terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Contribuição: A luta de massas e a marcha para a guerra imperialista

 


Contribuição: A luta de massas e a marcha para a guerra imperialista

 

«Em 1905, o proletariado revolucionário encontrou (...) outro meio para atrair as massas para o movimento. Esse meio é a greve revolucionária, uma greve obstinada, saltando de um ponto para outro, de um extremo ao outro do país, uma greve repetida, uma greve que levanta os elementos retrógrados em vista de uma nova vida, graças à luta por melhorias de ordem económica, (...) uma greve-manifestação que desfila com a bandeira vermelha nas ruas das capitais (...). É impossível suscitar artificialmente tais greves, e é igualmente impossível detê-las quando elas conseguem englobar centenas e centenas de milhares de participantes. (Lenine, O desenvolvimento das greves revolucionárias, 1913) 

O fluxo crescente e acelerado de acontecimentos de todo o tipo esclarece-nos cada vez mais precisamente sobre o caminho que o capitalismo pretende seguir para nos precipitar numa guerra generalizada. Desde 2022, nada parece parar, nem mesmo desacelerar, um processo quase linear e contínuo em direcção à guerra. Mesmo o tratado de paz em Gaza, «o amanhecer histórico de um novo Médio Oriente», segundo Trump, não marcou, pelo menos até agora, uma verdadeira pausa nessa corrida para a guerra. E para aqueles que continuam a recusar-se a ver, a declaração do chefe do Estado-Maior do exército francês só pode abrir-lhes os olhos: «Temos tudo para dissuadir Moscovo. O que nos falta é a força de alma para aceitar sofrer para defender a nação. (...) Temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer economicamente, porque as prioridades serão atribuídas à produção de defesa.» (General Mandon, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, 18 de Novembro de 2025 ) Os locais e momentos dos antagonismos de classe, que se exacerbam devido à crise capitalista e à guerra imperialista, tornam-se, assim, cada vez mais evidentes.

Basta dar uma vista de olhos nas políticas conduzidas pela burguesia americana com Trump para perceber como as contradições do capital mundial, a sobreprodução generalizada e, portanto, uma concorrência internacional devastadora, se manifestam e explodem no coração da primeira potência capitalista. E como esta é impulsionada para a preparação urgente da guerra se quiser manter a sua primazia e domínio mundiais e, assim, como precipita o mundo inteiro para ela.

A situação histórica tem, portanto, esta particularidade e novidade: a crise económica capitalista e a guerra imperialista generalizada apresentam-se ao mesmo tempo. A nível ideológico, o capitalismo terá dificuldade em fazer aceitar os sacrifícios económicos sob o pretexto da paz – como em 1918-1920 para contrariar a vaga revolucionária internacional da época, ou ainda no pós-Segunda Guerra Mundial, durante as décadas de 1940 e 1950. Terá igualmente dificuldade em fazer aceitar a preparação para a guerra sob o pretexto da prosperidade recuperada ou futura – como nos anos 1930, após a crise de 1929 e o desemprego em massa que a preparação para a guerra tinha em parte permitido absorver.

Nestas condições históricas, há uma questão fundamental para o capital e para cada burguesia nacional, a mesma que o general francês levanta: como impor às populações, e principalmente aos assalariados e proletários, que sofram economicamente pelas necessidades da defesa? Noutras palavras, a burguesia como classe deve enfrentar o proletariado como classe para impor as necessidades da defesa militar. Desse confronto de classes, para o qual cada burguesia se prepara, depende o desfecho do drama histórico, seja na guerra generalizada e devastadora, seja na revolução proletária e na destruição do capitalismo causador de guerras. «Existe uma incompatibilidade fundamental entre a luta de classes e o jogo de contrastes [imperialistas] entre Estados. Ela reside no seguinte: uma leva à revolução, o outro à guerra. 2 » O marxismo, a teoria revolucionária do proletariado, sempre defendeu que apenas o proletariado, por ser uma classe explorada e revolucionária ao mesmo tempo, está em condições de se opor ao capitalismo e destruí-lo antes que este imponha a sua «solução» radical e bárbara aos seus próprios limites e contradições.

