Contribuição: A luta de massas e a marcha para a guerra
imperialista
«Em
1905, o proletariado revolucionário encontrou (...) outro meio para atrair as
massas para o movimento. Esse meio é a greve revolucionária, uma greve
obstinada, saltando de um ponto para outro, de um extremo ao outro do país, uma
greve repetida, uma greve que levanta os elementos retrógrados em vista de uma
nova vida, graças à luta por melhorias de ordem económica, (...) uma
greve-manifestação que desfila com a bandeira vermelha nas ruas das capitais
(...). É impossível suscitar artificialmente tais greves, e é igualmente
impossível detê-las quando elas conseguem englobar centenas e centenas de
milhares de participantes. (Lenine, O desenvolvimento das greves
revolucionárias, 1913)
O fluxo crescente e acelerado de acontecimentos de
todo o tipo esclarece-nos cada vez mais precisamente sobre o caminho que o
capitalismo pretende seguir para nos precipitar numa guerra generalizada. Desde
2022, nada parece parar, nem mesmo desacelerar, um processo quase linear e
contínuo em direcção à guerra. Mesmo o tratado de paz em Gaza, «o amanhecer histórico de um novo Médio
Oriente», segundo Trump, não marcou, pelo menos até agora, uma verdadeira
pausa nessa corrida para a guerra. E para aqueles que continuam a recusar-se a
ver, a declaração do chefe do Estado-Maior do exército francês só pode
abrir-lhes os olhos: «Temos tudo para
dissuadir Moscovo. O que nos falta é a força de alma para aceitar sofrer para
defender a nação. (...) Temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer
economicamente, porque as prioridades serão atribuídas à produção de defesa.»
(General Mandon, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas, 18 de Novembro
de 2025 ) Os locais e momentos dos antagonismos de classe, que se exacerbam
devido à crise capitalista e à guerra imperialista, tornam-se, assim, cada vez
mais evidentes.
Basta dar uma vista de olhos nas políticas conduzidas
pela burguesia americana com Trump para perceber como as contradições do
capital mundial, a sobreprodução generalizada e, portanto, uma concorrência
internacional devastadora, se manifestam e explodem no coração da primeira
potência capitalista. E como esta é impulsionada para a preparação urgente da
guerra se quiser manter a sua primazia e domínio mundiais e, assim, como
precipita o mundo inteiro para ela.
A situação histórica tem, portanto, esta
particularidade e novidade: a crise económica capitalista e a guerra
imperialista generalizada apresentam-se ao mesmo tempo. A nível ideológico, o
capitalismo terá dificuldade em fazer aceitar os sacrifícios económicos sob o
pretexto da paz – como em 1918-1920 para contrariar a vaga revolucionária internacional
da época, ou ainda no pós-Segunda Guerra Mundial, durante as décadas de 1940 e
1950. Terá igualmente dificuldade em fazer aceitar a preparação para a guerra
sob o pretexto da prosperidade recuperada ou futura – como nos anos 1930, após
a crise de 1929 e o desemprego em massa que a preparação para a guerra tinha em
parte permitido absorver.
Nestas condições históricas, há uma questão
fundamental para o capital e para cada burguesia nacional, a mesma que o
general francês levanta: como impor às populações, e principalmente aos
assalariados e proletários, que sofram
economicamente pelas necessidades da defesa? Noutras palavras, a burguesia
como classe deve enfrentar o proletariado como classe para impor as
necessidades da defesa militar. Desse
confronto de classes, para o qual cada burguesia se prepara, depende o desfecho
do drama histórico, seja na guerra generalizada e devastadora, seja na
revolução proletária e na destruição do capitalismo causador de guerras. «Existe uma incompatibilidade fundamental
entre a luta de classes e o jogo de contrastes [imperialistas] entre Estados. Ela reside no seguinte: uma
leva à revolução, o outro à guerra. 2 » O marxismo, a
teoria revolucionária do proletariado, sempre defendeu que apenas o
proletariado, por ser uma classe explorada e revolucionária ao mesmo tempo,
está em condições de se opor ao capitalismo e destruí-lo antes que este imponha
a sua «solução» radical e bárbara aos seus próprios limites e contradições.
