Georges Habache, figura lendária da
luta nacional palestiniana
«Naquela época, morrer pela Palestina fazia sentido. A subserviência colectiva da monarquia a Israel, um contrasenso. Uma traição indelével.»
Este artigo
é publicado por ocasião do 13.º aniversário da morte de Georges Habache, em 26
de Janeiro de 2008, aos 82 anos, em Amã.
É dedicado a
AHMAD SAADATE. Sucessor de Georges Habache à frente da FPLP (Frente Popular
para a Libertação da Palestina), Ahmad Saadate foi preso em 15 de Janeiro de
2002 pela Autoridade Palestiniana na prisão de Jericó (Cisjordânia), suspeito
de ter encomendado o assassinato de Rehavam Zeevi, ministro do Turismo
israelita. Um acordo celebrado sob a égide dos Estados Unidos e do Reino Unido
entre Israel e a Autoridade Palestiniana previa a prisão de Ahmad Saadate na
prisão palestiniana de Jericó e a responsabilidade pela sua vigilância confiada
aos americanos e britânicos. Em 8 de Março de 2006, os guardas americanos e
britânicos abandonaram os seus postos, rompendo de facto o compromisso de
Londres e Washington de garantir a vigilância da prisão de Jericó. Uma semana
depois, em 14 de Março de 2006, o exército israelita lançou um ataque contra a
prisão de Jericó. Este ataque causou duas mortes e 20 feridos, todos
palestinianos (guardas e prisioneiros). No final de Abril de 2006, o procurador
israelita anunciou que Ahmad Saadate não seria processado pelo assassinato do
ministro Rehavam Zeevi, mas julgado por «atentados à segurança de Israel»,
enquanto os seus quatro companheiros, capturados ao mesmo tempo que ele, seriam
julgados pelo homicídio. Em Dezembro de 2008, um tribunal militar israelita
condenou Ahmad Saadate a 30 anos de prisão por liderar uma «organização
terrorista ilegal» e pela sua responsabilidade em todas as acções terroristas
realizadas pela sua organização.
Neste caso,
Mahoumd Abbas, líder da Autoridade Palestiniana, revelou-se um perfeito
capanga, justificando o veredicto do grande orador da Revolução Francesa, o
conde Honoré Gabriel Mirabeau, segundo o qual «existe alguém pior do que um
carrasco: o seu lacaio».
1 – No
início, o Movimento Nacionalista Árabe MNA
Se Yasser
Arafat, líder da Fatah, é o artífice do renascimento da luta palestiniana,
Georges Habache, fundador do Movimento Nacionalista Árabe (MNA) e,
posteriormente, da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), será a
sua figura lendária.
A sua voz
estentórica, longe de qualquer teatralidade, a precisão do seu discurso de alto
nível, a sua sobriedade ascética, longe de qualquer extravagância, fizeram
deste médico cristão palestiniano, formado pela Universidade Americana de
Beirute, o ídolo absoluto dos palestinianos e dos seus numerosos apoiantes em
todo o mundo; uma veneração amplificada pelas acções heróicas da sua
organização.
Uma
popularidade comparável à do discreto número 2 do movimento palestiniano,
Khalil Al Wazir, também conhecido como Abou Jihad, o chefe militar da guerrilha
palestiniana, que o tornaria o número 1 BIS do movimento nacional palestiniano.
Discreto e
modesto, este pediatra, filho de uma família abastada da Palestina, tinha duas
clínicas em Amã, uma para a clientela abastada, à qual cobrava os seus serviços
a preço integral, e outra no campo de refugiados de Wahadate, nos arredores de
Amã, para os mais desfavorecidos, que tratava gratuitamente. Com o seu
compromisso com o activismo, renunciou à sua vocação médica para se dedicar
exclusivamente à luta anti-imperialista, mas manteve o seu título «Al Hakim»,
que se tornou o seu nome de guerra.
Ao longo da
sua vida, contentou-se com o seu modesto salário de cerca de 300 dólares por
mês para suprir as suas necessidades básicas. Uma vida de grande frugalidade,
em contraste com os banquetes petrolíferos monárquicos.