Para muitos, inclusive dentro do campo revolucionário, o proletariado é inexistente hoje como classe social e totalmente submetido à ideologia e à exploração capitalistas. De facto, desde 2022 até hoje, essa afirmação é desmentida pelas mobilizações massivas na Grã-Bretanha, na França contra mais uma reforma das pensões, nos Estados Unidos na indústria automóvel, entre os estivadores, nos armazéns da Amazon, mais recentemente no Canadá e na Bélgica, pelas lutas operárias e revoltas populares em todos os continentes – especialmente na Ásia – que não podemos enumerar aqui. Objectivamente, ou materialmente, se preferirmos, existe hoje em dia uma força social que, quando tenta defender os seus interesses de classe, incluindo os seus interesses imediatos, não só expressa a sua existência como classe explorada, mas, acima de tudo, tende de facto, independentemente da consciência individual dos proletários em luta, a opor-se aos desígnios do capital em geral e, concretamente hoje, aos seus preparativos para uma guerra generalizada. O facto de estas lutas permanecerem limitadas e muitas vezes impotentes para fazer recuar os ataques da burguesia, pelo menos directamente, não altera em nada esta constatação material.

Mas não se trata de compreender o que se passa diante dos nossos olhos a partir de uma fotografia, mas sim de assistir ao desenrolar do filme da luta de classes. Aquele mesmo filme em que os seus personagens principais, capital e trabalho, burguesia e proletariado, se opõem constantemente. Há e haverá um confronto massivo entre as classes. Esse é, por enquanto, o curso da história. E o enquadramento, o terreno e o ritmo destes confrontos são e serão cada vez mais determinados pela burguesia, que procura responder às necessidades da sua marcha para a guerra. Mas como é que o antagonismo entre as classes se materializa concretamente? Como é que se desenvolve? Que meios de acção e tácticas utilizam as duas classes antagónicas? Que processo?

O «fenómeno histórico da luta de massas»

Desde o advento do imperialismo no início do século XX, mesmo antes do início da Primeira Guerra Mundial imperialista, as condições, os meios de acção e as tácticas que determinavam a luta do proletariado foram definitivamente alterados em relação aos que prevaleciam até então, essencialmente sindicalistas. «A concentração de capitais enfraquece a posição dos sindicatos, mesmo nos ramos profissionais onde são mais poderosos. Apesar da sua importância, os fundos de apoio aos grevistas parecem insignificantes em comparação com os recursos financeiros do adversário. 3» As lutas no terreno da fábrica e da corporação, ou mesmo do sector ou ramo de actividade, e o sindicalismo que era o seu instrumento revelaram-se impotentes para enfrentar a nova situação histórica. Lutas proletárias de massas, diferentes das lutas organizadas pelos sindicatos até então, começaram a surgir na Bélgica e na Alemanha. Mas, evidentemente, foi a Revolução de 1905 na Rússia que confirmou a mudança nas condições e nos meios de acção para as lutas do proletariado internacional. Seguiu-se um debate no seio do Partido Social-Democrata Alemão sobre a greve geral, que mantém toda a sua actualidade até hoje. Uma resolução sobre a greve geral foi mesmo adoptada no congresso de Iéna, em 1905. Para Anton Pannekoek, «as acções de massas são uma consequência natural do desenvolvimento do capitalismo moderno em imperialismo, são cada vez mais a forma de luta que se impõe [ao proletariado]. O imperialismo e as ações de massa são fenómenos novos, cuja essência e importância só podem ser compreendidas e dominadas gradualmente 4». Rosa Luxemburgo não diz nada diferente quando escreve que « a greve geral não é o produto artificial de uma táctica imposta pela social-democracia, mas um fenómeno histórico natural nascido no solo da revolução actual 5.».

