressão contra os operários envolvidos
na revolta popular; a classe operária e os desempregados crónicos podem ter
composto a maioria dos envolvidos, mas certamente não estavam a liderar, o que
deixou os operários à mercê dos sindicatos, das facções democráticas da
burguesia que só querem manter a fonte da crise, que é o capitalismo e as armas
da RSF.
A guerra tornou-se
demasiado lucrativa para ambos os lados simplesmente terminar, criando
economias paralelas controladas pela SAF e pela RSF. Ambos estão a tentar
assumir o controlo dos activos produtivos restantes do país, dos recursos
naturais e das redes comerciais. O ouro continua a ser uma das fontes de
receita mais importantes, juntamente com a terra agrícola, o gado, a
tributação, as alfândegas, o sector bancário e o controlo das rotas comerciais.
Mas antes da guerra, o ouro já era uma das fontes mais importantes de divisas
do Sudão e uma grande fonte de riqueza para as forças militares e
paramilitares, especialmente a RSF, sob Hemedti, e a SAF. Em 2025, diz-se que o
ouro representava mais de 70% da receita nacional do Sudão, enquanto as minas
sudanesas produziram cerca de 74,6 toneladas métricas de ouro nesse ano. A
produção aumentou mesmo entre 2023 e 2025, apesar da guerra.
O governo alinhado com o
SAF controla grande parte do sector mineiro formal no leste e norte do Sudão e
reduziu as taxas de concessão mineira e de reprocessamento para incentivar as
empresas licenciadas a continuar a operar. Já a RSF controla áreas importantes
de mineração informal no Darfur e no Kordofan. Por exemplo, em torno de Jabal
Zaraf, no Norte do Kordofan, o ouro é supostamente transportado das áreas
mineiras através de pistas improvisadas, permitindo contornar os controlos
oficiais do governo.
Grande parte do ouro do
Sudão acaba por entrar no mercado internacional através dos Emirados Árabes Unidos,
especialmente no Dubai. Depois de os EAU imporem restricções a voos e envios
para Porto Sudão em Agosto de 2025, o governo apoiado pelo SAF tentou redireccionar
as exportações através do Egipto e seguiu planos para uma refinaria em Doha. Em
Novembro de 2025, estimava-se que cerca de 80% das exportações de ouro do Sudão
já tinham passado para o mercado negro.
Enquanto o apoio cada
vez maior do Egipto às Forças Armadas do Sudão (SAF) pode ser visto em parte
como uma forma de contrariar a Etiópia na sua rivalidade mais ampla pelo Nilo,
o Cairo não tem como impedir a agora concluída Grande Barragem do Renascimento
Etíope. Em vez disso, tornar o Sudão um aliado dependente dá ao Egipto
influência noutros pontos contra Adis Abeba, especialmente porque a Etiópia agora
planeia construir mais barragens no Nilo Azul. O envolvimento do Egipto
estende-se também directamente à competição por terras produtoras de ouro ao
longo da fronteira sudanesa. Relatos indicam que drones e artilharia egípcios
atingiram locais de mineração informal de ouro como al-Ansari e al-Ogaidat no
Estado do Nilo, matando dezenas de mineiros sudaneses em Junho de 2026,
enquanto tropas terrestres egípcias terão seguido alguns ataques para fechar
minas e expulsar os mineiros. Também se diz que aeronaves egípcias atacaram
comboios de abastecimento da RSF que se deslocavam da base aérea de Kufrah, na
Líbia, em direcção ao Darfur. Estes ataques foram apresentados pelo Egipto como
tentativas de impedir envios de armas dos Emirados para a RSF, e o Egipto
também expandiu a sua infraestrutura militar na fronteira sudanesa.