Um exemplo
raríssimo no mundo árabe. Uma regra que apenas a nova figura emblemática árabe
Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah libanês, observará posteriormente e, antes
dele, o egípcio Gamal Abdel Nasser.
Ponta de
lança da luta contra o colonialismo europeu no rescaldo da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), o Movimento Nacionalista Árabe (Harakat al-Qawmiyyin
al-Arab) constituiu durante muito tempo a «bête noire do Ocidente» e o seu
pesadelo.
A tal ponto
que os defensores de uma ideologia pan-árabe, compensatória de uma balcanização
excessiva do espaço árabe, eram criminalizados com um termo que pretendia ser
infamante, «nacionalista», sugerindo um travo de chauvinismo xenófobo.
Um dos mais
ilustres desses delatores nas sombras é Jean Yves Camus, membro da Fundação
Jean Jaurès, um órgão satélite do Partido Socialista Francês, desesperado com
as análises contrárias do signatário deste texto, que não hesita em
qualificá-lo de «nacionalista árabe» como se a procura de um limiar crítico do
mundo árabe para contrabalançar os grandes blocos regionais induzidos pela
globalização, como a União Europeia ou o Mercosul, constituísse uma tarefa
infamante; ou a defesa da causa palestiniana, uma mancha moral indelével.
Segue-se a resposta do autor deste texto a Jean Yves Camus sobre o nacionalismo árabe, intitulada «denúncia subliminar», para condenar esta prática hedionda de lançar à mercê de todos os pensamentos dissidentes, uma função retomada hoje em dia pelo termo «conspiracionista» para denunciar as manobras nos bastidores para desestabilizar os países que contestam a hegemonia atlantista e desvalorizar os seus argumentos.
https://www.liberation.fr/tribune/2007/05/28/delation-subliminale_94244
e neste
link a infalibilidade dos editores e a acusação de conspiracionismo:
Partido
político que professa uma ideologia pan-árabe, mas laica, o Movimento
Nacionalista Árabe, paradoxalmente, teve as suas origens na Universidade
Americana de Beirute, um dos centros da contestação política na década de
1950-1960, período marcado pelo trauma da derrota da Palestina e pela derrota
dos regimes árabes.
Por
instigação de um académico palestiniano cristão, Constantin Zreik, o MNA reuniu
um grupo de estudantes nacionalistas, entre os quais se destacavam Georges
Habache, que na década de 1970 se tornaria um mítico líder da guerrilha
palestiniana, e o seu adjunto e alter ego, Wadih Haddad.
Ferrenhos
adversários do imperialismo ocidental, da colonização e do Estado de Israel, o
MNA, movimento socialista, nacionalista e secular, adoptaria uma ideologia
revolucionária e pan-árabe. Ele enfatizaria a formação de uma elite intelectual
nacionalista, suficientemente capaz de realizar a unidade árabe.
No seu lançamento oficial em 1958, o MNA deparou-se rapidamente com a oposição da Síria e do Iraque, uma vez que estes dois países, governados a partir da década de 1960 pelo Baath, uma ideologia pan-árabe concorrente do nasserismo, proibiram as actividades do MNA, próximo da corrente nasserista, no seu território.
A – Península Arábica
Apesar dos obstáculos, o MNA desempenharia um papel de primeiro plano na libertação do mundo árabe do jugo colonial. No seu palmarés, duas gloriosas façanhas: O protectorado britânico de Aden, o bloqueio inglês na rota das Índias, que foi derrubado pela sua liderança do FLOSY (Frente de Libertação do Iémen do Sul Ocupado) do nasserista Abdel Kawi Makkawi. Da mesma forma, a sua contribuição para o início da revolta marxista de Dhofar, em Omã, sob protectorado britânico, da qual constituiu a matriz fundadora.
A partir de 1964, a filial omanense do MNA participou na formação da Frente de Libertação do Dhofar (FLD). Este partido de esquerda, apoiado pela URSS e pela China, decidiu alargar as suas ambições. Foi então rebatizado «Frente Popular de Libertação do Golfo Árabe Ocupado» (FPLGAO).
Em 1972, o
partido mudou novamente de nome para «Frente Popular de Libertação de Omã e do
Golfo Árabe» (FLOGA), para mudar mais uma vez de nome, em 1974, tornando-se a
«Frente Popular de Libertação de Omã» (FPLO).
