segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Relatório da Alemanha

 


Relatório da Alemanha

 

Introdução

O documento que segue é uma compilação de partes de relatórios entregues em reuniões de TIC pelos nossos camaradas do Gruppe Internationalistischer KommunistInnen (GIK). Eles foram compilados pelos nossos camaradas italianos da Battaglia Comunista (PCInt) e traduzidos para o inglês pela Organização dos Trabalhadores Comunistas (CWO). Os camaradas italianos enfatizam como esses extractos da Alemanha

enfatizam mais uma vez como, apesar dos factores locais, a burguesia em todo o lado tem os mesmos objectivos e as mesmas estratégias para atacar a classe operária. Também desmistifica o mito de uma classe operária alemã a viver numa espécie de paraíso em comparação com a sua contraparte italiana. Nesse contexto, a ascensão do partido neo-fascista e populista AfD é um dos efeitos tanto da crise estrutural do capital quanto do estado de prostração e desorientação no qual a burguesia lançou o proletariado, que sofre ataques económicos, sociais e políticos incessantes há décadas.

Um relatório semelhante da Itália já foi traduzido e aparecerá na edição de Janeiro de 2026 da Revolutionary Perspectives.

A Situação na Alemanha

A crise política do capitalismo alemão continua a definir a agenda e a causar tensões e conflitos dentro da classe dominante. Já delineámos em relatórios anteriores os três componentes essenciais da defesa estratégica e económica do imperialismo alemão:

1.    A perda de fontes de energia acessíveis como resultado da guerra na Ucrânia;

2.    A necessidade de se alinhar com o imperialismo americano após a invasão russa e de deixar de lado as ambições da liderança europeia;

3.    A crise estrutural da indústria alemã, que perdeu mercados na China e ficou para trás na concorrência mundial. Além disso, as tarifas dos EUA estão a enfraquecer as exportações alemãs.

Durante a era Merkel, a crise foi mais ou menos controlada. A burguesia está ciente de que, dadas as novas condições económicas e geo-estratégicas, investimentos massivos e austeridade são necessários. Merkel agora é vista por eles mais como bode expiatório e responsável por "bloquear reformas". No entanto, há sérias diferenças sobre como, quando e até que ponto agir para o ataque. Isso reflecte-se nas múltiplas crises do governo actual. Merz não correspondeu às expectativas que lhe foram impostas. Ele é geralmente considerado um chanceler de promessas vazias que gosta de falar alto. As fracturas são particularmente evidentes na actual disputa sobre a previdência. O nível das pensões caiu de 53% em 2000 para os actuais 48%. O SPD e o governo da CDU concordaram em fixar o nível de pensão em 48% até 2031 e adiar uma "reforma" abrangente do sistema de pensões para mais tarde. São, claro, montantes fictícios. Um nível de pensão de 48% só pode ser alcançado com um salário médio após 45 anos. Um exemplo: se o rendimento bruto médio é de 3.000 euros, 48% corresponde a uma pensão bruta de €1.440. Esse também é um sonho inalcançável para a maioria das pessoas. Já hoje, 3,5 milhões de pessoas são afectadas pela pobreza na velhice. Isso corresponde a uma percentagem de 19,4%. As mulheres são particularmente afectadas por esse fenómeno.

No entanto, para manter o nível das pensões em 48%, o fundo de pensões necessitaria de um subsídio anual de 127 mil milhões de euros do orçamento federal. É precisamente nesta questão que a antiga guarda pretoriana neo-liberal de Merz, a Junge Union (organização juvenil da CDU), discorda. Defende que as contribuições para o fundo de pensões seriam pagas pela geração mais jovem e está, na prática, a propor uma redução mais drástica das pensões. Trata-se, portanto, da demagogia já gasta que coloca jovens contra idosos. O que não é mencionado é que nem os deputados no Bundestag nem os funcionários públicos contribuem para o fundo público de pensões e que os ricos também preveem as suas próprias pensões privadas. A pensão pública é, portanto, suportada pela classe operária. No entanto, devido ao desemprego e ao aumento dos empregos precários, os fundos de pensões estão a diminuir. Seguradoras poderosas naturalmente têm interesse em manter a situação como está, já que cada vez mais pessoas são forçadas a contratar seguro de pensão privada adicional.