No debate que os opôs a K. Kautsky no seio do Partido Social-Democrata Alemão, R. Luxemburgo e A. Pannekoek rejeitaram qualquer visão redutora da greve geral, considerada por Kaustky como «uma acção única», ou ainda reduzida à visão anarquista da greve geral, fazendo da greve ilimitada em si mesma a arma definitiva da luta contra o capitalismo. Para R. Luxemburgo, «é absolutamente falso imaginar a greve geral como uma acção única. A greve geral é, antes, um termo que designa colectivamente todo um período da luta de classes que se estende por vários anos, às vezes por décadas». Em Greve geral, partido e sindicatos, ela descreve amplamente como se realizou e se desenvolveu o processo da greve geral na Rússia. Trotski faz o mesmo no seu livro 1905.

«O desenrolar dos acontecimentos ficou na memória de todos. Os incidentes sucederam-se, durante alguns dias, com uma progressão notável, sempre com o mesmo objectivo. A 3 de Janeiro, eclodiu a greve na fábrica Poutilov. A 7 de Janeiro, os grevistas eram 140 mil. A greve atingiu o seu auge a 10 de Janeiro. No dia 13, voltaram ao trabalho. Assim, estamos perante um movimento inicialmente económico que parte de um motivo ocasional. Este movimento alastra, arrasta dezenas de milhares de operários e transforma-se, consequentemente, num acontecimento político. (...) Mas o massacre de Janeiro teve uma influência particularmente notável e profunda sobre o proletariado de toda a Rússia.  De um extremo ao outro do país, passou uma vaga grandiosa de greves que abalou o corpo da nação. Segundo um cálculo aproximado, a greve estendeu-se a 122 cidades e localidades, a várias minas do Donetz e a dez companhias ferroviárias. As massas proletárias foram agitadas até às suas profundezas. O movimento envolveu cerca de um milhão de pessoas. Sem um plano definido, muitas vezes sem sequer formular nenhuma exigência, interrompendo-se e recomeçando, guiada apenas pelo instinto de solidariedade, a greve reinou no país durante cerca de dois meses. 6

 Foi esse fenómeno histórico da greve geral que chegou ao seu fim entre Fevereiro e Outubro de 1917 na Rússia, com as massas a adoptarem as palavras de ordem do partido bolchevique, a passarem à insurreição contra o Estado e à sua destruição e a instaurarem o exercício da sua ditadura de classe. É esse fenómeno histórico, mais ou menos desenvolvido consoante os casos, nunca concluído como na Rússia, que encontramos ao longo do século XX, durante a vaga revolucionária internacional dos anos 1918-1923, nas greves operárias dos anos 1930, embora quase totalmente controladas e desvirtuadas pelas frentes populares e pelo estalinismo em particular, em 1943 no norte da Itália, e depois nas explosões operárias que marcaram a Hungria, Berlim Oriental e depois a Polónia nos anos 1950. Encontramos o mesmo fenómeno histórico com a retoma das lutas proletárias que respondem ao fim do período de reconstrução pós-guerra, Maio de 1968 na França, o Maio rampante italiano, a revolta operária de Córdoba na Argentina, até às greves de massas de 1970 e Agosto de 1980 na Polónia.

É também o valor universal deste fenómeno histórico que, por outro lado, e para dar apenas um exemplo, o fracasso da longa greve de um ano dos mineiros britânicos em 1984-1985, fechados na corporação e instalados num braço de ferro sem saída, sem perspectivas e intransigente, vem confirmar.

