domingo, 27 de setembro de 2026

Um Novo Livro sobre a Análise Marxista da Economia Soviética

 


Um Novo Livro sobre a Análise Marxista da Economia Soviética

A natureza da União Soviética e da sua economia tem sido uma das questões mais espinhosas no âmbito daqueles que se reclamam da tradição marxista. Mesmo após a dissolução da União Soviética, a questão manteve a sua relevância – não apenas como uma questão histórica, mas também como algo que lança muita luz sobre os objectivos imediatos do movimento proletário, a natureza da sociedade comunista e até mesmo os fundamentos da crítica à sociedade capitalista. Desde o momento em que foi fundada, a União Soviética (na altura ainda RSFSR) foi um foco de controvérsia dentro do movimento operário. Para Karl Kautsky e outros marxistas "ortodoxos" da Segunda Internacional, o esforço dos bolcheviques era falho desde o início, tendo saltado a necessária etapa burguesa do desenvolvimento capitalista. Para os marxistas revolucionários que se juntaram à Terceira Internacional, o sistema de democracia soviética criado pela classe operária na Rússia era um exemplo da "ditadura do proletariado" na tradição da Comuna de Paris. No entanto, mesmo depois de a contra-revolução ter triunfado e os sovietes terem sido esvaziados do seu conteúdo proletário, a nova classe dominante na Rússia, escondendo-se atrás de slogans marxistas, continuava a afirmar que este sistema permanecia essencialmente o mesmo e que a classe operária de alguma forma ainda estava no controlo. Manter isto durante os altos e baixos da era estalinista exigiu violentar seriamente a teoria de Marx. Aqueles que pensam que o socialismo é quando uma claque do partido planeia centralmente o desenvolvimento capitalista, ou que a nacionalização é equivalente à socialização, ainda carregam essas feridas profundas. Isto complica-se ainda mais pelo facto de que a maioria das críticas à União Soviética na esfera marxista (pelo menos no mundo anglófono) ter vindo de trotskistas que estiveram presos às formulações ossificadas de Trotsky sobre 'estados operários deformados' e 'degenerados'. Mesmo aqueles que acharam esses termos insuficientes ainda foram limitados pela sua incapacidade de ver o papel voluntário de Trotsky na contra-revolução, produzindo teorias que, fundamentalmente, servem para obscurecer a crítica de Marx ao capitalismo.

Uma Análise Marxista da Economia Soviética, de Erwan Moysen, recentemente publicada pela Routledge, tem a enorme vantagem de cortar através de um século de debates prolixos e fornecer uma visão clara e nova sobre o tema. O autor começa por lembrar o leitor da visão de Marx sobre várias questões essenciais: que o capital é uma relação social baseada no afastamento do operário das condições do seu próprio trabalho e que a acumulação capitalista é a intensificação dessa relação; que o capital deve ser visto como uma totalidade, e não como uma colecção de capitais individuais, para se perceber como realmente funciona; que existe uma distinção entre a abolição da propriedade privada individual e a da propriedade privada como propriedade de classe; que a competição entre capitais é o que executa as leis internas do capital, em vez de competição ser sinónimo de capitalismo em si; e, finalmente, que a questão da existência de classes não deve ser procurada em termos jurídicos ou na existência de certas profissões, mas antes as relações subjacentes de produção.

Além disso, é enfatizada a descrição do socialismo segundo Marx e Engels – de uma sociedade global sem classes, Estados, trabalho assalariado, produção de mercadorias ou dinheiro. 

O livro aplica estes fundamentos de uma orientação marxista para argumentar de forma convincente que a União Soviética – desde a sua predecessora czarista, passando pelo período do “comunismo de guerra”, pela NEP, até ao pleno desenvolvimento do sistema estatal capitalista estalinista e o seu eventual declínio – foi uma economia capitalista de acordo com a definição marxista. Em contraste com aqueles que defendem que o desenvolvimento da indústria foi crucial para a construção do socialismo ou que existia um capitalismo não imperialista, mostra-se que a União Soviética era ao mesmo tempo uma economia capitalista em desenvolvimento e sujeita aos mesmos impulsos imperialistas que outras nações capitalistas.

No geral, o que este livro deixa perfeitamente claro é o abismo absoluto que separa o marxismo do estalinismo. Um é a crítica implacável à sociedade capitalista do ponto de vista da classe operária internacional. O outro é uma paródia grotesca que baptiza todas as características da sociedade capitalista com nomes marxistas. Sob este conceito, a dominação de classe, o trabalho assalariado e a produção de mercadorias tornam-se socialismo, e os interesses do Estado-nação tornam-se os da classe operária internacional. 

A União Soviética pode ter deixado de existir, mas o legado venenoso dos seus apologistas continua vivo. Este livro serve como uma resposta essencial àqueles chamados marxistas que querem modelar o socialismo do futuro com base no “socialismo” do passado. Além disso, ao expor de forma tão clara os fundamentos do marxismo em relação ao seu “experimento” mais famoso, espera-se que este livro ajude de algum modo a aliviar o “peso de pesadelos de gerações mortas” na mente de quem se sente perplexo com o que foi a União Soviética.

JS
Communist Workers' Organisation
Julho de 2026

 

Domingo, 27 de Setembro de 2026

 

Fonte: A New Book on Marxist Analysis of the Soviet Economy | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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