Para muitos, inclusive dentro do campo revolucionário,
o proletariado é inexistente hoje como classe social e totalmente submetido à
ideologia e à exploração capitalistas. De facto, desde 2022 até hoje, essa
afirmação é desmentida pelas mobilizações massivas na Grã-Bretanha, na França
contra mais uma reforma das pensões, nos Estados Unidos na indústria automóvel,
entre os estivadores, nos armazéns da Amazon, mais recentemente no Canadá e na
Bélgica, pelas lutas operárias e revoltas populares em todos os continentes –
especialmente na Ásia – que não podemos enumerar aqui. Objectivamente, ou
materialmente, se preferirmos, existe hoje em dia uma força social que, quando
tenta defender os seus interesses de classe, incluindo os seus interesses
imediatos, não só expressa a sua existência como classe explorada, mas, acima
de tudo, tende de facto, independentemente da consciência individual dos proletários
em luta, a opor-se aos desígnios do capital em geral e, concretamente hoje, aos
seus preparativos para uma guerra generalizada. O facto de estas lutas
permanecerem limitadas e muitas vezes impotentes para fazer recuar os ataques
da burguesia, pelo menos directamente, não altera em nada esta constatação
material.
Mas não se trata de compreender o que se passa diante
dos nossos olhos a partir de uma fotografia, mas sim de assistir ao desenrolar
do filme da luta de classes. Aquele mesmo filme em que os seus personagens
principais, capital e trabalho, burguesia e proletariado, se opõem
constantemente. Há e haverá um confronto massivo entre as classes. Esse é, por
enquanto, o curso da história. E o enquadramento, o terreno e o ritmo destes
confrontos são e serão cada vez mais determinados pela burguesia, que procura
responder às necessidades da sua marcha para a guerra. Mas como é que o
antagonismo entre as classes se materializa concretamente? Como é que se
desenvolve? Que meios de acção e tácticas utilizam as duas classes antagónicas?
Que processo?
O «fenómeno
histórico da luta de massas»
Desde o advento do imperialismo no início do século
XX, mesmo antes do início da Primeira Guerra Mundial imperialista, as
condições, os meios de acção e as tácticas que determinavam a luta do
proletariado foram definitivamente alterados em relação aos que prevaleciam até
então, essencialmente sindicalistas. «A
concentração de capitais enfraquece a posição dos sindicatos, mesmo nos ramos
profissionais onde são mais poderosos. Apesar da sua importância, os fundos de
apoio aos grevistas parecem insignificantes em comparação com os recursos
financeiros do adversário. 3» As lutas no terreno da
fábrica e da corporação, ou mesmo do sector ou ramo de actividade, e o
sindicalismo que era o seu instrumento revelaram-se impotentes para enfrentar a
nova situação histórica. Lutas proletárias de massas, diferentes das lutas
organizadas pelos sindicatos até então, começaram a surgir na Bélgica e na
Alemanha. Mas, evidentemente, foi a Revolução de 1905 na Rússia que confirmou a
mudança nas condições e nos meios de acção para as lutas do proletariado
internacional. Seguiu-se um debate no seio do Partido Social-Democrata Alemão
sobre a greve geral, que mantém toda
a sua actualidade até hoje. Uma resolução sobre a greve geral foi mesmo adoptada
no congresso de Iéna, em 1905. Para Anton Pannekoek, «as acções de massas são uma consequência natural do desenvolvimento do
capitalismo moderno em imperialismo, são cada vez mais a forma de luta que se
impõe [ao proletariado]. O imperialismo
e as ações de massa são fenómenos novos, cuja essência e importância só podem
ser compreendidas e dominadas gradualmente 4». Rosa Luxemburgo não diz nada diferente quando
escreve que « a greve geral não é o
produto artificial de uma táctica imposta pela social-democracia, mas um fenómeno
histórico natural nascido no solo da revolução actual 5.».