Os aparelhos do Estado mobilizados contra a greve geral

Mas e hoje? Desde o início do século? O que expressaram, senão uma dinâmica de luta de massas, todos os movimentos de revolta operária e popular da «Primavera Árabe» de 2010 a 2012? A mobilização operária maciça e determinada do proletariado na Grécia nesses mesmos anos? Qual o desafio para as mobilizações operárias em massa, centenas de milhares de grevistas e manifestantes, às vezes um ou dois milhões, na França, que se sucederam em 2003, 2006, 2007, 2010, 2013, 2016, 2018 e até 2020 – deixando de lado o caso particular da revolta dos «coletes amarelos» de 2018-2019? Qual foi a linha de divisão e de confronto entre os sectores mais combativos do proletariado e os sindicatos e esquerdistas? Se não foi a questão da extensão e generalização de cada uma dessas mobilizações a toda a classe operária, seja sob consignas diversas, como a confusa «greve geral» ou ainda «público-privado, todos juntos! O facto de os setores e minorias mais combativos do proletariado não terem conseguido assumir a liderança da luta, de os sindicatos terem conseguido sabotar e sufocar essas dinâmicas, não diminui o facto de que a dinâmica proletária em curso já era a da greve geral. E foi precisamente a isso que a burguesia, e as suas forças no meio operário em particular, se opuseram. Foi a mesma questão levantada pelas greves selvagens da Opel na cidade alemã de Bochum em 2004 ou pela greve selvagem do metro que paralisou Nova Iorque em Janeiro de 2006: não ficar isolado e expandir-se 7 É sempre a mesma necessidade de ampliação que se colocou, em diferentes graus, nas mobilizações proletárias de Agosto a Outubro no Canadá e da Bélgica de 24 a 26 de Novembro 8  e que definiu os momentos e os terrenos da linha de fractura com as tácticas e palavras de ordem sindicais.

A principal preocupação de todas as burguesias hoje em relação ao proletariado é precisamente prevenir e, quando isso não é mais possível, limitar e sabotar qualquer dinâmica de luta de massas. Se alguns dentro do campo revolucionário duvidam da realidade do fenómeno histórico da greve geral, esse não é de forma alguma o caso da burguesia. Desde a década de 1930 e, sobretudo, desde a Segunda Guerra Imperialista Mundial, todo o aparelho estatal se dotou de ferramentas ideológicas, políticas, legais e repressivas para sufocar qualquer dinâmica de revolta proletária que pudesse generalizar-se e unificar-se. Se o direito à greve existe, ele existe apenas na medida em que permanece ineficaz para o proletariado e sem perigo para o capital. Por outro lado, a greve geral é efectivamente proibida pelas leis que regem os «avisos prévios de greve». E no caso de os sindicatos e os esquerdistas não serem suficientes para contê-la, em particular no jugo legal, e para sufocá-la, então a repressão policial vem em seu socorro.

Greve geral e marcha para a guerra

Longe de pertencer ao passado, ou mesmo de ser temporário, conjuntural ou único, o fenómeno da greve em massa está permanentemente no centro do confronto entre as classes: preveni-la e sufocá-la para a burguesia; iniciá-la e desenvolvê-la para o proletariado. Longe de rejeitar a realidade e, para o proletariado, a necessidade, o rumo para a guerra imperialista generalizada que o capital tenta impor a toda a humanidade exige a aplicação ainda mais firme do princípio do internacionalismo proletário através da luta de massas. No debate sobre a greve geral dois anos antes da Primeira Guerra Mundial, Pannekoek destacou a relação entre a guerra e a greve. «O desenvolvimento do imperialismo cria incessantemente o terreno para poderosas revoltas das classes exploradas contra o domínio do capital, confrontos em que todas as forças dos adversários em presença se chocam. A mais importante das ocasiões que podem desencadear esses confrontos é o perigo de guerra. 9 »

A história ensina-nos que a greve geral é a resposta específica e privilegiada do proletariado internacional, a única resposta possível, de facto, à marcha para a guerra e à própria guerra. Por um lado, ao impor relações de força menos desfavoráveis, ou mesmo mais favoráveis, ao proletariado face à burguesia, a greve geral – por vezes a sua simples perspectiva ou ameaça – pode obrigar a burguesia a recuar em tal ou tal ataque específico e, assim, travar a sua corrida para a guerra. Por outro lado, pela sua própria dinâmica, reforça a confiança e a determinação crescentes das massas proletárias nas suas forças e nas orientações e palavras de ordem dos grupos e, sobretudo, do partido comunista. Ela traz em si e só pode culminar, se for levada até o fim, na insurreição operária, na destruição do Estado capitalista e na instauração da ditadura do proletariado. Para Lenine, «as greves gerais persistentes estão indissoluvelmente ligadas, no nosso país, à insurreição armada» 10.

