sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Sobre uma nova publicação revolucionária: Communist Prometheus


 

Sobre uma nova publicação revolucionária: Communist Prometheus

A leitura do primeiro número da revista Communist Prometheus[1] (CP) veio confirmar as nossas primeiras impressões após as correspondências e discussões que pudemos ter com os camaradas deste novo grupo. O facto marcante “positivo” é que a revista e o grupo de militantes que a anima defendem claramente, sem ambiguidade, que a situação histórica actual só apresenta uma única alternativa, sem qualquer outra terceira via: revolução proletária mundial ou guerra imperialista generalizada – uma terceira guerra mundial. E perante a guerra imperialista, eles «estendem» o internacionalismo proletário até ao «derrotismo revolucionário»[2]. »

O Manifesto[3] que os camaradas adoptaram como «documento programático» não apresenta de forma sistemática as posições de princípio do grupo, como faria uma plataforma política. No entanto, grande parte das fronteiras de classe defendidas pela Esquerda comunista são mencionadas… excepto as relativas aos sindicatos e à natureza de classe burguesa do trotskismo. Nada é dito sobre os sindicatos. Obviamente, os camaradas não poderão permanecer em silêncio sobre a natureza de classe dos sindicatos hoje, nem que seja porque querem intervir com um mínimo de coerência nas lutas operárias.

Na verdade, a dificuldade e o objectivo de qualquer novo agrupamento de revolucionários – o mesmo se aplica aos militantes individuais – é reapossar-se do legado histórico da Esquerda Comunista Internacional e, se possível, inserir-se na tradição da Esquerda Comunista de Itália. Para isso, é importante romper da forma mais clara possível com todas as formas políticas e ideológicas do esquerdismo. Essa é a orientação que, da nossa parte, temos defendido junto dos camaradas desde o início dos nossos contactos. «Não pode haver atalhos e a adopção das posições revolucionárias não pode ocorrer, depois de toda uma experiência esquerdista (...) sem que se tenha feito um balanço crítico e uma ruptura política clara e profunda. É precisamente durante este balanço e este processo de ruptura que poderão adoptar com total clareza política as posições revolucionárias e fazer vosso o legado da Esquerda Comunista», escrevíamos-lhes em Janeiro de 2026.

Ora, deste ponto de vista, parece-nos que o primeiro número da revista não responde totalmente a esta exigência. A ruptura com o esquerdismo é, no mínimo, insuficiente, como vamos tentar demonstrar. Uma das consequências políticas imediatas é que os membros do grupo, em ruptura organizacional com o grupo esquerdista italiano Lotta Comunista, não consideraram útil pronunciar-se primeiro sobre as plataformas e programas defendidos pelos grupos actuais da Esquerda Comunista antes de adoptarem o seu próprio Manifesto e as suas próprias posições e de constituírem mais um grupo revolucionário. Ora, mesmo que o CP defenda um grande número de posições, ou fronteiras, de classe, a sua reivindicação assumida de uma continuidade organizacional – que passa por esta experiência de duas décadas com a Lotta – e do percurso do seu grupo de militantes desde 1998 não pode deixar de enfraquecer a base política e a coerência programática do CP, tal como a sua homogeneidade política interna. É o que ilustra a ausência de tomada de posição sobre a questão sindical.