O objectivo deste movimento era derrubar o sultão Said Ibn Taymour, considerado tirânico, conservador e retrógrado pelos membros da rebelião.
A rebelião
do Dhofar foi, no entanto, reprimida por uma acção conjunta dos britânicos, senhores
do local, que ocupavam a base aeronaval de Msassirah, e do Xá do Irão, que na
época actuava como guardião do golfo após a retirada britânica do leste de
Suez. Para evitar qualquer recaída, o Reino Unido fomentou um golpe de força
contra o sultão Said para substituí-lo pelo seu filho.
·
Para ir mais
longe neste tema, cf: https://www.madaniya.info/2020/01/13/mascate-le-geneve-du-moyen-orient/
B – No Iraque
O MNA desempenhou um papel importante na cena política iraquiana. Juntamente
com os nasseristas, participou no governo pós-monárquico de Abdel Rahman Aref.
C – Na Síria
Em 1962, após o fracasso da República Árabe Unida (fusão do Egipto e da Síria entre 1958 e 1962), um grupo de intelectuais fundou um partido que exigia a reunificação imediata da Síria com o Egipto. As adesões ao partido aumentaram significativamente, a ponto de participar no governo baathista estabelecido após o golpe de Estado de 8 de Março de 1963. No entanto, em 1964, tanto no Iraque como no Egipto, o MNA fundiu-se com a corrente nasserista na União Socialista Árabe nos dois países.
2 – A viragem para o marxismo após a derrota de Junho
de 1967.
A derrota de Junho de 1967 foi um golpe fatal para a
liderança de Gamal Abdel Nasser e para o prestígio do nasserismo.
O MNA deixou então de existir como força política regional na década de 1970, enquanto os seus principais líderes, Georges Habache e Nayef Hawatmeh, se aproximavam do marxismo.
A – Líbano
Após a derrota de 1967, no Líbano, o Movimento Nacionalista Árabe participou na fundação da Organização da Acção Comunista no Líbano, liderada por Mohsen Ibrahim, uma organização que unia o marxismo e o nacionalismo árabe.
B – Palestina: A Frente Popular de libertação
da Palestina
Os elementos marxistas do movimento, que tinham reconstituído um ramo palestiniano na década de 1960, criaram a Frente Nacional de Libertação da Palestina (FNLP). Em Dezembro de 1967, a FNLP formou um grupo independente com duas outras organizações palestinianas: «Heróis do Retorno» (Abtal al-Awda) e a Frente de Libertação da Palestina de Ahmed Jibril. Juntos, eles criaram a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), liderada por Georges Habache. Em torno da FPLP, Georges Habache formou o Partido de Acção Socialista Árabe, que desenvolveu ramos em diferentes países.
C – Frente Democrática de Libertação
da Palestina
Em 1968, Nayef Hawatmeh, de tendência maoísta, afastou-se da FPLP para criar o seu próprio partido, a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP).
D – Koweit
No Kuwait, a filial local do MNA formará o partido da Reunião
Democrática do Kuwait, como ala moderada do MNA, o que lhe valerá críticas dos
omanenses da FPLO.
Sob a liderança do deputado kuwaitiano Ahmad Al Khatib, este partido da oposição será muito crítico em relação ao governo kuwaitiano, denunciando nomeadamente a política petrolífera, os problemas da sociedade kuwaitiana e a defesa da democracia.
E – Arábia saudita
A filial saudita foi formada no início da década de 1950, inicialmente seguindo a linha nasserista antes de se orientar para o marxismo-leninismo. Ela formaria o Partido Comunista da Arábia Saudita e o Partido Socialista Árabe de Acção.
3 – Beirute, foco da contestação pan-árabe
A junção, através da Universidade Americana e da FPLP, de Georges Habache, Leila Khaled, Rafic Hariri e Georges Ibrahim Abdallah.
Beirute, plataforma revolucionária da década de 1960-1970, será o ponto de convergência de todos os opositores árabes, revolucionários ou não, perseguidos pelas autoridades dos seus países. Eles coabitarão lado a lado com os guerrilheiros do Mediterrâneo ao Golfo – arménios, curdos, somalis, eritreus etc. – e guerrilheiros da África, Ásia e América Latina.