Greve geral e partido político do proletariado

A relação entre o proletariado – classe em movimento, ou seja, em luta – e as minorias revolucionárias comunistas que materializam as mais altas expressões da consciência comunista, ou seja, a relação partido-classe, só pode ser compreendida, esclarecida e definida com base no reconhecimento da luta de massas como «forma universal da luta de classes proletária determinada pelo estágio actual do desenvolvimento capitalista e das relações de classe » 11. A intervenção dos grupos e do partido comunistas não se coloca em si mesma, com regras e tácticas imutáveis diante de um proletariado que seria apenas uma massa passiva e estática e que deveria ser «despertada» . Se estes últimos querem estar na vanguarda da luta da sua classe, se querem conquistar a direcção política das lutas, razão pela qual o proletariado os faz nascer e desenvolver-se, então devem definir a sua intervenção e adaptar as suas orientações e palavras de ordem em função das necessidades de cada momento e de cada batalha particular por que passa todo o episódio de luta de classes e toda a mobilização operária.

Pela nossa parte, sempre que possível, tentamos dar conta das mobilizações operárias massivas a que assistimos e destacar as dinâmicas e os momentos sucessivos 12. Aproveitamos também para partilhar e submeter à crítica as orientações e as palavras de ordem que adoptamos e defendemos consoante os momentos e as batalhas. Estamos convencidos de que se trata de experiências inestimáveis para desenvolver as capacidades de vanguarda e de direcção política das minorias comunistas.

É ainda mais importante referir isso porque, infelizmente, o fenómeno histórico da greve geral é muitas vezes mal compreendido ou ignorado. Em particular, tanto os defensores da greve geral vista como um mito ou um fetiche quanto aqueles que a ignoram tendem, com demasiada frequência, a separar e opor a «espontaneidade», por um lado, e a «consciência comunista» e as organizações comunistas, o partido, por outro. Essa separação metafísica dos dois momentos complementares, um alimentando o outro e vice-versa, da luta em massa é acompanhada pelo mesmo tipo de oposição entre Rosa Luxemburgo, apresentada como «espontaneísta» e até «anti-partidária», e Lenine como «o aprendiz burocrata» oposto à espontaneidade e ao movimento de massa. No entanto, para quem lê com atenção e, sobretudo, com seriedade, os dois grandes revolucionários situam-se, sem sombra de dúvida, do mesmo lado da barricada teórico-política onde se joga a relação espontaneidade das massas-consciência comunista, classe-partido:

- Para Lenine, «a questão das relações entre consciência e espontaneidade também apresenta um enorme interesse geral e requer um estudo detalhado. (...) A espontaneidade das massas exige de nós, social-democratas, uma elevada consciência. À medida que o impulso espontâneo das massas cresce e o movimento se amplia, a necessidade de elevada consciência no trabalho teórico, político e organizacional da social-democracia aumenta infinitamente mais rápido ainda»; 13

- para R. Luxemburgo, «consideremos o quadro vivo de um verdadeiro movimento popular resultante da exasperação dos conflitos de classe e da situação política, explodindo com a violência de uma força elementar em conflitos tanto económicos como políticos e em greves gerais, então a tarefa da social-democracia consistirá não na preparação ou na direcção técnica da greve, mas na direcção política de todo o movimento. »

