A maldição de
Sabra-Chatila
Samir Geagea: o único sobrevivente dos protagonistas deste massacre, frente
aos seus fantasmas Paris 15 Setembro de 2008 – Com uma…
Por : René Naba - em : Analyse Liban - 13 de Setembro de 2008
Samir Geagea: o único sobrevivente dos
protagonistas deste massacre, perante os seus fantasmas
Paris, 15 de Setembro de 2008 – Com a
regularidade de um metrónomo, a maldição de Sabra-Chatila atinge os seus
promotores, muitas vezes de forma violenta, quase não poupando nenhum dos seus
protagonistas, como se fosse a expressão de uma espécie de justiça imanente,
vinte e seis anos depois deste massacre a sangue frio de quase três mil civis
dos campos palestinianos de Sabra-Chatila, na periferia sudeste de Beirute.
Excepto pelo relatório Kahanna da
comissão de inquérito israelita sobre este massacre e pelo comovente testemunho
do escritor francês Jean Genêt "quatro horas em Chatila" publicado no
Outono de 1983 na Revue d’Etudes Palestiniennes, nenhuma obra de espírito, seja
um filme, um documentário, um relato histórico, quanto mais um
"romance-investigativo" — a técnica narrativa preferida do filósofo
Bernard Henry Lévy para torturar a verdade e atiçar a imaginação e a
curiosidade dos seus seguidores — veio lançar sequer um pequeno feixe de luz
sobre este horrível massacre cometido sem discernimento pelas milícias cristãs
libanesas, guiadas pela soldadesca israelita, embriagada de raiva perante o
fracasso do seu plano de domínio sobre o Líbano.
Durante 26 anos, um manto de silêncio
caiu sobre este episódio pouco glorioso do exército israelita no Líbano,
manchando a sua reputação ao ponto de colocar em causa o lema justificativo dos
seus excessos, a «pureza das armas» israelita, e de alterar a percepção da
opinião internacional em relação a Israel. Quase três mil civis palestinianos
foram massacrados durante dois dias, de 15 a 17 de Setembro de 1982, numa
operação ordenada para vingar o assassinato de Bachir Gemayel, líder das Forças
Libanesas, recém-eleito para a presidência da República Libanesa e assassinado
na véspera da sua tomada de posse. Pela gratuitidade da sua violência cega,
este acto foi na altura comparado pelo Presidente François Mitterrand a
Oradour-sur-Glane, nome de uma operação semelhante realizada pelo exército
alemão contra os habitantes da vila francesa em represália pelo assassinato de
soldados alemães em França.
Vinte e seis anos
depois, o que se tornaram os protagonistas deste drama:
O clã Gemayel, o
grande perdedor do caso apesar de dois presidentes.
Bachir Gemayel, que sonhava em arrasar
os campos palestinianos numa antecipação distante das limpezas étnicas das
guerras pós-comunistas da década de 1990, para tornar o seu país um paraíso na
terra isento das pequenas misérias das grandes fortunas, este chefe militar de
uma comunidade cristã minoritária de um mundo árabe maioritariamente muçulmano,
que se aliou ao principal inimigo do Mundo árabe para alcançar o cargo supremo,
o homem que sustentava para tal que existia um «povo a mais no Médio Oriente»,
ignorando que esse povo a mais podia um dia ser o povo dos cristãos árabes,
realizou bem o seu sonho.
Foi eleito à sombra dos blindados
israelitas, presidente do Líbano, sem, contudo, jamais desfrutar do poder
supremo, nem sequer por um breve momento: seria pulverizado por uma explosão no
seu quartel-general em Beirute-leste, na véspera da cerimónia de juramento
presidencial.
Desde então, a família Gemayel acumula
desgraça sobre desgraça. Por sua própria culpa e pelos seus actos prejudiciais.
A sua história não é uma saga à Kennedy, como gostam de popularizar alguns
jornais ocidentais complacentes, mas uma longa lamentação de lágrimas e sangue,
da qual eles são os principais responsáveis.
Bachir foi assassinado aos 35 anos, em
1982, e o seu sobrinho, Pierre Amine Gemayel, seria assassinado aos 34 anos, em
2006, no seu reduto eleitoral de Jdeiddeh, no Metn, enquanto uma violenta
ofensiva diplomático-militar israelo-americana era novamente lançada em direcção
ao Médio Oriente com o objectivo de pôr na linha os contestatários da «Pax
Americana». Amine Gemayel, o mais velho do clã, que sucedeu ao irmão mais novo
na chefia do Estado após o seu assassinato e que ambicionava suceder no cargo
de deputado ao seu filho assassinado, viveu uma espécie de assassinato político
durante a sua derrota eleitoral em 2007 no seu próprio reduto do Metn, sendo
derrotado por um desconhecido, apesar da simpatia da vila despertada pela tragédia
familiar. A sua crítica ao patriotismo dos libaneses de origem arménia, que lhe
falharam durante essa eleição, demonstrou a dimensão do seu desalento face a
esta derrota inesperada e dolorosa, ao mesmo tempo que revelou uma xenofobia
primária e acre nos círculos dirigentes libaneses sempre que os seus interesses
de clã estivessem em causa.