 O editorial da revista[4] que não podemos reproduzir aqui, apresenta-nos o CP como «o resultado natural de quase trinta anos de trabalho levado a cabo pelo nosso grupo [o Grupo Marxista de Kirov]. (…) A primeira etapa foi a publicação do jornal Komsa, lançado em Junho de 1998 no contexto de uma profunda crise económica na Rússia. Ao contrário de muitos grupos ‘de esquerda’, não considerávamos 1991 como uma ‘contra-revolução burguesa’; para nós, esta já tinha ocorrido em 1925, quando o estalinismo, depois de triunfar na URSS, abandonou o caminho da revolução mundial. (…) Os princípios do internacionalismo proletário faziam parte integrante da nossa organização desde o início. É por isso que, quando o conflito inter-imperialista se intensificou em 2014 e a Ucrânia se tornou uma das suasfrentes militares, não precisámos de rever as nossas posições. (…) No momento em que uma parte importante da chamada ‘esquerda’ se afundava no chauvinismo social, defendemos incansavelmente a tese marxista clássica: o proletariado não tem pátria, e qualquer nação moderna não é senão uma casca política e económica ao serviço do capital. A tarefa da classe operária em qualquer conflito imperialista resume-se a um único princípio: o principal inimigo está em casa. (…) Hoje, a situação exige que avancemos para a próxima etapa. Como indica o Manifesto[5] publicado, a era das revoluções democráticas burguesas e dos movimentos de libertação nacional terminou definitivamente. O capitalismo encadeou definitivamente o planeta às correntes do mercado mundial, mantendo ao mesmo tempo a classe dos trabalhadores assalariados dividida. 

A publicação Communist Prometheus é ditada pela necessidade de nos empenharmos num trabalho concreto com vista à formação de um partido comunista mundial. Avaliamos as nossas forças com lucidez, não nos consideramos um partido plenamente constituído e reconhecemos que somos apenas um componente do movimento concreto que tende para isso. Nesse caminho, mantemos-nos abertos à colaboração com todas as organizações da Esquerda comunista que defendem de forma coerente as posições do marxismo e do internacionalismo proletário.

Portanto, parece acima de tudo que o novo grupo não é "novo", já que se reivindica de uma continuidade organizacional e política com o grupo russo Kirov Marxist Group [KMG], constituído em 1998. Outro artigo da revista, Searching for a Way[6] [À procura de um caminho] fornece-nos mais informações sobre o percurso do KMP até ao Communist Prometheus hoje, o que pode esclarecer a natureza e a realidade desta continuidade orgânica reivindicada. Há três momentos da história que devem ser destacados:

- citando o editorial do primeiro número da Komsa, Searching for a Way parece situar a origem do grupo na organização juvenil do partido comunista russo estalinista da altura, o Komsomol: «No final da era soviética [da URSS?], o termo ‘Komsa’ designava a ala rebelde e incontrolável da organização de massas do Komsomol, ou seja, aqueles que não suportavam ter de assistir a reuniões enfadonhas e todas iguais»;

« Em Agosto de 2000, o KMG participou na segunda conferência do Movimento por um Partido Operário (DzRP). Durante esta conferência, ocorreu uma cisão: os delegados do Partido Marxista dos Trabalhadores e da Fracção Operária do DzRP saíram do movimento; pouco depois, o KMG também se retirou da organização.. » O artigo do CP não indica que o Workers’ Party e os outros participantes nesta conferência eram na sua maioria grupos trotskistas e nada é dito sobre as razões políticas da sua « retirada »;  

- por fim, « ao longo do inverno de 2000, a organização italiana Lotta Comunista entrou em contacto connosco. (…) Esta escolha permitiu-nos: alargar os nossos horizontes marxistas e aprofundar a nossa experiência; aceder à análise estratégica aprofundada e de longo prazo das relações internacionais conduzida pela Lotta Comunista há décadas, bem como a documentos científicos mais específicos, mas igualmente valiosos, abrangendo uma ampla variedade de questões; adoptar um modelo de trabalho organizacional sério, responsável, disciplinado e sistemático, baseado numa planificação a longo prazo

[7]. »

Portanto, ao ler textos publicados, percebe-se que todo o percurso de Komsa até Communist Prometheus está ligado a organizações de esquerda e esquerdistas, ou seja, a organizações e correntes contra-revolucionárias e burguesas. Isto apresenta um problema político para qualquer agrupamento, formal ou informal, de indivíduos e militantes revolucionários. Sejamos claros, não estamos aqui a julgar as circunstâncias particulares pelas quais os indivíduos e membros atuais do CP possam ter passado ao longo da sua vida militante. Pelo que os camaradas nos disseram, não temos dúvidas sobre a honestidade e a sinceridade do seu compromisso militante. Mas o percurso pessoal e o percurso das organizações políticas devem ser distinguidos. A ruptura política e de princípio com o esquerdismo não pode acontecer sem descontinuidade e ruptura organizacional para qualquer agrupamento de militantes.