O mesmo se aplica às dimensões económicas e políticas das lutas operárias. Muitos separam-nas, ou mesmo opõem-nas, na melhor das hipóteses, vendo-as como dois momentos sucessivos, com a passagem de um para o outro a ser feita através de um «salto qualitativo». Grosso modo, para o economismo moderno ou conselhismo, o salto dar-se-ia no momento em que o proletariado tomasse espontaneamente consciência, a partir das suas lutas imediatas, da necessidade de derrubar o Estado capitalista. Os revolucionários ou o partido estariam lá apenas para «difundir ideias e conhecimentos, estudar, discutir e formular conceitos sociais, e esclarecer a mente das massas através da sua propaganda». 14  Ao fazer isso, essa visão torna a tomada de consciência espontânea, a partir das lutas imediatas, um pré-requisito para a luta proletária, esquecendo que as minorias comunistas carregam e materializam a consciência comunista que é o produto da luta histórica do proletariado. Para alguns deles, o pré-requisito para a «politização» das lutas seria «a reconquista da identidade de classe».

"Para outros, é apenas o partido que pode ser o factor desse salto qualitativo para a «politização das lutas». A corrente bordiguista chega mesmo à posição de que «sem o partido, a classe não existe»."

Mesmo que uns reconheçam formalmente a «greve geral» e se reivindiquem de Rosa Luxemburgo e A. Pannekoek, e outros a ignorem e rejeitem estes últimos, as duas abordagens encontram-se no mesmo terreno e cometem o mesmo erro, separando a dimensão económica da dimensão política do fenómeno histórico da greve geral. No entanto, trata-se de dois momentos do mesmo processo da greve geral.

O próprio Lenine rejeita a «politização» das lutas, seja ela «espontânea» ou «importada» pelo partido: «exigir que ‘se dê à luta económica em si um caráter político’ traduz de forma mais marcante o culto da espontaneidade no domínio da actividade política. Muitas vezes, a luta económica assume um carácter político de forma espontânea, ou seja, sem a intervenção desse ‘bacilo revolucionário que são os intelectuais’, sem a intervenção dos social-democratas conscientes» 16. Também aqui, a oposição estabelecida entre Luxemburgo e Lenine, sob o pretexto de certas formulações confusas em Que fazer, é historicamente falsa 17. Tal como Rosa Luxemburg, Trotsky ou ainda Pannekoek, Lenine não cessa de sublinhar que «a combinação da greve económica e da greve política constitui uma das principais características [do movimento grevista. Que] a greve política e a greve económica, consequentemente, se apoiam mutuamente, constituindo uma fonte de energia uma para a outra» 18.

Esclarecer os proletários ou liderar as lutas operárias?

Esses erros políticos e metodológicos, do ponto de vista do proletariado, que impedem a compreensão do próprio processo da luta de classes, tornam difícil, senão impossível, reconhecer os momentos e as dinâmicas das mobilizações proletárias, suas modificações, suas reviravoltas e até mesmo suas inversões 19.  Para os grupos comunistas e revolucionários afectados por essa fraqueza, o resultado é uma impotência, às vezes até mesmo uma renúncia, em fornecer e defender orientações e palavras de ordem concretas e imediatas, adaptadas a cada um desses momentos. Por defeito, então, forte é a atracção por palavras de ordem abstractas e gerais, como a da «auto-organização», e o fetichismo da organização, aqui o fetichismo assembleísta; ou ainda a que apela à formação do partido em si, tornando-o outra variante do fetichismo da organização. Sejam eles «anti-partidos» ou «pró-partidos», para retomar a formulação de Lenine, resta-lhes então apenas a dimensão da propaganda geral e «iluminar a mente das massas com a sua propaganda».

No entanto, não colocamos no mesmo plano os «anti-partidos» e os «pró-partidos». Os primeiros subestimam, quando não rejeitam abertamente, não só a necessidade do partido, mas também a dimensão política primordial de toda a luta proletária. A menos que rompam com o economicismo e o conselhismo que expressam e materializam, serão, na melhor das hipóteses, inúteis e, na pior, aliados dos esquerdistas e dos sindicatos para esvaziar as assembleias gerais e todas as outras formas de organização unitária das lutas operárias da sua função ao serviço da greve geral e do seu desenvolvimento.