No debate que os opôs a K. Kautsky no seio do Partido
Social-Democrata Alemão, R. Luxemburgo e A. Pannekoek rejeitaram qualquer visão
redutora da greve geral, considerada por Kaustky como «uma acção única», ou ainda reduzida à visão anarquista da greve geral,
fazendo da greve ilimitada em si mesma a arma definitiva da luta contra o
capitalismo. Para R. Luxemburgo, «é
absolutamente falso imaginar a greve geral como uma acção única. A greve geral
é, antes, um termo que designa colectivamente todo um período da luta de
classes que se estende por vários anos, às vezes por décadas». Em Greve geral, partido e sindicatos, ela descreve amplamente como se realizou e se
desenvolveu o processo da greve geral na Rússia. Trotski faz o mesmo no seu
livro 1905.
«O desenrolar dos
acontecimentos ficou na memória de todos. Os incidentes sucederam-se, durante
alguns dias, com uma progressão notável, sempre com o mesmo objectivo. A 3 de Janeiro,
eclodiu a greve na fábrica Poutilov. A 7 de Janeiro, os grevistas eram 140 mil.
A greve atingiu o seu auge a 10 de Janeiro. No dia 13, voltaram ao trabalho.
Assim, estamos perante um movimento inicialmente económico que parte de um
motivo ocasional. Este movimento alastra, arrasta dezenas de milhares de
operários e transforma-se, consequentemente, num acontecimento político. (...)
Mas o massacre de Janeiro teve uma influência particularmente notável e
profunda sobre o proletariado de toda a Rússia.
De um extremo ao outro do país, passou uma vaga grandiosa de greves que
abalou o corpo da nação. Segundo um cálculo aproximado, a greve estendeu-se a
122 cidades e localidades, a várias minas do Donetz e a dez companhias
ferroviárias. As massas proletárias foram agitadas até às suas profundezas. O
movimento envolveu cerca de um milhão de pessoas. Sem um plano definido, muitas
vezes sem sequer formular nenhuma exigência, interrompendo-se e recomeçando,
guiada apenas pelo instinto de solidariedade, a greve reinou no país durante
cerca de dois meses. 6
Foi esse fenómeno histórico da greve geral que
chegou ao seu fim entre Fevereiro e Outubro de 1917 na Rússia, com as massas a
adoptarem as palavras de ordem do partido bolchevique, a passarem à insurreição
contra o Estado e à sua destruição e a instaurarem o exercício da sua ditadura
de classe. É esse fenómeno histórico,
mais ou menos desenvolvido consoante os casos, nunca concluído como na Rússia,
que encontramos ao longo do século XX, durante a vaga revolucionária
internacional dos anos 1918-1923, nas greves operárias dos anos 1930, embora
quase totalmente controladas e desvirtuadas pelas frentes populares e pelo estalinismo
em particular, em 1943 no norte da Itália, e depois nas explosões operárias que
marcaram a Hungria, Berlim Oriental e depois a Polónia nos anos 1950.
Encontramos o mesmo fenómeno histórico
com a retoma das lutas proletárias que respondem ao fim do período de
reconstrução pós-guerra, Maio de 1968 na França, o Maio rampante italiano, a revolta operária de Córdoba na Argentina,
até às greves de massas de 1970 e Agosto de 1980 na Polónia.
É também o valor universal deste fenómeno histórico que, por outro lado, e para dar apenas um
exemplo, o fracasso da longa greve de um ano dos mineiros britânicos em
1984-1985, fechados na corporação e instalados num braço de ferro sem saída,
sem perspectivas e intransigente, vem confirmar.
Os aparelhos do
Estado mobilizados contra a greve geral
Mas e hoje? Desde o início do século? O que
expressaram, senão uma dinâmica de luta de massas, todos os movimentos de
revolta operária e popular da «Primavera Árabe» de 2010 a 2012? A mobilização
operária maciça e determinada do proletariado na Grécia nesses mesmos anos?
