Relatório da
Alemanha
Introdução
O documento que segue é uma compilação de partes de
relatórios entregues em reuniões de TIC pelos nossos camaradas do Gruppe
Internationalistischer KommunistInnen (GIK). Eles foram compilados pelos nossos
camaradas italianos da Battaglia Comunista (PCInt) e traduzidos para o inglês
pela Organização dos Trabalhadores Comunistas (CWO). Os camaradas italianos
enfatizam como esses extractos da Alemanha
enfatizam mais uma vez como, apesar dos factores
locais, a burguesia em todo o lado tem os mesmos objectivos e as mesmas
estratégias para atacar a classe operária. Também desmistifica o mito de uma
classe operária alemã a viver numa espécie de paraíso em comparação com a sua
contraparte italiana. Nesse contexto, a ascensão do partido neo-fascista e
populista AfD é um dos efeitos tanto da crise estrutural do capital quanto do
estado de prostração e desorientação no qual a burguesia lançou o proletariado,
que sofre ataques económicos, sociais e políticos incessantes há décadas.
Um relatório semelhante da Itália já foi traduzido e
aparecerá na edição de Janeiro de 2026 da Revolutionary Perspectives.
A Situação na Alemanha
A crise política do capitalismo alemão continua a
definir a agenda e a causar tensões e conflitos dentro da classe dominante. Já
delineámos em relatórios anteriores os três componentes essenciais da defesa
estratégica e económica do imperialismo alemão:
1.
A perda de fontes de energia acessíveis
como resultado da guerra na Ucrânia;
2.
A necessidade de se alinhar com o
imperialismo americano após a invasão russa e de deixar de lado as ambições da
liderança europeia;
3.
A crise estrutural da indústria alemã, que
perdeu mercados na China e ficou para trás na concorrência mundial. Além disso,
as tarifas dos EUA estão a enfraquecer as exportações alemãs.
Durante a era Merkel, a crise foi mais ou menos
controlada. A burguesia está ciente de que, dadas as novas condições económicas
e geo-estratégicas, investimentos massivos e austeridade são necessários.
Merkel agora é vista por eles mais como bode expiatório e responsável por
"bloquear reformas". No entanto, há sérias diferenças sobre como,
quando e até que ponto agir para o ataque. Isso reflecte-se nas múltiplas
crises do governo actual. Merz não correspondeu às expectativas que lhe foram
impostas. Ele é geralmente considerado um chanceler de promessas vazias que
gosta de falar alto. As fracturas são particularmente evidentes na actual
disputa sobre a previdência. O nível das pensões caiu de 53% em 2000 para os actuais
48%. O SPD e o governo da CDU concordaram em fixar o nível de pensão em 48% até
2031 e adiar uma "reforma" abrangente do sistema de pensões para mais
tarde. São, claro, montantes fictícios. Um nível de pensão de 48% só pode ser
alcançado com um salário médio após 45 anos. Um exemplo: se o rendimento bruto
médio é de 3.000 euros, 48% corresponde a uma pensão bruta de €1.440. Esse
também é um sonho inalcançável para a maioria das pessoas. Já hoje, 3,5 milhões
de pessoas são afectadas pela pobreza na velhice. Isso corresponde a uma percentagem
de 19,4%. As mulheres são particularmente afectadas por esse fenómeno.
No entanto, para manter o nível das pensões em 48%, o
fundo de pensões necessitaria de um subsídio anual de 127 mil milhões de euros
do orçamento federal. É precisamente nesta questão que a antiga guarda pretoriana
neo-liberal de Merz, a Junge Union (organização juvenil da CDU), discorda.
Defende que as contribuições para o fundo de pensões seriam pagas pela geração
mais jovem e está, na prática, a propor uma redução mais drástica das pensões.
Trata-se, portanto, da demagogia já gasta que coloca jovens contra idosos. O
que não é mencionado é que nem os deputados no Bundestag nem os funcionários
públicos contribuem para o fundo público de pensões e que os ricos também
preveem as suas próprias pensões privadas. A pensão pública é, portanto,
suportada pela classe operária. No entanto, devido ao desemprego e ao aumento
dos empregos precários, os fundos de pensões estão a diminuir. Seguradoras
poderosas naturalmente têm interesse em manter a situação como está, já que
cada vez mais pessoas são forçadas a contratar seguro de pensão privada
adicional.