As forças «pró-partidos» que ainda não se reapropriaram da experiência histórica e teórica do proletariado em relação ao fenómeno histórico da greve geral dispõem, por sua vez, da herança e das lições programáticas que a Esquerda Comunista Italiana pôde proporcionar. Assim, têm a possibilidade, sem renegar a sua convicção e abordagem militante «pró-partido», de ir além do «fetichismo partidário» que, muitas vezes, remete para uma posição tão fatalista quanto o conselharismo, ou «em espelho» para uma visão voluntarista, activista, ou mesmo operacionista. O papel das organizações comunistas, círculos, grupos e partidos, é estar na linha de frente dos confrontos de classe. Isso significa que elas devem assumir o confronto com as forças burguesas sindicais e esquerdistas no meio operário para disputar e tirar delas a direcção e a orientação das lutas, sejam elas objectivamente já massivas ou ainda locais e limitadas.

«A acção do partido assume a forma de uma estratégia nos momentos cruciais da luta pelo poder, durante os quais essa acção assume um carácter essencialmente militar. Nas fases que a precedem, a acção do partido não se reduz, contudo, pura e simplesmente à ideologia, à propaganda e à organização, mas consiste, como já dissemos, em participar nas diferentes lutas a que o proletariado é conduzido. A codificação das regras tácticas do partido visa, portanto, estabelecer em que condições a sua intervenção e actividade nesses movimentos, a sua agitação no calor das lutas proletárias, estarão em harmonia com o seu objectivo revolucionário final e permitirão que a sua preparação teórica, a sua organização e a sua preparação táctica progridam simultaneamente. (Teses de Lyon da Esquerda do Partido Comunista Italiano, 1926)

Ao fazer isso, o fortalecimento do partido ou do grupo comunista é, acima de tudo, «político», na sua capacidade de assumir o papel de liderança política das lutas. O objectivo da intervenção nas lutas operárias não é conquistar proletários e indivíduos para a organização comunista, nem o recrutamento em si, mas impor uma alternativa de classe concreta, uma direcção política, para que cada luta possa desenvolver-se ao máximo e ser o mais «eficaz» possível, inclusive do ponto de vista das suas reivindicações e objectivos imediatos. Assim, qualquer agrupamento ou adesão militante pode basear-se na verificação e na convicção individual, tanto sobre o programa ou plataforma política do grupo, como sobre a sua aplicação ou declinação concreta nas intervenções e orientações do partido ou do grupo comunista. É assim que se pode garantir da melhor forma que o agrupamento e as adesões individuais sejam eficazes e duradouras para o militante comunista individual e que a organização, em primeiro lugar a sua unidade política, se reforce realmente. É, portanto, também em estreita ligação com o fenómeno histórico da greve geral que o partido poderá constituir-se e que os seus membros serão seleccionados.

Depois de ter começado esta contribuição citando Lenine sobre a greve geral, vamos concluí-la com Rosa Luxemburgo e a sua posição sobre o papel político dirigente do partido nas lutas de massas.

