Um Novo Livro sobre a Análise
Marxista da Economia Soviética
A natureza da União
Soviética e da sua economia tem sido uma das questões mais espinhosas no âmbito
daqueles que se reclamam da tradição marxista. Mesmo após a dissolução da União
Soviética, a questão manteve a sua relevância – não apenas como uma questão
histórica, mas também como algo que lança muita luz sobre os objectivos
imediatos do movimento proletário, a natureza da sociedade comunista e até
mesmo os fundamentos da crítica à sociedade capitalista. Desde o momento em que
foi fundada, a União Soviética (na altura ainda RSFSR) foi um foco de
controvérsia dentro do movimento operário. Para Karl Kautsky e outros marxistas
"ortodoxos" da Segunda Internacional, o esforço dos bolcheviques era
falho desde o início, tendo saltado a necessária etapa burguesa do
desenvolvimento capitalista. Para os marxistas revolucionários que se juntaram
à Terceira Internacional, o sistema de democracia soviética criado pela classe operária
na Rússia era um exemplo da "ditadura do proletariado" na tradição da
Comuna de Paris. No entanto, mesmo depois de a contra-revolução ter triunfado e
os sovietes terem sido esvaziados do seu conteúdo proletário, a nova classe
dominante na Rússia, escondendo-se atrás de slogans marxistas, continuava a
afirmar que este sistema permanecia essencialmente o mesmo e que a classe operária
de alguma forma ainda estava no controlo. Manter isto durante os altos e baixos
da era estalinista exigiu violentar seriamente a teoria de Marx. Aqueles que
pensam que o socialismo é quando uma claque do partido planeia centralmente o
desenvolvimento capitalista, ou que a nacionalização é equivalente à
socialização, ainda carregam essas feridas profundas. Isto complica-se ainda
mais pelo facto de que a maioria das críticas à União Soviética na esfera
marxista (pelo menos no mundo anglófono) ter vindo de trotskistas que estiveram
presos às formulações ossificadas de Trotsky sobre 'estados operários
deformados' e 'degenerados'. Mesmo aqueles que acharam esses termos
insuficientes ainda foram limitados pela sua incapacidade de ver o papel voluntário
de Trotsky na contra-revolução, produzindo teorias que, fundamentalmente,
servem para obscurecer a crítica de Marx ao capitalismo.
Uma Análise Marxista da Economia Soviética, de Erwan Moysen, recentemente publicada pela
Routledge, tem a enorme vantagem de cortar através de um século de debates
prolixos e fornecer uma visão clara e nova sobre o tema. O autor começa por
lembrar o leitor da visão de Marx sobre várias questões essenciais: que o
capital é uma relação social baseada no afastamento do operário das condições
do seu próprio trabalho e que a acumulação capitalista é a intensificação dessa
relação; que o capital deve ser visto como uma totalidade, e não como uma colecção
de capitais individuais, para se perceber como realmente funciona; que existe
uma distinção entre a abolição da propriedade privada individual e a da
propriedade privada como propriedade de classe; que a competição entre capitais
é o que executa as leis internas do capital, em vez de competição ser sinónimo
de capitalismo em si; e, finalmente, que a questão da existência de classes não
deve ser procurada em termos jurídicos ou na existência de certas profissões, mas antes as
relações subjacentes de produção.
Além disso, é enfatizada
a descrição do socialismo segundo Marx e Engels – de uma sociedade global sem
classes, Estados, trabalho assalariado, produção de mercadorias ou
dinheiro.
O livro aplica estes
fundamentos de uma orientação marxista para argumentar de forma convincente que
a União Soviética – desde a sua predecessora czarista, passando pelo período do
“comunismo de guerra”, pela NEP, até ao pleno desenvolvimento do sistema
estatal capitalista estalinista e o seu eventual declínio – foi uma economia
capitalista de acordo com a definição marxista. Em contraste com aqueles que
defendem que o desenvolvimento da indústria foi crucial para a construção do
socialismo ou que existia um capitalismo não imperialista, mostra-se que a
União Soviética era ao mesmo tempo uma economia capitalista em desenvolvimento
e sujeita aos mesmos impulsos imperialistas que outras nações capitalistas.
No geral, o que este
livro deixa perfeitamente claro é o abismo absoluto que separa o marxismo do estalinismo.
Um é a crítica implacável à sociedade capitalista do ponto de vista da classe operária
internacional. O outro é uma paródia grotesca que baptiza todas as
características da sociedade capitalista com nomes marxistas. Sob este
conceito, a dominação de classe, o trabalho assalariado e a produção de mercadorias
tornam-se socialismo, e os interesses do Estado-nação tornam-se os da classe operária
internacional.
A União Soviética pode
ter deixado de existir, mas o legado venenoso dos seus apologistas continua
vivo. Este livro serve como uma resposta essencial àqueles chamados marxistas
que querem modelar o socialismo do futuro com base no “socialismo” do passado.
Além disso, ao expor de forma tão clara os fundamentos do marxismo em relação
ao seu “experimento” mais famoso, espera-se que este livro ajude de algum modo
a aliviar o “peso de pesadelos de gerações mortas” na mente de quem se sente
perplexo com o que foi a União Soviética.
JS
Communist Workers' Organisation
Julho de 2026
Domingo, 27 de Setembro de 2026
Fonte: A
New Book on Marxist Analysis of the Soviet Economy | Leftcom
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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