Qual o desafio para as mobilizações operárias em massa, centenas de milhares de
grevistas e manifestantes, às vezes um ou dois milhões, na França, que se
sucederam em 2003, 2006, 2007, 2010, 2013, 2016, 2018 e até 2020 – deixando de
lado o caso particular da revolta dos «coletes amarelos» de 2018-2019? Qual foi
a linha de divisão e de confronto entre os sectores mais combativos do
proletariado e os sindicatos e esquerdistas? Se não foi a questão da extensão e
generalização de cada uma dessas mobilizações a toda a classe operária, seja
sob consignas diversas, como a confusa «greve geral» ou ainda «público-privado,
todos juntos! O facto de os setores e minorias mais combativos do proletariado
não terem conseguido assumir a liderança da luta, de os sindicatos terem
conseguido sabotar e sufocar essas dinâmicas, não diminui o facto de que a
dinâmica proletária em curso já era a da greve geral. E foi precisamente a isso
que a burguesia, e as suas forças no meio operário em particular, se opuseram. Foi
a mesma questão levantada pelas greves selvagens da Opel na cidade alemã de
Bochum em 2004 ou pela greve selvagem do metro que paralisou Nova Iorque em Janeiro
de 2006: não ficar isolado e expandir-se 7 É sempre a mesma
necessidade de ampliação que se colocou, em diferentes graus, nas mobilizações
proletárias de Agosto a Outubro no Canadá e da Bélgica de 24 a 26 de Novembro 8 e que definiu os momentos e os terrenos da
linha de fractura com as tácticas e palavras de ordem sindicais.
A principal preocupação de todas as burguesias hoje em
relação ao proletariado é precisamente prevenir e, quando isso não é mais
possível, limitar e sabotar qualquer dinâmica de luta de massas. Se alguns
dentro do campo revolucionário duvidam da realidade do fenómeno histórico da
greve geral, esse não é de forma alguma o caso da burguesia. Desde a década de
1930 e, sobretudo, desde a Segunda Guerra Imperialista Mundial, todo o aparelho
estatal se dotou de ferramentas ideológicas, políticas, legais e repressivas
para sufocar qualquer dinâmica de revolta proletária que pudesse generalizar-se
e unificar-se. Se o direito à greve existe, ele existe apenas na medida em que
permanece ineficaz para o proletariado e sem perigo para o capital. Por outro
lado, a greve geral é efectivamente proibida pelas leis que regem os «avisos
prévios de greve». E no caso de os sindicatos e os esquerdistas não serem
suficientes para contê-la, em particular no jugo legal, e para sufocá-la, então
a repressão policial vem em seu socorro.
Greve geral e
marcha para a guerra
Longe de pertencer ao passado, ou mesmo de ser
temporário, conjuntural ou único, o fenómeno da greve em massa está
permanentemente no centro do confronto entre as classes: preveni-la e sufocá-la
para a burguesia; iniciá-la e desenvolvê-la para o proletariado. Longe de
rejeitar a realidade e, para o proletariado, a necessidade, o rumo para a
guerra imperialista generalizada que o capital tenta impor a toda a humanidade
exige a aplicação ainda mais firme do princípio do internacionalismo proletário
através da luta de massas. No debate sobre a greve geral dois anos antes da
Primeira Guerra Mundial, Pannekoek destacou a relação entre a guerra e a greve.
«O desenvolvimento do imperialismo cria
incessantemente o terreno para poderosas revoltas das classes exploradas contra
o domínio do capital, confrontos em que todas as forças dos adversários em
presença se chocam. A mais importante das ocasiões que podem desencadear esses
confrontos é o perigo de guerra. 9 »
A história ensina-nos que a greve geral é a resposta específica e privilegiada do proletariado
internacional, a única resposta possível, de facto, à marcha para a guerra e à
própria guerra. Por um lado, ao impor relações de força menos desfavoráveis, ou
mesmo mais favoráveis, ao proletariado face à burguesia, a greve geral – por
vezes a sua simples perspectiva ou ameaça – pode obrigar a burguesia a recuar
em tal ou tal ataque específico e, assim, travar a sua corrida para a guerra.