«Se é verdade que cabe ao período revolucionário a direcção da greve no sentido da iniciativa do seu início e da assunção dos custos, não é menos verdade que, num sentido totalmente diferente, a direcção das greves gerais cabe à social-democracia e aos seus órgãos dirigentes. Em vez de se colocar o problema da técnica e do mecanismo da greve geral, a social-democracia é chamada, num período revolucionário, a assumir a sua direcção política. A tarefa mais importante da «direcção » no período da greve geral consiste em dar a palavra de ordem da luta, orientá-la, regular a táctica da luta política de tal forma que, em cada fase e em cada momento da luta, seja realizada e posta em acção toda a força do proletariado já comprometido e lançado na batalha e que essa força se expresse pela posição do Partido na luta; é necessário que a táctica da social-democracia nunca se encontre, em termos de energia e precisão, abaixo do nível da relação de forças em presença, mas que, pelo contrário, ultrapasse esse nível; então, essa direcção política transformar-se-á automaticamente, em certa medida, em direcção técnica. Uma táctica socialista consistente, resoluta e progressista provoca nas massas um sentimento de segurança, confiança e combatividade; uma táctica hesitante, fraca, baseada numa subestimação das forças do proletariado, paralisa e desorienta as massas. No primeiro caso, as greves gerais eclodem «espontaneamente» e sempre «no momento oportuno»; no segundo caso, por mais que a direcção do Partido convoque directamente à greve, é em vão. A revolução oferece-nos exemplos eloquentes de ambos os casos. (Greve geral, partido e sindicatos, op.cit., sublinhado nosso) 

RL, Dezembro de 2025

 

[1]. A conferência completa do general aos presidentes das câmaras municipais francesas: https://www.youtube.com/watch?v=4eA4js-Tcw4 . A passagem que citamos encontra-se por volta do minuto 19. Antes disso, o general apresenta uma visão geral dos desafios imperialistas e militares do ponto de vista da burguesia francesa. Quem compreende francês certamente achará interessante.

2. Bilan #19, Derrota do proletariado, vitória do capitalismo : De Hitler a Estaline, de Estaline a Blum, 1935, https://archivesautonomies.org/spip.php?article2416 .

3. A. Pannekoek, Le syndicalisme, Janeiro 1936, Éditions 10-18, 1973.

4. A. Pannekoek, Acção de massas e revolução, 1912, Socialismo, a via ocidental, PUF, 1983.

5. R. Luxemburgo, Greve geral, partido e sindicatos, 1906, pequena colecção Maspero, 1969.

6. L. Trotsky, 1905, Les éditions de minuit, 1969.

7. O leitor pode consultar a página dos sumários dos boletins da antiga Fracção Interna da CCI para conhecer as análises e intervenções que esta realizou na época e das quais, pela nossa parte, retomamos o essencial da experiência: https://www.fractioncommuniste.org/index.php?SEC=b00 . Pode também consultar os sumários da nossa revista e os comunicados que publicámos sobre as diferentes mobilizações proletárias desde 2013 nas quais pudemos participar.[1].

8cf. Mobilisations prolétariennes au Canada et intervention des révolutionnaires e Trois jours de grève générale en Belgique neste número da revista.

9. A. Pannekoek, Action de masse et révolution, 1912, op.cit, sublinhado por Pannekoek.

10. Lénine, L’essor révolutionnaire, 1912, Obras completas, tomo 18, Éditions sociales, sublinhado por Lenine.

11. R. Luxemburg, op.cit.

12. Em particular RG #6, 10, 14, 22 e 24.

13. Que fazer ? Éditions sociales, 1971.  É importante chamar a atenção dos leitores que utilizam óculos mal ajustados e salientar que Que fazer não rejeita a espontaneidade, mas sim o «culto da espontaneidade» demonstrado pelos economistas.

14. A. Pannekoek, Thèses sur la lutte de la classe ouvrière contre le capitalisme, 1947, traduzido do inglês a partir de https://www.marxists.org/archive/pannekoe/1947/theses-fight.htm .

15. Que fazer ? op.cit.

16. Em particular, aquela segundo a qual «por si só, o movimento operário espontâneo só pode gerar sindicalismo» e que, aliás, é contrariada por outras passagens do mesmo texto.

17. Lenine, Greve económica e Greve política, 1912, op.cit.

18. cf. nosso debate com a CWO a propósito das greves do Verão de 2022 em RG #24 : França e Grã-Bretanha: lutas operárias e intervenção dos revolucionários. Qual foi a acção política efectiva dos sindicatos na vaga de greves no Reino Unido?

 

Fonte : www.igcl.org

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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