Se a família Gemayel
conseguiu colocar dois presidentes à frente do Estado libanês, membros da mesma
linhagem, aliás, ela é considerada a grande perdedora da vida política
libanesa, com dois assassinatos dentro da família, sem qualquer visibilidade
parlamentar ou ministerial, o seu tratado de paz com Israel destruído pelos
seus contestatários e, a suprema humilhação para este senhor do território, o
chefe do clã presidencial, Amine, forçado ao exílio em França, durante nove
anos (1991-2000), ao fim de um mandato pouco glorioso, a liderança cristã agora
duramente contestada entre dois líderes - o general Michel Aoun, chefe do
Corrente Patriótica Libanesa (CPL), e Samir Geagea, antigos subordinados da
família Gemayel na altura da presidência familiar (1).
Menahem Begin e o seu
«cavalo louco» Ariel Sharon
Do ponto de vista israelita, a operação
«Paz na Galileia» precipitou o isolamento político de Menahem Begin, histórico
líder da direita messiânica israelita e primeiro-ministro na altura da invasão
do Líbano, vítima directa das investidas descontroladas do seu «cavalo louco»,
o general Ariel Sharon, ministro da defesa, e das visões bíblicas próprias da
direita radical israelita que ele incentivou ao longo do meio século em que
presidiu esse movimento.
Ariel Sharon: mais do que um longo
discurso, uma simples cena do filme «Vals com Bashir» resume melhor do que
qualquer coisa a pessoa, as suas ambições e contradições. Através de uma ficção
narrativa, o cineasta israelita e realizador do filme, Ari Folman, projecta uma
conversa telefónica entre Menahem Begin e Ariel Sharon, logo após os massacres
de Sabra e Chatila.
Nada incomodado por essa horrível
carnificina, segurando com uma mão o telefone, acenando regularmente com a
cabeça em direcção ao seu superior hierárquico, o homem de legendária
compleição mantinha os olhos fixos em dez ovos estrelados que havia pedido para
o seu pequeno-almoço, ……como indiferente aos infortúnios dos outros,
preocupando-se sobretudo durante essa conversa em satisfazer, literalmente e
figurativamente, o seu feroz apetite pelo poder ao mesmo tempo que a sua
bulimia alimentar. O apetite pelo poder, ele o satisfará tornando-se
primeiro-ministro 18 anos depois de Sabra e Chatila; a sua bulimia alimentar
derrubá-lo-á assim como a sua carreira política, mergulhando-o em coma cinco
anos depois… em estado de contiguidade passiva com as suas antigas vítimas. Uma
sequência que ficará na história como um marco da política e ilustra mais do
que tudo o autismo da classe política israelita face ao seu entorno árabe,
especialmente palestiniano.
O sonho de um Líbano forte e refúgio dos
Cristãos do Oriente desmoronou-se. A aventura de Bachir, especialmente a sua
aliança com o inimigo oficial do mundo árabe, levou a uma redução das
prerrogativas constitucionais dos cristãos libaneses, principalmente os
maronitas, no novo arranjo inter-libanês concluído em Taif, sob o patrocínio da
Arábia Saudita, para pôr fim à guerra em 1989.
Os campos de refugiados palestinianos
permaneceram à periferia de Beirute, com uma população maior e mais jovem, como
uma espécie de troça à família Gemayel, agora marginalizada no tabuleiro
político com a ascensão do antigo tenente de Bachir, Samir Geagea, um ambicioso
de ferocidade temível, no centro da cena cristã.
Beirute, que foi o fôlego do mundo árabe
e a sua consciência crítica durante meio século, assume agora, para mais, uma
função traumática na consciência colectiva israelita, pois reivindica o
privilégio único no Mundo de ter simbolizado, por duas vezes na história
contemporânea, a resistência árabe à hegemonia israelo-americana:
A primeira vez, em 1982, durante o cerco
à capital libanesa pelo general Ariel Sharon, na altura em que o sunismo se
identificava com a luta nacionalista, desde o reduto do sunismo libanês em
Beirute-Oeste; A segunda vez, em 2006, desde Beirute-sul, desta vez (ad
dahyah), literalmente a periferia sul da capital, o reduto xiita da capital, na
altura do coma do general Ariel Sharon, onde o xiismo libanês, substituindo a
vassalagem do sunismo árabe ao eixo israelo-americano, assumia o seu lugar para
perpetuar a luta nacionalista árabe.