Por outro lado, pela sua própria dinâmica, reforça a confiança e a determinação
crescentes das massas proletárias nas suas forças e nas orientações e palavras
de ordem dos grupos e, sobretudo, do partido comunista. Ela traz em si e só
pode culminar, se for levada até o fim, na insurreição operária, na destruição
do Estado capitalista e na instauração da ditadura do proletariado. Para Lenine,
«as greves gerais persistentes estão
indissoluvelmente ligadas, no nosso país, à insurreição armada» 10.
Greve geral e
partido político do proletariado
A relação entre o proletariado – classe em movimento,
ou seja, em luta – e as minorias revolucionárias comunistas que materializam as
mais altas expressões da consciência comunista, ou seja, a relação
partido-classe, só pode ser compreendida, esclarecida e definida com base no
reconhecimento da luta de massas como «forma
universal da luta de classes proletária determinada pelo estágio actual do
desenvolvimento capitalista e das relações de classe » 11. A intervenção dos
grupos e do partido comunistas não se coloca em si mesma, com regras e tácticas
imutáveis diante de um proletariado que seria apenas uma massa passiva e
estática e que deveria ser «despertada» . Se estes últimos querem estar na
vanguarda da luta da sua classe, se querem conquistar a direcção política das
lutas, razão pela qual o proletariado os faz nascer e desenvolver-se, então
devem definir a sua intervenção e adaptar as suas orientações e palavras de
ordem em função das necessidades de cada momento e de cada batalha particular
por que passa todo o episódio de luta de classes e toda a mobilização operária.
Pela nossa parte, sempre que possível, tentamos dar
conta das mobilizações operárias massivas a que assistimos e destacar as
dinâmicas e os momentos sucessivos 12. Aproveitamos também para
partilhar e submeter à crítica as orientações e as palavras de ordem que adoptamos
e defendemos consoante os momentos e as batalhas. Estamos convencidos de que se
trata de experiências inestimáveis para desenvolver as capacidades de vanguarda
e de direcção política das minorias comunistas.
É ainda mais importante referir isso porque,
infelizmente, o fenómeno histórico da
greve geral é muitas vezes mal compreendido ou ignorado. Em particular,
tanto os defensores da greve geral vista como um mito ou um fetiche quanto
aqueles que a ignoram tendem, com demasiada frequência, a separar e opor a
«espontaneidade», por um lado, e a «consciência comunista» e as organizações
comunistas, o partido, por outro. Essa separação metafísica dos dois momentos
complementares, um alimentando o outro e vice-versa, da luta em massa é
acompanhada pelo mesmo tipo de oposição entre Rosa Luxemburgo, apresentada como
«espontaneísta» e até «anti-partidária», e Lenine como «o aprendiz burocrata»
oposto à espontaneidade e ao movimento de massa. No entanto, para quem lê com
atenção e, sobretudo, com seriedade, os dois grandes revolucionários situam-se,
sem sombra de dúvida, do mesmo lado da barricada teórico-política onde se joga
a relação espontaneidade das massas-consciência comunista, classe-partido:
- Para Lenine, «a
questão das relações entre consciência e espontaneidade também apresenta um
enorme interesse geral e requer um estudo detalhado. (...) A espontaneidade das
massas exige de nós, social-democratas, uma elevada consciência. À medida que o
impulso espontâneo das massas cresce e o movimento se amplia, a necessidade de
elevada consciência no trabalho teórico, político e organizacional da
social-democracia aumenta infinitamente mais rápido ainda»; 13
- para R. Luxemburgo, «consideremos o quadro vivo de um verdadeiro movimento popular
resultante da exasperação dos conflitos de classe e da situação política,
explodindo com a violência de uma força elementar em conflitos tanto económicos
como políticos e em greves gerais, então a tarefa da social-democracia
consistirá não na preparação ou na direcção técnica da greve, mas na direcção
política de todo o movimento. »
O mesmo se aplica às dimensões económicas e políticas das lutas operárias. Muitos separam-nas, ou mesmo opõem-nas, na melhor das hipóteses, vendo-as como dois momentos sucessivos, com a passagem de um para o outro a ser feita através de um «salto qualitativo». Grosso modo, para o economismo moderno ou conselhismo, o salto dar-se-ia no momento em que o proletariado tomasse espontaneamente consciência, a partir das suas lutas imediatas, da necessidade de derrubar o Estado capitalista. Os revolucionários ou o partido estariam lá apenas para «difundir ideias e conhecimentos, estudar, discutir e formular conceitos sociais, e esclarecer a mente das massas através da sua propaganda». 14 Ao fazer isso, essa visão torna a tomada de consciência espontânea, a partir das lutas imediatas, um pré-requisito para a luta proletária, esquecendo que as minorias comunistas carregam e materializam a consciência comunista que é o produto da luta histórica do proletariado. Para alguns deles, o pré-requisito para a «politização» das lutas seria «a reconquista da identidade de classe».
