segunda-feira, 24 de maio de 2021

Como o capital americano prepara a sua próxima guerra

 


 24 de Maio de 2021  Robert Bibeau 

Por Pepe Escobar.

Fonte The Saker's Blog

Andrei Martyanov é um caso especial. Este bebé boomer de terceira vaga, nascido no início da década de 1960 em Baku, no Cáucaso, que era então parte da antiga URSS, é provavelmente o principal analista militar da esfera russa. Ele vive e trabalha nos Estados Unidos, escreve em inglês para um público mundial e ainda se destaca no seu blog intitulado Reminiscence of the Future.

Já tive o prazer de rever os seus dois livros anteriores. Em Losing Military Supremacy: The Myopia
American Strategic Planning
publicado há quase três anos, ele demonstrou convincentemente que a lacuna de mísseis EUA-Rússia era comparável a um "abismo tecnológico" e que o Khinzal era "uma mudança completa na geo-política, estratégica, operacional, táctica e psicológica".

Nele, ele mapeou em detalhe "a chegada definitiva de um paradigma completamente novo" na guerra e na tecnologia militar. Esta revisão está incluída no meu próprio e-book intitulado Shadow play,disponível no Asia Times.

De seguida ele publicou A (Real) Revolução nos Assuntos Militares, onde foi ainda mais longe explicando como esta "revolução" introduzida ao Pentágono pelo falecido Andrew Marshall, também conhecido como Yoda, o inventor de facto do conceito de "pivot para a Ásia",foi realmente concebido pelos teóricos militares soviéticos na década de 1970, sob o nome MTR (Revolução Tecnológica).

O seu novo livro, Desintegração,completa esta trilogia. E é um final incrível.

Neste livro, Martyanov analisa meticulosamente o declínio imperial, por temas, com capítulos sobre consumo, geo-economia, energia, perda da corrida armamentista, entre outros. Ele faz uma acusação devastadora, particularmente contra os lobbies tóxicos de Washington e a mediocridade política que prevalece do outro lado do Beltway. O que se revela ao leitor é a complexa interacção das forças que estão na raiz do caos político, ideológico, económico, cultural e militar americano.

O capítulo 3, dedicado à geo-economia, é um verdadeiro passeio no parque. Martyanov mostra como a geo-economia, como um domínio distinto da guerra e da geo-política, não passa de um emaranhado obscuro: o bom e velho conflito "envolto na fina embalagem da ciência política com intelectualismo superficial" - o material de que os sonhos de Huntington, Fukuyama e Brzezinski são feitos.

Este tema é totalmente desenvolvido no Capítulo 6, dedicado às elites ocidentais, com um desmantelamento contundente do "mito henry kissinger": Outro político de excepção americano, falsamente referido como "realista",que faz parte de um bando que "não está condicionado a pensar de forma multidimensional". Afinal, eles ainda são incapazes de entender o raciocínio e as implicações do discurso de Munique de Putin em 2007, que declarou o momento unipolar - um eufemismo grosseiro para dizer hegemonia - morto e enterrado.

Como não ganhar a guerra

Uma das principais conclusões de Martyanov é que depois de perder a corrida armamentista e todas as guerras que começou no século XXI - como mostra o seu registo - a geo-economia é essencialmente um "eufemismo para qualificar assanções e as tentativas incessantes dos Estados Unidos de sabotar a economia de qualquer nação capaz de competir com eles" (veja, por exemplo, a saga do Nord Stream 2). É "a única ferramenta" (é ele que sublinha) que os Estados Unidos usam para tentar conter o seu declínio.

Num capítulo consagrado à energia, Martyanov demonstra que a aventura do petróleo de xisto dos EUA não é financeiramente viável e que o aumento das exportações de petróleo deve-se principalmente ao facto de que os Estados Unidos "recuperaram as cotas libertadas principalmente como resultado de cortes de producção da Rússia e da Arábia Saudita dentro da OPEP, cortes feitos para equilibrar o mercado mundial de petróleo".

No capítulo 7, intitulado "Perdendo a Corrida armamentista",Martyanov desenvolve o tema-chave do qual ele é a superstar indiscutível: os Estados Unidos não podem vencer guerras. Infligir uma guerra híbrida é uma questão completamente diferente, é criar "muita miséria no mundo, matando efectivamente as pessoas à fome para levá-las à sua morte total".

As sanções económicas de "pressão máxima" contra o Irão são um exemplo claro. Mas o facto é que essas ferramentas, que também incluem o assassinato do General Soleimani, fazem parte do arsenal da "propagação da democracia" e não têm nada a ver com "geo-economia",mas têm "tudo a ver com jogos de poder grosseiros projectados para alcançar o objectivo clausewitziano principal da guerra" - "forçar nosso inimigo a obedecer à nossa vontade". E "Para a América, a maior parte do mundo é o inimigo."

Martyanov também se sente compelido a actualizar aquilo no que ele é bom há anos: o facto de que a chegada de mísseis hipersónicos "mudou a guerra para sempre". O Khinzal, implantado em 2017, tem um alcance de 2.000 km e "não é interceptável pelos sistemas antimísseis existentes nos EUA". O Zircon 3M22 "muda completamente a estratégia de guerra naval e terrestre. O atraso dos EUA sobre a Rússia nos sistemas de defesa aérea é "maciça, quantitativa e qualitativamente".

A desintegração também é uma crítica contundente ao fenómeno eminentemente pós-modernista, caracterizado pela fragmentação cultural infinita e pela recusa em aceitar que "a verdade é conhecida e pode ser objecto de acordo" - responsável pela actual reengenharia social dos Estados Unidos, em conjunto com uma oligarquia que "obviamente não é muito brilhante, apesar da sua riqueza".

E depois há a assustadora Russofobia. Martyanov emite o alerta vermelho definitivo: "Claro, os Estados Unidos ainda são capazes de iniciar uma guerra com a Rússia, mas se isso acontecer, significará apenas uma coisa: os Estados Unidos deixarão de existir, assim como a maioria da civilização humana. O que é horrível é que há pessoas nos Estados Unidos para quem até este preço é muito baixo para pagar. »

No final, um intelecto científico frio só pode contar com uma realpolitik sólida: assumindo que os Estados Unidos evitam uma desintegração completa em "territórios separatistas",Martyanov ressalta que a única maneira de a "elite" americana manter algum tipo de controle "sobre gerações cada vez mais acordadas ou dessensibilizadas pelas drogas" é a tirania. Na verdade, tecno-tirania. E este parece ser o novo paradigma disfuncional no horizonte.

Pepe Escobar

Traduzido por Wayan, revisto por Hervé para o Saker de língua francesa

 

Fonte: Comment le capital américain prépare sa prochaine guerre – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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