O apoio dos sucessivos
comandantes-em-chefe do exército libanês – o General Emile Lahoud, o general
Michel Aoun e a simpatia demonstrada pelo novo Presidente da República, o
general Michel Sleimane, antigo comandante-em-chefe do exército, à Resistência
Nacional Libanesa reunida em torno do seu núcleo duro, o Hezbollah xiita,
mostra, indirectamente, a preocupação da hierarquia militar cristã em conter os
impulsos mortais dos «cabeças-quentes» da ordem miliciana, tão prejudiciais ao
campo cristão.
Elie Hobeika e Samir
Geagea, os dois tenentes de Bachir, predadores insaciáveis.
Na sua qualidade de responsável pelo
serviço de informações da formação paramilitar libanesa, Elie Hobeika, um dos
dois tenentes de Bachir Gemayel, é considerado um dos principais responsáveis
pelos massacres de Sabra-Chatila, ao mesmo tempo que Samir Geagea, responsável
operacional das «Forças Libanesas», a quem uma impiedosa guerra de sucessão vai
esgotar ao ponto de marginalizar a principal formação paramilitar do campo
cristão na época da guerra.
O primeiro a sacar e a desencadear as
hostilidades será Elie Hobeika: Por devoção a Bachir, fomentará 24 meses após o
seu assassinato um golpe contra o presidente Amine Gemayel para se apoderar do
partido e do seu tesouro de guerra. Aliado de Israel, mudará de lado em 1985
para se juntar à Síria antes de ser também ele afastado por Samir Geagea.
Performance fraca para um homem responsável pelo serviço de informações.
Exilado do Líbano, regressará em grande estilo no fim da guerra inter-facetada
e da instauração de uma «pax syriana». Consagração suprema, chegará mesmo a
fazer parte dos sucessivos governos libaneses incluindo, em 1992, o de Rafic
Hariri, o milionário líbano-saudita e principal financiador das milícias
libanesas, assassinado em 2005. Pouco antes da sua morte violenta, voltou-se
contra Israel e propunha-se a testemunhar contra Ariel Sharon no processo
movido contra ele na Bélgica por «crime contra a humanidade». Ele teria querido
colocar em causa unidades de comando do exército israelita (os Sayeret Matkal)
que alegadamente teriam actuado sem uniforme durante o massacre. Tal como antes
Bachir e posteriormente o sobrinho do chefe falangista, Pierre Amine Gemayel,
Elie Hobeika morreu na sequência de um atentado com carro armadilhado à frente
da sua casa em 24 de Janeiro de 2002, aos 46 anos.
A sua eliminação não
suscitou nenhum pedido de investigação da comunidade internacional. Os
preparativos para a invasão americana do Iraque, é verdade, estavam a todo o
vapor, assim como a colocação da Síria na lista negra, através do «Syria
Accountability Act», adoptado em 2003. Era importante não se deixar desviar
desse objectivo principal da estratégia israelo-americana pela morte de uma
pessoa, cuja eliminação convinha a muita gente: o primeiro-ministro israelita
Ariel Sharon, directamente visado pelo seu possível testemunho em Bruxelas,
Samir Geagea, o seu rival permanente, Amine Gemayel, o seu antigo líder a quem
ele tirou o partido falangista, casais contrariados e irascíveis a julgar pelas
conquistas femininas que lhe são atribuídas, e, para completar, a Síria, visto
que a implicação deste país em todos os assuntos do Médio Oriente é um
exercício de estilo obrigatório para todos os cronistas ocidentais.
Samir Geagea
O seu pseudónimo não deve enganar: ele
recorre à ambiguidade, tal como o seu personagem à ambivalência. «Al Hakim», o
seu nome de guerra, que significa o sábio ou o médico, nunca foi sábio no seu
comportamento beligerante, para lá de toda medida e desmedida, nem erudito, nem
médico, títulos de que também não possui o grau académico. Esta é a sua
primeira usurpação. Aquele que a sua formação universitária deveria ter
destinado a um comportamento humano revelou-se ser um dos chefes de guerra mais
desumanos, o implacável coveiro do campo cristão, responsável pela decapitação
da família Frangieh, em 1978, não poupando nada nem ninguém desta grande
família do norte do Líbano, ainda que fossem os seus vizinhos, nem sequer uma
menina de três anos ou o cão de guarda à frente da casa.