Há uma base secreta de
drones egípcia em East Oweinat, onde drones Akinci fabricados na Turquia terão
sido usados contra posições da RSF. A base foi expandida com pistas mais
longas, edifícios e bunkers militares. Após a visita de Burhan ao Cairo em Dezembro
de 2025, o Egipto e as Forças Armadas Sudanesas (SAF) estabeleceram uma sala de
operações conjunta em North Kordofan para coordenar corredores de abastecimento
e inteligência no campo de batalha, sendo mais tarde criado outro centro de
coordenação em El-Obeid. Oficiais egípcios também fizeram visitas repetidas ao
Sudão para coordenar logística, alvo e sistemas de alerta com as forças da SAF.
A luta pela terra agrícola também precede a guerra. Desde o início dos anos
2000, o governo de Bashir arrendava progressivamente grandes áreas de terra
agrícola irrigada pelo Nilo a investidores do Golfo. Isto acelerou-se após a
crise dos preços dos alimentos em 2008 e novamente depois de 2013, quando o
Sudão foi apresentado como um destino de investimento alternativo para
compensar a perda da maior parte das suas receitas petrolíferas após a
independência do Sudão do Sul em 2011. Uma grande parte deste investimento foi
na produção de alfafa, que era exportada principalmente para a Arábia Saudita e
os Emirados Árabes Unidos para as suas indústrias pecuárias.
Algumas destas concessões
de terras eram enormes. A empresa libanesa GLB Invest detém um arrendamento
renovável de 99 anos que cobre cerca de 87.200 hectares a norte de Cartum. A
empresa saudita Al Rajhi International opera 140 sistemas de irrigação por pivô
central em aproximadamente 50.000 feddans perto de Berber, enquanto o
conglomerado sudanês Moawia Elberier detém direitos sobre até 480.000 feddans.
A Land Matrix registou 762.208 hectares de aquisições de terras em larga escala
no Sudão desde 1972, com a maioria dos negócios a ocorrer após 2000. Estas
áreas eram zonas cercadas anteriormente usadas para agricultura e pastoreio e
também poderiam restringir o acesso a poços. No entanto, a guerra interrompeu
estas áreas e perturbou os 35,7 mil milhões de dólares concentrados em
investimentos em terras, fazendo com que a Arábia Saudita se diversificasse
para além do Sudão. A falta de retorno foi um ponto importante de discórdia
para a Arábia Saudita, um dos maiores credores do Sudão, e isso contribuiu para
que Riade bloqueasse o proposto negócio de 1,5 mil milhões de dólares do
Paquistão para fornecer ao Sudão caças e equipamentos militares.
A guerra imperialista no
Sudão envolve os EUA, o Reino Unido, a Rússia, a Arábia Saudita, os Emirados
Árabes Unidos, o Egipto e todos os outros estados que fazem fronteira com o
Sudão. Os EUA e o Reino Unido querem ser vistos como líderes na assinatura de
acordos de paz, como os propostos pelo enviado dos EUA Massad Boulos no final
de 2025 e em Abril e Junho de 2026, mas os EUA estão a ser guiados pelas
narinas tanto pelos Emirados como pela Arábia Saudita; os EUA não podem irritar
nenhum deles, uma vez que ambos são cruciais para a guerra contra o Irão. Em
vez disso, os EUA têm tentado aparentar ser um negociador imparcial e apenas
tocaram de leve o governo militar do SAF e a RSF com sanções, concentrando-se
apenas em sancionar empresas que já estavam sancionadas, como aquelas que
contratavam mercenários colombianos para a RSF ou o conglomerado militar do
SAF, a DIS. Que já tinha sido sancionada por adquirir armamento iraniano ou
utilizar a experiência técnica iraniana no fabrico de drones.
