A quarta revolução industrial e as «plataformas
digitais»
26 de Dezembro de 2025 Robert Bibeau
Por Robert Bibeau
A quarta revolução industrial e as «plataformas digitais»
Os sistemas informáticos denominados «plataformas digitais» posicionam-se como
intermediários que reúnem diferentes utilizadores: clientes, anunciantes,
prestadores de serviços, produtores de bens, grossistas, comerciantes e até
mesmo objectos físicos interagindo para a produção e entrega de um bem ou
serviço.
Nas fábricas, no que é conhecido como a quarta revolução industrial, a plataforma industrial reúne sistemas
ciberfísicos (SCP) incorporados que utilizam sensores para recolher dados para
interagir com processos físicos através de comandos. Estes sistemas estão
conectados entre si através de redes digitais. Eles utilizam dados e serviços
disponíveis mundialmente e beneficiam de interfaces multimodais entre pessoas e
máquinas.
Essas plataformas digitais são criadoras de valor, ou seja, elas participam
na valorização do capital, produzindo mais-valia relativa através do aumento da
produtividade do trabalho assalariado, fonte única de valor mercantil no modo
de produção capitalista.
De forma muito concreta, esta indústria de plataformas digitais surgiu no
coração da economia política mais avançada da humanidade, onde se concentram ao
mais alto nível as contradições deste modo de produção. Os especialistas
deram-lhe o nome de GAFAM para Google, Apple, Facebook, Amazon,
Netflix, Airb&b e Microsoft, todas empresas americanas, se é que tal
denominação ainda faz sentido nesta «era» da mundialização, em que cada uma
dessas empresas multinacionais possui activos e accionistas num grande número
de países e transfere os seus lucros para paraísos fiscais offshore.
Alguns acreditam que essas «plataformas digitais» seriam uma
ameaça ao capital histórico, industrial e produtivo. Assim, há alguns anos, a
União Europeia, o Canadá, a China e a Rússia têm legislado para combater o
domínio desses gigantes da tecnologia sobre os dados sensíveis da economia. A
ameaça que representam estas megaempresas não é diferente daquela que
representavam a Ford, a GM, a Boeing, a General Electric ou a IBM no século
passado. É a ameaça de uma superpotência hegemónica na sua concorrência para
monopolizar os meios de produção e os mercados, a fim de acumular o máximo de
capital.
Por enquanto, a digitalização em plataforma penetrou amplamente no domínio
dos serviços, da comercialização e das comunicações, mas agora está a
transbordar e a expandir-se para sectores que parecem mais difíceis de
conquistar devido a barreiras regulatórias, tecnológicas e jurídicas.
A digitalização da
indústria é difícil, mas inevitável.
O grande receio dos capitalistas industriais é ver os agitadores de Silicon
Valley a introduzirem-se na partilha dos lucros. Basta observar como o fenómeno
das «plataformas digitais» se apropriou de uma grande parte dos lucros das indústrias
do turismo, das comunicações, da publicidade, da edição, do imobiliário e, em
breve, das finanças (bolsa, banca e seguros).
Como intermediária, a plataforma impõe-se como uma infraestrutura
indispensável que visa uma posição monopolística como condição para a sua
eficácia e rentabilidade. Os processos judiciais movidos por bancos e
seguradoras não visam tanto travar a penetração das plataformas digitais no seu
sector e na indústria em geral, mas sim negociar a partilha dos benefícios de
produtividade esperados.
Ao contrário da França
e do Reino Unido, a Alemanha, campeã em bens de equipamento e indústrias
química e mecânica, manteve-se à margem não do digital – que já penetrou na
indústria clássica –, mas da indústria das «plataformas», que constitui uma
modalidade de entrega de serviços e mercadorias. No entanto, a digitalização e
a informatização não conhecem fronteiras geográficas ou técnicas. Apesar da sua
relutância, os industriais alemães (os mais avançados da Europa) vêem-se
obrigados, quer queiram quer não, a entrar na dança das plataformas digitais.
Uma característica destas inovações é a ligação em rede de todos os
elementos do processo de produção, a fim de construir a fábrica ultra-conectada
do futuro. Por outras palavras, a quarta revolução industrial lançada nos
Estados Unidos e difundida no Japão, na China e na Alemanha baseia-se na
interligação de máquinas integradas num universo fragmentado, parcelado e mundializado
chamado Sistema Produtivo Cibernético,
que exige uma abordagem mundial e transversal dos diferentes componentes
técnicos. Uma espécie de arquitectura em forma de teia de aranha que se auto-regula
primeiro à escala da empresa e, em seguida, à escala mundial.
As máquinas e peças fabricadas têm a
capacidade de interagir e reconhecer-se mutuamente através de um sistema de
controlo integrado e dirigir-se para onde são solicitadas. Uma superestrutura
gigantesca que actua mundialmente através das telecomunicações, utilizando
sensores e chips RFID, interligados e ordenados pela indústria de plataformas.