É também aí que sunitas libaneses em ruptura com a burguesia, cristãos em desacordo com a ideologia falangista e xiitas «despossuídos» vindos do sul do Líbano em busca de instrução darão o tom a todas as manifestações de protesto no mundo árabe, como foi o caso em Setembro de 1970 contra o massacre de palestinianos na Jordânia, em 1972 contra o massacre dos comunistas no Sudão ou ainda contra a «traição» do presidente egípcio Sadate em 1977.
Em Beirute, finalmente, outrora um dos altos centros do cosmopolitismo, a prestigiada Universidade Americana (AUB), e este é o menor dos seus paradoxos, dará à FPLP alguns dos seus principais dirigentes, favorecendo a união em torno do académico Constantin Zreik, de Georges Habache, chefe da FPLP e doutor em medicina, seu alter ego, Wadih Haddad, bem como Leila Khaled, ex-aluna da missão evangelista de Saida, e Bassam Abou Charif, porta-voz da FPLP.
·
Para ir mais
longe neste tema, cf este link: https://www.renenaba.com/beyrouth-ouest-le-dernier-carre-de-la-contestation-arabe/
Transcendendo as divisões étnico-religiosas, o MNA e depois a FPLP reunirão, em torno da luta pela libertação da Palestina, cristãos e muçulmanos, figuras tão antagónicas como Rafic Hariri, na época da sua juventude militante em Saida (sul do Líbano), antes de ser seduzido pela miragem dos petrodólares sauditas; Nabih Berry, líder do movimento xiita Amal e presidente da Câmara dos Deputados do Líbano, que agora opera em conjunto com o Hezbollah, bem como Georges Ibrabim Abdallah, comunista cristão libanês pró-palestiniano, carismático líder da luta palestiniana e decano dos prisioneiros políticos na Europa.
Abdel Fattah
Ismail, antigo presidente da República marxista do sul do Iémen; o líder da
oposição kuwaitiana Ahmad Al Khatib, o cristão marxista jordaniano Nayef
Hawatmeh, fundador da FDLP; Abou Ali Moustapha, líder militar da FPLP e
sucessor de Georges Habache à frente da organização marxista; Ghassane
Kanafani, escritor e primeiro porta-voz da FPLP, morto pela explosão de um
pacote-bomba em Beirute; o caricaturista palestiniano Naji al-Ali, morto pela
explosão de um pacote-bomba em Londres; Yasser Abd Rabbo, antigo porta-voz da
Frente Democrática para a Libertação da Palestina; e, finalmente, Mohsen
Ibrahim (xiita libanês), líder da Organização da Acção Comunista no Líbano e um
dos animadores da coligação palestiniano-progressista durante a guerra civil
libanesa (1975-1990).
·
Para ir mais
longe sobre Georges Ibrahim Abdallah, https://www.madaniya.info/2019/10/24/proces-georges-ibrahim-abdallah-contre-l-etat-francais/
·
Para ir mais
longe sobre a função de Beirute na década 1970, cf este link: https://www.renenaba.com/beyrouth-ouest-le-dernier-carre-de-la-contestation-arabe/
·
Para ir mais
longe sobre a força propulsiva do nacionalismo árabe, cf este link: https://www.renenaba.com/aux-temps-benis-du-nationalisme-arabe/
4 – 1970 A FPLP no auge da popularidade com Leila Khaled, autora de um
duplo sequestro de avião e do ataque comando ao aeroporto de Lod Telavive.
Derrotador do protectorado britânico de Aden, coroado pela sua vitória
contra o colonialismo britânico, –padrinho da «Promessa Balfour» que criou o
«Lar Nacional Judaico» na Palestina, núcleo do futuro Estado de Israel–, a FPLP
alcançou o auge da popularidade em 1969-1970 com o duplo sequestro de avião de
Leila Khaled, um facto único nos anais da guerrilha do terceiro mundo.