Enquanto a China tem
vindo apenas a enviar sinais ao governo controlado pela SAF de que lhes
concederá empréstimos sem concessões, perdoando dívidas antigas. A China já
facilitou 340 milhões de Yuan (50 milhões de dólares) de dívidas antigas e 200
milhões em subvenções activas para revitalizar a infraestrutura, com o ministro
das Finanças do Sudão, Gibril Ibrahim, a recordar que a China foi a única
grande potência imperialista a investir continuamente na extracção de petróleo
do Sudão quando o país estava sujeito a sanções devido aos massacres brutais
contra civis no Darfur. Esta estratégia faz parte do grande jogo da China e dos
EUA em África para controlar recursos estratégicos e, assim, lucros futuros,
com a China a usar empréstimos sem concessões contra o poderoso bastão do FMI
dos EUA. A China não está interessada apenas no imperialismo de poder brando e
a sua recente ofensiva dentro da iniciativa Belt and Road para construir
instalações militares mostra uma necessidade de reforçar a sua influência
económica no controlo de pontos estratégicos por todo o continente.
A guerra não dá sinais
de acabar por uma infinidade de razões, além dos imensos lucros que o
beligerante imperialista em crise pode extrair do Sudão, existem enormes
rivalidades que se manifestam na desunião dos campos imperialistas e das forças
armadas locais. Os exemplos mais evidentes são quando o banco central sudanês
investigou e revogou as licenças da fintech Al-Asjad, que pertence aos Emirados
Árabes Unidos e a oficiais militares sudaneses de alta patente, como o general
Mahgoub Albushra e muitos outros. De forma semelhante, com os intermediários do
Irão dentro do governo dominado pelo SAF através da Irmandade Muçulmana
sudanesa. A guerra tem sido uma oportunidade para restaurar relações que um
desesperado Omar Al-Bashir cortou para agradar os EUA em 2016 e salvar o seu
regime em declínio. Isto vai mais além com a IRGC a fornecer ao SAF drones
Mohajer-6 para atacar o RSF, e também para reforçar a posição do Irão no Mar
Vermelho. De forma semelhante, isto envolve o Qatar, que patrocina intensamente
a Irmandade Muçulmana e, por isso, porque a Al Jazeera tem estado em silêncio,
além de publicar alguns artigos humanitários.
No outro extremo está o
governo de unidade e paz baseado em Nairobi, pró-democracia e anti-islamista,
com as principais forças sendo a RSF, facções do SPLM e outros grupos armados
anteriormente envolvidos no movimento anti-Al-Bashir do Novo Sudão. Apesar do
Egipto, todos os outros Estados que fazem fronteira com o Sudão alinharam-se
com eles, devido ao apoio a um Sudão mais fraco e descentralizado e aos imensos
lucros a retirar da classe operária do Sudão, ou aos enormes presentes
financeiros recebidos, como no caso do Chade, que recebeu mais de 12 mil
milhões de dólares para os Emirados Árabes Unidos utilizarem bases aéreas para
coordenar acções com a RSF. De forma semelhante, a Rússia tem sido um dos
principais fornecedores da RSF, utilizando os Grupos Wagner e outras PMCs para
coordenar o movimento de armamento pesado fora da cache de armas na República
Centro-Africana, em troca de concessões de ouro usadas para facilitar o
financiamento da guerra na Ucrânia. A Rússia mantinha-se a apostar até que a
Arábia Saudita forçou a SAF a impedir que a Rússia tivesse acesso ao Porto do
Sudão para fins militares.
Está claro que os operários
não têm interesse em apoiar nenhum dos bandos armados e os seus vários
apoiantes imperialistas. Tanto a RSF como a SAF têm desencadeado cada vez mais
carnificina sobre a classe operária, desde massacres de civis a práticas de
bombardeamento indiscriminado da infraestrutura civil ou a retenção de água,
alimentos e a negação de ajuda como táctica para sitiar cidades. Operários e
refugiados estão a ser espremidos em acampamentos que aumentam o número de
pessoas nos centros urbanos já em colapso em redor de Cartum e no Darfur, sem
quaisquer serviços ou comodidades básicas.