"Para outros, é apenas o partido que pode ser o
factor desse salto qualitativo para a «politização das lutas». A corrente
bordiguista chega mesmo à posição de que «sem o partido, a classe não existe»."
Mesmo que uns reconheçam formalmente a «greve geral» e
se reivindiquem de Rosa Luxemburgo e A. Pannekoek, e outros a ignorem e
rejeitem estes últimos, as duas abordagens encontram-se no mesmo terreno e
cometem o mesmo erro, separando a dimensão económica da dimensão política do fenómeno histórico da greve geral. No
entanto, trata-se de dois momentos do mesmo processo da greve geral.
O próprio Lenine rejeita a «politização» das lutas,
seja ela «espontânea» ou «importada» pelo partido: «exigir que ‘se dê à luta económica em si um caráter político’ traduz de
forma mais marcante o culto da espontaneidade no domínio da actividade
política. Muitas vezes, a luta económica assume um carácter político de forma
espontânea, ou seja, sem a intervenção desse ‘bacilo revolucionário que são os
intelectuais’, sem a intervenção dos social-democratas conscientes» 16. Também aqui, a oposição estabelecida entre Luxemburgo
e Lenine, sob o pretexto de certas formulações confusas em Que fazer, é historicamente falsa 17. Tal como Rosa
Luxemburg, Trotsky ou ainda Pannekoek, Lenine não cessa de sublinhar que «a combinação da greve económica e da greve
política constitui uma das principais características [do movimento grevista.
Que] a greve política e a greve económica, consequentemente, se apoiam
mutuamente, constituindo uma fonte de energia uma para a outra» 18.
Esclarecer os
proletários ou liderar as lutas operárias?
Esses erros políticos e metodológicos, do ponto de
vista do proletariado, que impedem a compreensão do próprio processo da luta de
classes, tornam difícil, senão impossível, reconhecer os momentos e as
dinâmicas das mobilizações proletárias, suas modificações, suas reviravoltas e
até mesmo suas inversões 19. Para os grupos comunistas e
revolucionários afectados por essa fraqueza, o resultado é uma impotência, às
vezes até mesmo uma renúncia, em fornecer e defender orientações e palavras de
ordem concretas e imediatas, adaptadas a cada um desses momentos. Por defeito,
então, forte é a atracção por palavras de ordem abstractas e gerais, como a da
«auto-organização», e o fetichismo da organização, aqui o fetichismo
assembleísta; ou ainda a que apela à formação do partido em si, tornando-o
outra variante do fetichismo da organização. Sejam eles «anti-partidos» ou
«pró-partidos», para retomar a formulação de Lenine, resta-lhes então apenas a
dimensão da propaganda geral e «iluminar
a mente das massas com a sua propaganda».
