A Rússia não atingiu o estágio imperialista (???)
28 de Dezembro de 2025 Robert Bibeau
Este artigo tem como objectivo discutir o conceito de imperialismo no contexto do modo de produção capitalista (MPC). As nossas reflexões encontram-se na secção de "comentários" no final do artigo (Nota do Editor). Ao longo dos anos, a revista online LES7DUQUEBEC.NET publicou diversos artigos sobre o imperialismo como o estágio mais elevado do capitalismo : https://les7duquebec.net/?s=imperialisme
Por Aymeric Monville. Sobre a Rússia não ter
atingido o estágio imperialista.
Se levarmos a sério a definição de
imperialismo de Lenine, classificar a Rússia contemporânea como uma potência
imperialista apresenta um grande problema teórico. Esse problema não decorre de
simpatia política ou moral, mas da própria coerência dos conceitos. Ou mantemos
uma definição rigorosa de imperialismo, ou a ampliamos a ponto de torná-la
indistinguível.
Para Lenine , o imperialismo não é sinónimo de política externa agressiva ou mesmo de guerra. Ele designa um estágio específico do capitalismo, caracterizado por traços absolutamente centrais: a concentração de capital que leva a monopólios, a fusão do capital bancário e industrial em capital financeiro e, sobretudo, a exportação maciça de capital que se torna mais importante do que a exportação de bens ( https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1916/imp-hsc/ch07.htm ). O imperialismo pressupõe, portanto, um alto grau de desenvolvimento capitalista, a dominação de oligarquias financeiras poderosas e internacionalizadas, capazes de estruturar a economia mundial e dividir permanentemente o globo entre si.
No entanto, a Rússia não se encaixa nesse
modelo, e dados económicos concretos confirmam isso consistentemente. Se a Rússia
fosse imperialista, deveria ocupar um lugar central nas finanças mundiais.
Contudo, de acordo com rankings internacionais de bancos por capitalização de
mercado, a Rússia tem apenas um banco entre os cem maiores do mundo, uma
situação comparável à de países como Finlândia, Noruega ou Catar, e muito
distante da dos verdadeiros centros imperialistas. A União Europeia tem vinte e
sete bancos nesse ranking, e os Estados Unidos, onze ( https://fxssi.com/top-20-largest-world-banks-in-current-year ). O sistema
bancário russo, embora significativo a nível nacional, é altamente concentrado
e amplamente controlado pelo Estado: os quatro maiores bancos estatais
controlam aproximadamente 55% dos activos bancários, enquanto o maior banco
privado controla apenas cerca de 4% ( https://www.bofit.fi/en/monitoring/weekly/2019/vw201901_2/ ). O Sberbank, o
VTB, o Gazprombank e o Rosselkhozbank não são instrumentos para a expansão mundial
do capital financeiro, mas sim alavancas para a estabilização interna e o
desenvolvimento económico controlado pelo Estado.
Outro indicador decisivo confirma essa
falta de status imperialista: os principais bancos russos podem ser facilmente
excluídos do sistema SWIFT, a infraestrutura central para transações
financeiras mundiais que interliga mais de onze mil bancos em duzentos países.
O facto de sete grandes bancos russos, incluindo o VTB e o banco de
desenvolvimento VEB ( https://www.euronews.com/my-europe/2022/03/02/these-are-the-7-russian-banks-banned-from-swift-and-the-two-exempted ), terem sido
expulsos desse sistema por decisão política das potências ocidentais, demonstra
claramente que a Rússia não pertence ao núcleo do capital financeiro mundial.
Uma verdadeira potência imperialista não pode ser marginalizada dessa forma sem
provocar uma crise sistémica imediata.
De forma semelhante, a exportação de
capital, um critério central para Lenine, permanece marginal no caso russo. O
investimento directo russo no exterior representa aproximadamente 0,4% do PIB,
um nível comparável ao de países não imperialistas como a Índia, e muito
inferior ao do Canadá, Alemanha, França ou Estados Unidos ( https://data.worldbank.org/indicator/BM.KLT.DINV.WD.GD.ZS ). As
exportações russas são dominadas por hidrocarbonetos, matérias-primas, metais,
fertilizantes e produtos agrícolas ( https://www.worldstopexports.com/russias-top-10-exports/ ). Esta é uma
estrutura típica de uma economia dependente da exportação de bens, e não de uma
economia baseada na exportação de capital financeiro, estruturando relações de
dependência generalizada.
Isso leva-nos a um ponto teórico crucial.
Equiparar a Rússia a uma potência imperialista simplesmente porque ela adopta
uma política militar ou defende as suas esferas de influência equivale a
confundir imperialismo com conflito interestatal. Para Lenine, no entanto, o
imperialismo não é uma questão de vontade política, mas de estrutura económica.
Nem todos os Estados capazes de travar uma guerra são imperialistas. Caso
contrário, o conceito torna-se puramente descritivo, moral ou geo-político, e
perde todo o seu valor analítico.
O poder na Rússia reside muito mais numa
burguesia nacional do que numa oligarquia imperialista em sentido estrito. Essa
burguesia emergiu da restauração capitalista da década de 1990; é desigual e
autoritária, mas permanece essencialmente focada na defesa de interesses
nacionais objectivos. Esses interesses incluem a sobrevivência do Estado, o
controle de recursos estratégicos, a segurança das fronteiras e a resistência
ao cerco militar e económico por parte das potências imperialistas
estabelecidas. A política externa russa é menos guiada por uma lógica de
expansão de capital do que por uma lógica de preservação da sua soberania
dentro de um sistema mundial dominado por outros.
Isso não significa que a Rússia seja
progressista, socialista ou emancipadora. Significa simplesmente que ela não é
imperialista no sentido estrito marxista-leninista. Ela actua como um Estado
capitalista periférico ou semi-periférico, possuindo capacidades militares
significativas, mas economicamente dominada por uma ordem mundial que não
criou. Confundi-la com os centros imperialistas é apagar a verdadeira
hierarquia do capitalismo mundial.
Nesse
sentido, defender uma definição rigorosa de imperialismo não é defender a
Rússia, mas sim a coerência da análise marxista. Sem esse rigor, torna-se
impossível compreender a ordem mundial, as relações reais de dominação ou as
razões pelas quais algumas potências estruturam o sistema capitalista enquanto
outras apenas tentam sobreviver dentro dele.
Aymeric Monville
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Fonte: La Russie n’a pas atteint le stade impérialiste (???) – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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