O grande capital
alemão teme pelos seus lucros.
Na Alemanha, a Google é apresentada como o
concorrente n.º 1 da indústria germânica. Os industriais alemães temem que, à
semelhança de outros sectores como a edição, a hotelaria e o turismo, os gigantes
da Internet e do digital imponham a sua relação exclusiva com o cliente final.
Detendo o acesso aos dados de utilização e às interfaces que orientam as
escolhas dos consumidores, estão em posição de força para captar uma parte
importante das margens de lucro.
Recentemente, o fabricante de automóveis
Porsche tomou a iniciativa. «Segundo Lutz Meschke, o crescimento do carpooling
e dos serviços do tipo VTC, carros de transporte sem motorista, deverá, a longo
prazo, dentro de 7 a 10 anos, tornar o uso partilhado de um carro tão
conveniente quanto possuir um». Uma tendência que, segundo ele, deverá impactar
o volume de vendas de veículos novos.
Essas batalhas de rectaguarda entre
consórcios industriais europeus resistentes aos conglomerados de plataformas
digitais norte-americanas são inevitáveis – incontornáveis, e serão estes
últimos que ganharão a partida, pois tudo isso não se trata de conflitos
políticos nacionais ou multinacionais, mas inscrevem-se na evolução dos meios
de produção, de troca e de comunicação próprios do modo de produção
capitalista, que exige a concentração máxima do capital.
À procura de ganhos de
produtividade.
Basta lembrar que o objectivo final da actividade
das empresas tradicionais e digitais não é produzir mercadorias, mas valorizar,
reproduzir e acumular capital. Se estas empresas pudessem atingir este objectivo
estratégico sem produzir nenhum produto, elas o fariam. Outro ponto importante
é que estas megaempresas transnacionais estão interligadas não só por redes de
telecomunicações, Internet e satélites, mas sobretudo por redes financeiras, accionistas
e conselhos de administração multinacionais cooptados. É o que se chama de «mundialização».
A digitalização e a tecnologização da
produção industrial (onde se produz a maior parte da mais-valia capitalista)
são um processo concreto e inevitável no qual as plataformas digitais (GAFAM)* participam, impulsionadas pelas
leis da economia política que exigem aumentos constantes de produtividade em
períodos de crises económicas sistémicas.
Esses aumentos de produtividade que as
plataformas digitais interligadas permitem são tanto uma redução do quantum de capital variável (queda dos salários
reais) quanto um aumento da porção de capital
constante (imobilizações), levando ao aumento da composição orgânica do
capital, o que provocará o colapso do modo de produção capitalista. A
concorrência comercial exacerbada entre potências imperiais e, posteriormente, a
guerra surgirão então como alternativas para perpetuar este modo de produção
moribundo. Note-se que a próxima guerra mundial, tal como as anteriores,
não será o resultado de uma conspiração maquiavélica de vilões psicopatas e
suicidas, mas sim o resultado inevitável da evolução das contradições inerentes
a este modo de produção.
O valor de mercado dos activos dessas plataformas digitais (em Fevereiro de
2016, o valor dessas GAFAM era superior a 1,650 mil milhões de dólares americanos,
bem acima do valor dos seus activos reais) é apenas a manifestação na bolsa de
valores do facto de que os aumentos de produtividade agora se tornaram
dependentes dos avanços tecnológicos digitais (enquanto há cem anos esses
avanços resultavam dos progressos mecânicos nas fábricas ou da «taylorização»
do processo de produção e do «fordismo» nas linhas de montagem).
Esta valorização fenomenal dos activos
bolsistas das plataformas digitais baseia-se numa actividade de «cavalaria»
bolsista – uma pirâmide de Ponzi – segundo a táctica de que o investimento
seguinte garante o dividendo do investimento anterior, de tal forma que um dia
esta estrutura instável entra em colapso. De facto, a velocidade a que as acções
destes consórcios se valorizam é muito superior à velocidade a que eles se
apropriam dos lucros das indústrias.
A classe proletária
internacionalista face à crise do capitalismo
A classe proletária não tem nada a ver com esse negócio do capital
financeiro, sobre o qual não tem qualquer influência, muito menos através dos
políticos fantoche ou do Estado capitalista fetichista. A classe deve simplesmente travar uma guerra de resistência feroz em
todos os lugares onde o capital das plataformas digitais saqueia os
trabalhadores, reduz as horas de alguns para aumentar as de outros, ataca os regimes
de pensões ou pressiona para baixar os salários dos operários.
Ver : Que
o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Da Insurreição popular à revolução
proletária
Fonte: La quatrième révolution industrielle et les «platesformes numériques» – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice

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