No entanto, não colocamos no mesmo plano os «anti-partidos»
e os «pró-partidos». Os primeiros subestimam, quando não rejeitam abertamente,
não só a necessidade do partido, mas também a dimensão política primordial de
toda a luta proletária. A menos que rompam com o economicismo e o conselhismo
que expressam e materializam, serão, na melhor das hipóteses, inúteis e, na
pior, aliados dos esquerdistas e dos sindicatos para esvaziar as assembleias
gerais e todas as outras formas de organização unitária das lutas operárias da
sua função ao serviço da greve geral e do seu desenvolvimento.
As forças «pró-partidos» que ainda não se
reapropriaram da experiência histórica e teórica do proletariado em relação ao fenómeno histórico da greve geral
dispõem, por sua vez, da herança e das lições programáticas que a Esquerda
Comunista Italiana pôde proporcionar. Assim, têm a possibilidade, sem renegar a
sua convicção e abordagem militante «pró-partido», de ir além do «fetichismo
partidário» que, muitas vezes, remete para uma posição tão fatalista quanto o
conselharismo, ou «em espelho» para uma visão voluntarista, activista, ou mesmo
operacionista. O papel das organizações comunistas, círculos, grupos e
partidos, é estar na linha de frente dos confrontos de classe. Isso significa
que elas devem assumir o confronto com as forças burguesas sindicais e
esquerdistas no meio operário para disputar e tirar delas a direcção e a
orientação das lutas, sejam elas objectivamente já massivas ou ainda locais e
limitadas.
«A acção do partido
assume a forma de uma estratégia nos
momentos cruciais da luta pelo poder, durante os quais essa acção assume um
carácter essencialmente militar. Nas fases que a precedem, a acção do partido
não se reduz, contudo, pura e simplesmente à ideologia, à propaganda e à
organização, mas consiste, como já dissemos, em participar nas diferentes lutas
a que o proletariado é conduzido. A codificação das regras tácticas do partido
visa, portanto, estabelecer em que condições a sua intervenção e actividade
nesses movimentos, a sua agitação no calor das lutas proletárias, estarão em
harmonia com o seu objectivo revolucionário final e permitirão que a sua
preparação teórica, a sua organização e a sua preparação táctica progridam
simultaneamente. (Teses de Lyon da Esquerda do Partido Comunista Italiano,
1926)
Ao fazer isso, o fortalecimento do partido ou do grupo
comunista é, acima de tudo, «político», na sua capacidade de assumir o papel de
liderança política das lutas. O objectivo da intervenção nas lutas operárias
não é conquistar proletários e indivíduos para a organização comunista, nem o
recrutamento em si, mas impor uma alternativa de classe concreta, uma direcção
política, para que cada luta possa desenvolver-se ao máximo e ser o mais
«eficaz» possível, inclusive do ponto de vista das suas reivindicações e objectivos
imediatos. Assim, qualquer agrupamento ou adesão militante pode basear-se na
verificação e na convicção individual, tanto sobre o programa ou plataforma
política do grupo, como sobre a sua aplicação ou declinação concreta nas
intervenções e orientações do partido ou do grupo comunista. É assim que se
pode garantir da melhor forma que o agrupamento e as adesões individuais sejam
eficazes e duradouras para o militante comunista individual e que a
organização, em primeiro lugar a sua unidade política, se reforce realmente. É,
portanto, também em estreita ligação com o fenómeno
histórico da greve geral que o partido poderá constituir-se e que os seus
membros serão seleccionados.
Depois de ter começado esta contribuição citando Lenine
sobre a greve geral, vamos concluí-la com Rosa Luxemburgo e a sua posição sobre
o papel político dirigente do partido nas lutas de massas.