A foto de Leila Khaled vestindo um fato branco, chapéu branco e óculos escuros, na grande sala de espera do aeroporto de Roma, momentos antes de embarcar no avião que pretendia sequestrar para Damasco, em 1969, teve um efeito libertador e galvanizador, ainda mais porque Leila Khaled obrigou o voo da TWA que fazia a ligação Los Angeles-Telavive a sobrevoar, num gesto simbólico, Haifa, em homenagem à sua cidade natal, que ela havia deixado em 1948, antes de aterrissar em Damasco.
Irreconhecível devido a uma cirurgia plástica, Leila Khaled voltaria a agir
em 1970, atacando a companhia aérea israelita El Al, símbolo da superioridade
israelita, que fazia a ligação entre Amesterdão e Nova Iorque. A militante
palestiniana foi neutralizada, mas o avião da El Al foi desviado para o
aeroporto de Londres-Heathrow.
Na sede da FPLP no campo de Wahadate, subúrbio de Amã, durante uma
conferência de imprensa de Ghassane Kanafani, porta-voz da organização
marxista, em Setembro de 1970, durante o triplo desvio de avião para a «Revolução
do Aeroporto de Zarka».
Num facto único nos anais do transporte aéreo, a FPLP organizou um triplo sequestro de aviões (Suíça, Reino Unido e Estados Unidos) em Setembro de 1970 para obter a libertação da sua militante. Este triplo desvio teve como palco o deserto da Jordânia, onde a FPLP construiu, para a ocasião, um aeroporto revolucionário chamado «Zarka Airport Revolution», na verdade uma antiga pista britânica a cerca de trinta quilómetros a nordeste de Amã, que a imprensa internacional designou na época como «Dawson’s Field Hijacking». A FPLP emitiu vistos de entrada com o selo «Zarka Airport Revolution» para os quinhentos jornalistas, um número recorde na época, que vieram cobrir o evento.
A FPLP exigiu a libertação de Leila Khaled e conseguiu-a, libertando então os passageiros dos três aviões, antes de dinamitar as aeronaves para eliminar qualquer vestígio dos autores do desvio.
O signatário deste texto testemunhou este evento, cobrindo para a Agência France Presse toda a sequência conhecida como o «Setembro Negro» da Jordânia.
Para saber mais sobre este tema, consulte este link: https://www.renenaba.com/jordanie-septembre-noir/
Desrespeitando de forma espectacular a autoridade do
poder real jordaniano, este triplo desvio precipitou a Jordânia numa guerra
civil, um episódio conhecido como «Setembro Negro», o massacre dos
palestinianos pelas tropas beduínas do rei Hussein da Jordânia.
Três mil palestinianos serão mortos num mês nesses
combates, durante os quais o rei hachemita ordenará o bombardeamento da sua
capital, dando rédea solta aos beduínos da Legião Árabe para atacar os
palestinianos.
O Setembro Negro provocou a perda do santuário jordaniano dos Fedayins e a sua primeira retirada para Beirute, que seria a sua plataforma revolucionária durante uma década... até ao cerco da capital libanesa pelo exército israelita em 1982 e ao novo êxodo dos palestinianos para Tunes.
A – A resposta palestiniana em dois tempos: Wasfi Tall e Os Jogos Olímpicos de Munique em 1972
Os palestinianos retaliarão em duas etapas contra o trono hachemita: O carniceiro de Amã, o primeiro-ministro Wasfi Tall, agente atraído pelos ingleses para a zona, tal como o iraquiano Noury Said, será assassinado no Cairo no ano seguinte e a organização clandestina «Setembro Negro» procederá, em 1972, a uma espetacular tomada de reféns durante os Jogos Olímpicos de Munique, de 5 a 9 de Setembro de 1972, contra a equipa israelita, da qual onze membros serão assassinados, além de um polícia da Alemanha Ocidental e cinco dos oito membros do comando palestiniano mortos, os outros três capturados.
B – O casamento da Raínha Dina da Jordania com um dirigente da FPLP, Salah Salah.
Apesar da perda estratégica de Amã, capital de um reino cujo terço da população é de origem palestiniana, e da retirada para Beirute, a ousadia da FPLP suscitará um entusiasmo sem precedentes pela causa palestiniana. A tal ponto que a rainha Dina, primeira esposa do rei Hussein da Jordânia e sua prima, formada pela prestigiada Universidade de Cambridge, se casou em segundas núpcias com um líder da FPLP, Salah Salah. Este casamento, celebrado em 1970, foi visto como uma conquista de grande alcance psicológico, na medida em que este afronta à auto-estima real ressoou como uma vingança simbólica dos palestinianos sobre o seu algoz jordaniano.