A cidade nordeste do Nilo,
Atbara, era conhecida como a cidade do Aço e do Fogo pelos trabalhadores da
indústria ferroviária. Décadas atrás, o Sudão era um centro de militância
operária dominado pelo principal sindicato dos trabalhadores ferroviários e
pelo partido comunista estalinista, que acabou por se tornar apenas mais um
partido abertamente nacionalista. Com o declínio da indústria, acelerado pela
magnitude da produção de desperdício que financiava o exército durante décadas
de guerra civil em detrimento da modernização, e com a piora da crise de
rentabilidade nos anos 70, a indústria atrofiou e os centros da classe operária
também. Décadas de repressão não conseguiram eliminar totalmente a actividade
de classe, como se vê pelo rico historial de assembleias de base nos períodos
de ausência de sindicatos legais ou actuando fora deles em lutas económicas, ou
pelas mobilizações de massas contra a repressão e as piores condições sociais
para os operários. À véspera do colapso do regime de Al-Bashir em Dezembro de
2018, a composição dos operários envolvidos incluía um maior número de
profissionais precários e proletarizados em Cartum, daí o enorme envolvimento
de professores, trabalhadores de saúde e médicos carentes de financiamento. As
imensas mobilizações populares que derrubaram Al-Bashir eram sempre
enfraquecidas pela liderança política da SPA (Associação Profissional
Sudanesa), que diminuía a confiança dos operários e lhes vendia a derrota ao
redireccionar a energia para concessões democráticas num governo de coligação
dominado pelo exército e pela RSF. Mesmo antes destes actos finais de traição,
a liderança da SPA trabalhava constantemente para limitar a actividade de
classe na procura de reformas democráticas, mesmo quando as massas estavam
mobilizadas em assembleias, e ao mesmo tempo implorava aos operários para
regressarem aos seus postos e às empresas para reabrirem. Fica claro qual é o
seu interesse de classe.
A única solução para os operários
no Sudão, em todo o Sahel devastado pela guerra ou em qualquer outra frente, é
reconhecer a causa da sua miséria e ver o custo cada vez maior que o sistema
capitalista, faminto por lucro, lhes tem causado. As guerras estão a
proliferar, tornando cada vez mais difícil acompanhar as guerras e conflitos em
curso e outros actos de confrontos imperialistas directos e indirectos. As
guerras actuais em curso estão todas relacionadas com as crises causadas por
lucros anémicos. As frentes principais na Ucrânia, no Médio Oriente e no Irão
são confrontos directos entre blocos imperialistas em consolidação, as frentes
estão a generalizar-se e a probabilidade de os capitalistas saírem dos trilhos
e mergulharem os operários em todo o lado numa nova guerra mundial cresce a
cada dia, à medida que o ritmo do rearmamento aumenta e a guerra se torna a
opção preferida. Os operários já podem ver que o mundo não precisa de ser
devastado pela destruição mútua assegurada para que nos seja imposta uma
miséria inimaginável através das mortes, destruição e dezenas de milhões de
refugiados que as guerras imperialistas já causaram. A insegurança alimentar e
a fome também avançam devido à economia mundial cada vez mais bifurcada entre
os dois principais blocos imperialistas. Para os operários, a nossa única
defesa são os órgãos de classe historicamente criados, como os sovietes,
conselhos operários, Shuras, assembleias, comités de greve, etc. Só nestes
órgãos o proletariado pode assumir o poder por nós mesmos, mas mesmo assim os operários
precisam de um ponto de referência política internacional, que é o futuro
partido comunista internacional, para dar a estes órgãos um conteúdo
verdadeiramente revolucionário e evitar que sejam cooptados pela classe
capitalista.
B
Internationalist Workers' Group
A
Class War
Setembro de 2026
Notas:
Imagem: Chloé Leconte
(CC BY-SA 4.0), rescue.org
2ª feira, 14 de Setembro de 2026
Fonte: Sudan:
The Capitalists Stain The Nile Red, Workers Must Raise The Red Flag! | Leftcom
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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