«Se é verdade que cabe ao período revolucionário a direcção da greve no sentido da iniciativa do seu início e da assunção dos custos, não é menos verdade que, num sentido totalmente diferente, a direcção das greves gerais cabe à social-democracia e aos seus órgãos dirigentes. Em vez de se colocar o problema da técnica e do mecanismo da greve geral, a social-democracia é chamada, num período revolucionário, a assumir a sua direcção política. A tarefa mais importante da «direcção » no período da greve geral consiste em dar a palavra de ordem da luta, orientá-la, regular a táctica da luta política de tal forma que, em cada fase e em cada momento da luta, seja realizada e posta em acção toda a força do proletariado já comprometido e lançado na batalha e que essa força se expresse pela posição do Partido na luta; é necessário que a táctica da social-democracia nunca se encontre, em termos de energia e precisão, abaixo do nível da relação de forças em presença, mas que, pelo contrário, ultrapasse esse nível; então, essa direcção política transformar-se-á automaticamente, em certa medida, em direcção técnica. Uma táctica socialista consistente, resoluta e progressista provoca nas massas um sentimento de segurança, confiança e combatividade; uma táctica hesitante, fraca, baseada numa subestimação das forças do proletariado, paralisa e desorienta as massas. No primeiro caso, as greves gerais eclodem «espontaneamente» e sempre «no momento oportuno»; no segundo caso, por mais que a direcção do Partido convoque directamente à greve, é em vão. A revolução oferece-nos exemplos eloquentes de ambos os casos. (Greve geral, partido e sindicatos, op.cit., sublinhado nosso)
RL, Dezembro de 2025
[1]. A conferência completa do general aos presidentes das câmaras municipais francesas: https://www.youtube.com/watch?v=4eA4js-Tcw4 . A passagem que citamos encontra-se por volta do minuto 19. Antes disso, o general apresenta uma visão geral dos desafios imperialistas e militares do ponto de vista da burguesia francesa. Quem compreende francês certamente achará interessante.
2. Bilan #19, Derrota do proletariado, vitória do capitalismo : De Hitler a Estaline, de Estaline a Blum, 1935, https://archivesautonomies.org/spip.php?article2416 .
3. A. Pannekoek, Le syndicalisme, Janeiro 1936, Éditions 10-18, 1973.
4. A. Pannekoek, Acção de massas e revolução, 1912, Socialismo, a via ocidental, PUF, 1983.
5. R. Luxemburgo, Greve geral, partido e sindicatos, 1906, pequena colecção Maspero, 1969.
6. L. Trotsky, 1905, Les éditions de minuit, 1969.
7. O leitor pode consultar a página dos sumários dos boletins da antiga Fracção Interna da CCI para conhecer as análises e intervenções que esta realizou na época e das quais, pela nossa parte, retomamos o essencial da experiência: https://www.fractioncommuniste.org/index.php?SEC=b00 . Pode também consultar os sumários da nossa revista e os comunicados que publicámos sobre as diferentes mobilizações proletárias desde 2013 nas quais pudemos participar.[1].
8cf. Mobilisations prolétariennes au Canada et intervention des révolutionnaires e Trois jours de grève générale en Belgique neste número da revista.
9. A. Pannekoek, Action de masse et révolution, 1912, op.cit, sublinhado por Pannekoek.
10. Lénine, L’essor révolutionnaire, 1912, Obras
completas, tomo 18, Éditions sociales, sublinhado por Lenine.
11. R. Luxemburg, op.cit.
12. Em particular RG #6, 10, 14, 22 e 24.
13. Que fazer ? Éditions
sociales, 1971. É importante chamar a
atenção dos leitores que utilizam óculos mal ajustados e salientar que Que fazer não rejeita a espontaneidade,
mas sim o «culto da espontaneidade» demonstrado pelos economistas.
14. A. Pannekoek, Thèses sur la lutte de la classe ouvrière contre le capitalisme, 1947, traduzido do inglês a partir de https://www.marxists.org/archive/pannekoe/1947/theses-fight.htm .
15. Que fazer ? op.cit.
16. Em particular, aquela segundo a qual «por si só, o movimento operário espontâneo só pode gerar sindicalismo» e que, aliás, é contrariada por outras passagens do mesmo texto.
17. Lenine, Greve económica e Greve política, 1912, op.cit.
18. cf. nosso
debate com a CWO a propósito das greves do Verão de 2022 em RG #24 :
França e Grã-Bretanha: lutas operárias e
intervenção dos revolucionários. Qual foi a acção política efectiva dos
sindicatos na vaga de greves no Reino Unido?
Fonte : www.igcl.org
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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