Ora, os artigos da revista não nos fornecem explicações claras, ou seja, programáticas e de princípio, sobre as motivações da sua ruptura com o estalinismo do Komsomol, os trotskistas do Workers Party ou mesmo com o Lotta Comunista. A sua ruptura com o estalinismo parece ter incidido mais sobre questões secundárias do que sobre questões de princípio, se formos pelo que apresenta o CP. Apresentada como o «período romântico da [sua] formação revolucionária» – confundindo aqui também trajectórias individuais, por um lado, e continuidade organizacional e descontinuidade de classe, por outro – o CP indica-nos quais teriam sido os supostos «princípios leninistas reconstruídos» então: a rejeição do militante de carreira (os burocratas estalinistas?); « num período não revolucionário, a política é apanágio de minorias restrictas e organizadas – as vanguardas das classes »; « o reconhecimento da necessidade de um órgão de imprensa que nos seja próprio (…) enquanto organizador » colectivo; « o facto de se posicionar como organização da classe operária mundial »; e « uma estratégia elaborada com base numa análise marxista ». Só « o Estado enquanto aparelho de violência de classe da classe dominante » pode remeter para uma questão de princípio de classe. Não é preciso dizer que muitos militantes de esquerda, incluindo estalinistas, podem fazer todos esses supostos “princípios”. Para Lotta, acontece o mesmo. Só se menciona uma única questão de princípio: « a atitude em relação ao suposto ‘Movimento de Resistência’ durante a Segunda Guerra Mundial [8]. »

Mais perigoso ainda, como vimos na citação anterior, os camaradas veem os seus vinte anos na Lotta Comunista como um momento positivo da sua evolução. « Aprendemos muito ao longo deste quarto de século, e ganhámos e formámos novos camaradas. (…) Este quarto de século não foi tempo perdido. Tornámo-nos incontestavelmente mais fortes do que éramos quando conhecemos a Lotta Comunista. É precisamente por isso que não se pode dizer que demos dois passos atrás. Continuamos a avançar. Tendo percebido que permanecer mais tempo na Lotta Comunista era incompatível com as conclusões a que chegámos (expostas no nosso ‘Manifesto’), tomámos a única decisão possível: romper as nossas relações com esta organização. » (destacamos)

A ruptura com a Lotta Comunista – assim como com o estalinismo e o trotskismo – não está feita ao nível dos princípios, pelo menos não entendida como tal. Não pode incidir apenas sobre o militância, a necessidade de uma revista «organizadora colectiva» ou outra coisa semelhante; mas sobre o facto de estes movimentos terem traído o internacionalismo proletário, com a teoria estalinista do «socialismo num só país» e a participação do trotskismo e dos antepassados da Lotta Comunista nos movimentos de resistência anti-fascista durante a 2.ª Guerra Mundial. Consequentemente, eles são total e definitivamente, enquanto correntes e organizações, passados para o campo da contra-revolução. A partir deste facto histórico, os comunistas não discutem ou debatem com eles, não «reconstroem princípios ditos leninistas» que teriam sido abandonados por estes; eles denunciam-nos e combatem-nos e apelam aos seus militantes sinceros para romper politicamente com estas organizações burguesas.

Talvez os camaradas estejam mais ou menos conscientes da fraqueza da sua ruptura tal como a apresentam: «As divergências mais profundas [com a Lotta Comunista] encontrarão expressão nas páginas da nossa revista. A polémica aberta sempre foi uma arma do marxismo, e continuaremos a utilizá-la na nossa luta.», afirma a revista. Só podemos encorajá-los a seguirem por este caminho de forma decidida, abandonando qualquer hesitação ou timidez. A ausência de um balanço crítico da sua experiência passada e de uma ruptura clara com toda forma de esquerdismo, inclusive o desta organização[9], só pode prejudicar o trabalho de reapropriação histórica que o CP e os seus membros têm de levar a cabo. A longo prazo, é toda a coerência de princípio e de programa e, com ela, a homogeneidade do grupo como tal, que ficaria prejudicada, precisamente no momento em que se anuncia o furacão histórico.