Merz foi completamente apanhado de surpresa por esta
revolta nas suas próprias fileiras. (Também estava muito ocupado a encobrir as
suas aparições embaraçosas no Brasil, África, etc. No entanto, o público vê-o
mais como um provinciano desajeitado que nunca perde uma oportunidade de fazer
algo tolo). Seja como for, o seu governo apenas possui uma maioria estreita.
Estão actualmente a ser feitas tentativas de exercer pressão interna sobre o
grupo juvenil. Resta saber se isso terá sucesso. Se os representantes do grupo
juvenil votarem contra os planos de pensões na próxima semana, o governo CDU e
SPD não terá maioria e estará, na prática, acabado. Isso abriria a porta ao
AfD.
Claro que o governo não tem estado completamente inactivo. Foram preparados
cortes pesados para os beneficiários de assistência social, e foram dados
passos importantes para reintroduzir o serviço militar obrigatório. Mas isso
não é suficiente para a burguesia.
O governo Merz tem dado especial ênfase ao
endurecimento da lei sobre requerentes de asilo e intensificado as deportações.
As deportações para o Afeganistão foram facilitadas através de conversações com
os talibãs (algo impensável durante muito tempo). Além disso, estão em curso
deportações para a Síria. Quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros Wadephuhl
questionou esta decisão durante uma visita à Síria, foi publicamente
repreendido e alinhou-se com a política do governo. Com a sua declaração sobre
o panorama urbano (ele disse que houve progressos na política de migração, mas
que ainda havia um problema no panorama urbano, referindo-se a pessoas que não
pareciam alemãs), alimentou novamente o racismo. Merz espera enfraquecer o AfD
desta forma. Mas o oposto é verdadeiro. O AfD continua a liderar nas sondagens.
A sua popularidade está a crescer. Especialmente nas associações da CDU no
leste da Alemanha, há cada vez mais apelos insistentes por uma saída definitiva
do chamado firewall [o muro de separação
que a priori exclui qualquer acordo com a AfD, ed.].Não é coincidência que até
a associação de empresários familiares, ou seja, pequenos e médios capitalistas
(que muitas vezes simpatizam com a AfD), tenha defendido deixar de considerar a
AfD um tabu. Nas eleições regionais no leste da Alemanha, espera-se actualmente
que a AfD consiga um sucesso eleitoral maciço (chegando a quase 40% em alguns
estados, como Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental). Muitos observadores políticos
acreditam que, até lá, o mais tardar, o governo de Merz já não durará. Podemos,
portanto, esperar um governo da AfD ou um governo com a participação da AfD.
O Partido da Esquerda [Die Linke, ed.] está a lutar
para manter o seu apoio. Nas sondagens, situa-se em torno dos 10%. Em Berlim,
está a ambicionar uma vitória eleitoral (seguindo o exemplo de Mamdani) e um
regresso ao governo. No entanto, as sondagens recentes mostram um
fortalecimento da AfD aqui também. (Berlim é geralmente considerada uma cidade
liberal ou de esquerda). Após o sucesso eleitoral em Janeiro, os grupos
trotskistas habituais estão a praticar o entrismo. Segundo as nossas
informações, estão a causar algum dano. No entanto, estão a tornar-se cada vez
mais influentes (assim como os grupos estalinistas). Tudo isto é determinado
pela questão palestiniana (a guerra na Ucrânia é relativamente secundária na
percepção da esquerda). Como já foi referido, aqui as posições
trotskistas/estalinistas (“direito à auto-determinação dos povos”) e a política
identitária pequeno-burguesa fundem-se numa sinergia nefasta. Isto por vezes
toma formas absurdas, como palavras de ordem do tipo “Palestina, RDA! A amizade
entre os povos não é difícil” ou “Sionistas para Bautzen” (Bautzen foi a maior
prisão para presos políticos na RDA). Qualquer pessoa crítica das suas posições
é aqui rotulada de “sionista”. Ao mesmo tempo, contudo, o reconhecimento do
chamado “direito de existir” de Israel é uma condição fundamental para o
envolvimento no governo (o cálculo estratégico do Partido da Esquerda). A
liderança do partido tenta mascarar estes conflitos e tensões com uma “linha
economicista” que coloca a ênfase no rendimento e nas questões sociais. É
questionável se terá sucesso.
Gruppe Internationalistischer KommunistInnen
Segunda-feira, 22 de Dezembro
de 2025
Fonte: Report
from Germany | Leftcom
Este artigo foi
traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice
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