C – A coordenação da FPLP com O Exército Vermelho Japonês e o ataque ao aeroporto de Lod em Telavive
Em Beirute, agora promovida à função de plataforma operacional dos revolucionários do terceiro mundo, a FPLP empenhar-se-á em criar uma «Internacional revolucionária», estabelecendo uma aliança com o Exército Vermelho Japonês, com o objectivo de burlar a vigilância dos serviços secretos israelitas e ocidentais e levar a cabo acções concertadas contra os seus inimigos comuns.
Se o sequestro da El Al foi conduzida por Leila Khaled em colaboração com um militante nicaraguense, simpatizante da causa palestiniana, o ataque ao aeroporto de Lod Telavive foi sub-contratado ao Exército Vermelho Japonês. O ataque realizado em 30 de Maio de 1972 foi particularmente sangrento: 26 mortos e 20 feridos, além de três assaltantes mortos e um membro do comando, Közô Okomoto, capturado.
D- Carlos e o FPLP
Facto raríssimo para um movimento de libertação
nacional, a FPLP confiou a responsabilidade das suas operações externas, em
1973, a Ilich Ramírez Sánchez, um militante comunista venezuelano, uma decisão
que visava demonstrar o caráter internacionalista do movimento palestiniano.
À frente da Frente Popular para a Libertação da Palestina-Operações Externas (FPLP-OE), Ilich Ramirez, anteriormente treinado num campo da FPLP na Jordânia, adoptou então o apelido de Carlos.
·
Em 30 de
dezembro de 1973, em Londres, Carlos tenta assassinar Joseph Sieff,
presidente-executivo da Marks & Spencer e vice-presidente da Federação
Sionista da Grã-Bretanha. No mês seguinte, em Janeiro de 1974, ainda em
Londres, ele é responsável por um atentado à bomba contra o Hapoalim Bank.
·
Em 1974, ele
reivindica uma série de atentados em Paris, nomeadamente contra a Drugstore
Saint-Germain (Drugstore Publicis), propriedade de Marcel Bleustein Blanchet,
atentado que causou duas mortes e trinta e quatro feridos, incluindo quatro
crianças. Em 1975, ele tentou um ataque com lança-foguetes no aeroporto de Orly
contra um Boeing 707 da companhia El AL.
·
Em 27 de Junho
de 1975, ele matou Raymond Dous e Jean Donatini, dois inspectores da DST, e
Michel Moukarbal, um informante libanês em Paris.
· O ponto alto desse activismo foi atingido em 21 de Dezembro de 1975, com a tomada de 11 ministros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) como reféns em Viena.
Na sequência desta operação espetacular, Carlos será afastado por Wadih Haddad, o número 2 do FPLP, da responsabilidade pelas operações externas, devido a suspeitas de retenção do resgate dos reféns da OPEP.
E- A gestão de símbolos com forte carga simbólica
Composto principalmente por licenciados da
Universidade Americana de Beirute (AUB), os quadros superiores da FPLP
demonstraram habilidade na gestão de símbolos com forte carga psicológica,
alvos com efeito mobilizador.
Se Leila Khaled fez o avião da TWA sequestrado sobrevoar Damasco, sua cidade natal, Haifa, o ataque ao aeroporto de Lod teve como alvo a cidade natal de Georges Habache, natural de Lydda, antes que os israelitas decidissem a sua hebraização em Lod.
Thérèse Halsa e o desvio do avião da Sabena em 1972
Uma terceira
operação, o desvio, em 8 de Maio de 1972, do voo 751 Bruxelas-Telavive da
Sabena, tomado de assalto em pleno voo, logo após a escala em Viena, marcará o
envolvimento de uma jovem palestiniana cristã, Thérésa Halsa, na luta nacional
palestiniana. O desvio da Sabena tinha como objectivo obter a libertação de
cerca de 350 prisioneiros palestinianos. Nascida em Saint Jean d'Acre,
ex-enfermeira, Thérésa Halsa será a única sobrevivente do comando, morto por
israelitas disfarçados de socorristas e técnicos. Ela recuperará a liberdade em
1983, no âmbito de uma troca de prisioneiros. Mãe de três filhos, ela morrerá
em 29 de Março de 2020 em Amã, vítima de um cancro no pulmão.