Merz foi completamente apanhado de surpresa por esta revolta nas suas próprias fileiras. (Também estava muito ocupado a encobrir as suas aparições embaraçosas no Brasil, África, etc. No entanto, o público vê-o mais como um provinciano desajeitado que nunca perde uma oportunidade de fazer algo tolo). Seja como for, o seu governo apenas possui uma maioria estreita. Estão actualmente a ser feitas tentativas de exercer pressão interna sobre o grupo juvenil. Resta saber se isso terá sucesso. Se os representantes do grupo juvenil votarem contra os planos de pensões na próxima semana, o governo CDU e SPD não terá maioria e estará, na prática, acabado. Isso abriria a porta ao AfD.

Claro que o governo não tem estado completamente inactivo. Foram preparados cortes pesados para os beneficiários de assistência social, e foram dados passos importantes para reintroduzir o serviço militar obrigatório. Mas isso não é suficiente para a burguesia.

O governo Merz tem dado especial ênfase ao endurecimento da lei sobre requerentes de asilo e intensificado as deportações. As deportações para o Afeganistão foram facilitadas através de conversações com os talibãs (algo impensável durante muito tempo). Além disso, estão em curso deportações para a Síria. Quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros Wadephuhl questionou esta decisão durante uma visita à Síria, foi publicamente repreendido e alinhou-se com a política do governo. Com a sua declaração sobre o panorama urbano (ele disse que houve progressos na política de migração, mas que ainda havia um problema no panorama urbano, referindo-se a pessoas que não pareciam alemãs), alimentou novamente o racismo. Merz espera enfraquecer o AfD desta forma. Mas o oposto é verdadeiro. O AfD continua a liderar nas sondagens. A sua popularidade está a crescer. Especialmente nas associações da CDU no leste da Alemanha, há cada vez mais apelos insistentes por uma saída definitiva do chamado firewall [o muro de  separação que a priori exclui qualquer acordo com a AfD, ed.].Não é coincidência que até a associação de empresários familiares, ou seja, pequenos e médios capitalistas (que muitas vezes simpatizam com a AfD), tenha defendido deixar de considerar a AfD um tabu. Nas eleições regionais no leste da Alemanha, espera-se actualmente que a AfD consiga um sucesso eleitoral maciço (chegando a quase 40% em alguns estados, como Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental). Muitos observadores políticos acreditam que, até lá, o mais tardar, o governo de Merz já não durará. Podemos, portanto, esperar um governo da AfD ou um governo com a participação da AfD.

O Partido da Esquerda [Die Linke, ed.] está a lutar para manter o seu apoio. Nas sondagens, situa-se em torno dos 10%. Em Berlim, está a ambicionar uma vitória eleitoral (seguindo o exemplo de Mamdani) e um regresso ao governo. No entanto, as sondagens recentes mostram um fortalecimento da AfD aqui também. (Berlim é geralmente considerada uma cidade liberal ou de esquerda). Após o sucesso eleitoral em Janeiro, os grupos trotskistas habituais estão a praticar o entrismo. Segundo as nossas informações, estão a causar algum dano. No entanto, estão a tornar-se cada vez mais influentes (assim como os grupos estalinistas). Tudo isto é determinado pela questão palestiniana (a guerra na Ucrânia é relativamente secundária na percepção da esquerda). Como já foi referido, aqui as posições trotskistas/estalinistas (“direito à auto-determinação dos povos”) e a política identitária pequeno-burguesa fundem-se numa sinergia nefasta. Isto por vezes toma formas absurdas, como palavras de ordem do tipo “Palestina, RDA! A amizade entre os povos não é difícil” ou “Sionistas para Bautzen” (Bautzen foi a maior prisão para presos políticos na RDA). Qualquer pessoa crítica das suas posições é aqui rotulada de “sionista”. Ao mesmo tempo, contudo, o reconhecimento do chamado “direito de existir” de Israel é uma condição fundamental para o envolvimento no governo (o cálculo estratégico do Partido da Esquerda). A liderança do partido tenta mascarar estes conflitos e tensões com uma “linha economicista” que coloca a ênfase no rendimento e nas questões sociais. É questionável se terá sucesso.

Gruppe Internationalistischer KommunistInnen

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2025

 

Fonte: Report from Germany | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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