A orientação que definimos em relação aos camaradas desde o início da nossa relação não mudou. As nossas observações críticas podem parecer severas. Elas visam participar na clarificação e no agrupamento mais completo dos membros do CP dentro da Esquerda Comunista. É também por isso que, apesar das nossas críticas, saudamos e apoiamos a vontade dos camaradas de participar nos debates que atravessam o campo proletário. Não duvidamos que é também nos debates e confrontos políticos com os grupos da Esquerda Comunista que os membros do CP tomarão consciência da necessidade de uma ruptura clara e nítida com toda forma de esquerdismo.[10].

 

IGCL, Julho de 2026



[1]. 100 páginas em russo, italiano, espanhol e inglês! (https://comprom.org/)

[2]. https://comprom.org/en/about/ 

[3]. https://comprom.org/en/manifest/

[4]. https://comprom.org/en/blog/editorial-note/

[5]. https://comprom.org/en/manifest/

[6]. https://comprom.org/en/blog/in-search-of-the-way/

[7]. Isso significa que os membros do CP fazem um balanço positivo da sua experiência e actividade militante na Lotta Comunista.

[8]. Os desacordos apresentados pelos camaradas não dizem respeito a questões de princípio nem ao carácter burguês da Lotta Comunista: «No entanto, depois de quase um quarto de século, fomos forçados a romper as nossas relações com esta organização, porque, durante todo esse tempo, ela não conseguiu colocar uma série de questões-chave, estreitamente ligadas entre si, sobre as causas da passividade actual da nossa classe; as condições em que esta superará essa passividade; e o que deveria ser, precisamente nessas condições de classe, o modelo do próprio partido, os seus métodos de trabalho e o próprio tipo de revolucionário proletário

[9]. Esta organização, pouco conhecida fora de Itália – tem um grupo em França que publica o jornal L’internationaliste – «vive» do seu controlo sobre todo um aparelho sindical italiano. Ela aproveita as finanças assim obtidas para desenvolver o seu aparelho organizacional com «permanentes», ou ainda atrair militantes em exílio, fornecendo-lhes trabalho e salário, pagos graças aos fundos retirados do aparelho sindical. Um pouco como os lambertistas em França. O seu funcionamento interno e a «gestão» dos seus militantes são de caráter sectário e até «violento», se necessário. Ao mesmo tempo que se reivindica da resistência anti-fascista italiana, também se afirma como uma componente da Esquerda de Itália, o que todos as correntes e grupos provenientes do PC de Itália e da sua fracção de esquerda dos anos 1920 e 1930 rejeitam e denunciam com razão.

[10]. É por isso que publicamos a seguir uma carta crítica da parte deles sobre o nosso artigo Ou como o conselhismo, expulso pela porta, volta pela janela no nosso número anterior (cf. Révolution ou guerre #34: https://igcl.org/Les-conseils-ouvriers-et-le-parti e em Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: "Os conselhos operários e o partido de classe": ou como o conselhismo, expulso pela porta, volta pela janela). Fazemo-lo seguir da resposta que enviámos ao CP e que vai muito além, era essa a nossa intenção, do desacordo particular que os camaradas expressam sobre a «auto-organização»

 

Aviso

 Enviámos este artigo ao Communist Prometheus antes da sua publicação para informação. Recebemos uma carta de 5 páginas a criticar fortemente a nossa posição. Apesar do pedido deles, não podemos reproduzi-la nesta edição. Tivemos em conta algumas observações específicas e mudámos algumas partes. Reservamo-nos o direito de publicar excertos na nossa próxima edição.

 2 de Setembro de 2026


Fonte: www.igcl.org 

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice 



 



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