Recidivista em 1980, ele lançou o
assalto ao reduto do outro aliado dos falangistas, as milícias do PNL (Partido
Nacional Liberal) do presidente Camille Chamoun, em Faqra, na região montanhosa
do Líbano, afogando no sangue forças cristãs que, no entanto, eram aliadas na
mesma coligação. Em Julho de 1983, ele iniciou a luta na montanha do Chouf
contra a milícia drusa liderada por Walid, filho e sucessor de Kamal Joumblatt,
o chefe do partido socialista progressista e líder da comunidade drusa. A sua
ofensiva resultou na destruição de 60 aldeias e no êxodo de uma população
cristã de mais de 250.000 habitantes do Chouf, pondo fim a um século de
convivência druso-cristã na região. O mesmo se verificou com resultados
idênticos em Saída, capital do sul do Líbano, e em Zahlé, no centro do Líbano,
em 1985. Um fraco resultado para o defensor das minorias cristãs oprimidas, que
o seu belicismo acabará por oprimir de forma mais duradoura do que a própria hostilidade.dos
seus adversários.
A lista não é exaustiva. Em 1988, no
final do mandato do presidente Amine Gemayel, Samir Geagea estava à frente de
uma empresa próspera apoiada por uma máquina de guerra bem oleada. O confronto
que ele iniciou contra o general Michel Aoun, comandante-chefe e
primeiro-ministro interino, acabaria por esgotar o campo cristão, com o general
Aoun a seguir o caminho do exílio para Paris, onde permaneceria quinze anos, e
Samir Geagea a caminho da prisão, onde ficaria quase dez anos.
O assassinato do antigo primeiro-ministro
Rafic Hariri, em Fevereiro de 2005, dará origem a uma viragem inacreditável de
alianças, juntando antigos líderes de guerra antagonistas e o seu financiador:
Walid Joumblatt, Samir Geagea, Amine Gemayel e Saad Hariri. Embora tenha levado
à libertação de Samir Geagea graças à aprovação de uma lei de amnistia
esquecida, esta coligação heterogénea e sem credibilidade seria o ponto fraco
do aparelho ocidental para manter o poder libanês sob o seu controlo.
Samir Geagea é o único sobrevivente dos principais
protagonistas do caso de Sabra-Catilá, cujo grande vencedor moral poderia ser,
a posteriori e paradoxalmente, Suleimane Frangieh, o sobrevivente do massacre
que fundou a sua autoridade.
Num país transformado há muito tempo num
gigantesco cemitério, Suleimane Frangieh, cuja família serviu de banco de
ensaio para a matança de Sabra-Catilá, desperdiçará os seus instintos
guerreiros para conceder o perdão das ofensas, sendo o único líder libanês a
realizar este gesto de grandeza moral, devolvendo a vileza ao carrasco da sua
própria família.
Alguns analistas da cena libanesa
defendem que uma viragem política de Nadim Gemayel, filho do Presidente
assassinado Bachir e seu verdadeiro herdeiro político, ou pelo menos do seu
primo em primeiro grau Sami, filho de Amine, seria um pesadelo para Samir
Geagea, privando-o de qualquer legitimidade popular e política, remetendo-o de
volta aos seus próprios fantasmas. A não ser que «Al-Hakim», habitual nestas
manobras de desvio, antecipe este evento com uma acção de contenção para
silenciar os herdeiros Gemayel, uma medida ainda mais necessária dado que a
ausência de herdeiros biológicos o torna frágil e coloca a estabilidade do seu
projecto político em risco, deixando-o à mercê de um golpe do destino.
Samir Geagea escapou assim,
provisoriamente, à justiça dos homens. Personagem funesto, sem descendência,
sem remorsos, sozinho perante os seus males, sozinho perante os seus fantasmas,
preso pelos seus crimes, marcas indeléveis, dificilmente poderia escapar ao
castigo da História... Sem dúvida, o olho estará na sepultura e observará Caim.
Paz à alma das vítimas dos campos
palestinianos de Sabra-Chatila e que a terra dos homens lhes seja leve.
1- No final do seu mandato, Amine Gemayel permaneceu
no Líbano até 1991, altura em que recebeu ameaças de morte detalhadas vindas de
Samir Geagea. Ele confidenciou isso ao então primeiro-ministro, o general
Michel Aoun, chefe do governo interino, que lhe respondeu: «Tendo em conta o
seu passado, é bastante possível que Geagea cumpra as suas ameaças, por isso
aconselho-o a sair do país.» Amine Gemayel apresentou queixa ao
procurador-geral (os documentos escritos e o seu depoimento sobre as ameaças
recebidas estão disponíveis na internet) e então deixou o território libanês.
Voltou em 2000, após um acordo com os sírios negociado por Michel el Murr. O
acordo previa que os sírios permitissem a entrada de Gemayel e, em
contrapartida, o filho de Gemayel se aliaria a Murr nas eleições de Metn, o que
foi feito.
Fonte: La
malédiction de Sabra-Chatila - En point de mire
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice
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