Para ir mais longe sobre Thérésa Halsa, clique neste link
Espectaculares,
estas operações tiveram um efeito mobilizador no plano militante e libertador
no plano dos costumes familiares. A passividade tradicional das mulheres em
relação aos membros masculinos da sua família foi quebrada. Como pioneira,
Leila Khaled serviu de exemplo e de estímulo.
Dalal Moughrabi
Em 1978,
outra militante palestiniana, Dalal Moughrabi, assumirá o relevo, lançando-se
numa operação de grande ousadia no interior do território israelita, na estrada
costeira que liga Telavive a Yafa, a cidade natal do seu pai. Nascida no campo
de refugiados palestinianos de Sabra, um campo a sudeste de Beirute, cuja
população seria massacrada pelas milícias falangistas sob a benevolência dos
israelitas quatro anos mais tarde, em 1982, Dalal Moughrabi propôs-se a atacar
a sede do Ministério da Defesa israelita em Telavive, em protesto contra as
negociações que decorriam na altura entre o presidente egípcio Anwar Sadat e o
primeiro-ministro israelita Menachem Begin, que viriam a resultar no tratado de
paz de 1979. Descoberta durante o trajecto, Dalal Moughrabi utilizou a sua
metralhadora, matando 38 pessoas, incluindo 13 crianças.
Morta
durante o ataque, o seu corpo foi devolvido ao Líbano durante uma troca de
prisioneiros entre Israel e o Hezbollah, em 2007, 29 anos após a sua morte.
Promovida a ícone revolucionária, uma praça em Ramallah, sede da Autoridade
Palestiniana, foi-lhe dedicada e agora leva o seu nome.
Quanto à
pioneira nesta área, Leila Khaled, longe de viver da sua notoriedade, assumiu
desde então, com a maior discrição, as suas funções de representante do povo
palestiniano no Conselho Nacional Palestiniano, o parlamento palestiniano no
exílio.
Fugindo dos
holofotes da celebridade, Leila Khaled integrou o Conselho Nacional
Palestiniano, o parlamento no exílio, casou-se e constituiu família. Mas, na
perfeita encarnação de uma revolucionária integral, recusou uma oferta fabulosa
de uma agência de fotojornalismo, que lhe propunha a quantia de 500 000 dólares
para posar para uma fotografia com o seu vestido de noiva.
A sua única
aparição pública desde então foi a visita que fez ao sul do Líbano, na região
fronteiriça entre Israel e o Líbano, na companhia de outra ícone
revolucionária, a argelina Djamila Bouhired, no campo de batalha onde o
Hezbollah libanês derrotou, em 2006, o seu inimigo comum, Israel.
A perda do
santuário de Beirute, em 1982, levou os palestinianos a um novo êxodo para a
Tunísia, a milhares de quilómetros do campo de batalha. E a uma nova dispersão.
Se Bassam Abou
Charif, porta-voz da FPLP, tenente de Georges Habache, se juntou ao líder da
OLP Yasser Arafat, líder da Fatah em Tunes, o líder da FPLP recusou-se a tal
transferência.
Ele
regressou à Jordânia, uma vez que o reino constituía uma parte do território da
Palestina, da qual a Transjordânia foi separada pelos ingleses da Cisjordânia
para formar o Emirado da Transjordânia, prelúdio da fundação do Reino Hachemita
da Jordânia; Em seguida, devido ao facto de a sua capital, Amã, cidade de
refúgio do líder palestiniano, constituir «a cidade mais próxima da Palestina
pela sua composição demográfica», segundo a sua expressão.
Por reacção
psico-somática, ele sofrerá de hemiplegia com a implosão da União Soviética, a
grande aliada dos árabes no auge da Guerra Fria entre a União Soviética e os
Estados Unidos e a entrada em cena dos grupos neo-islâmicos, braço armado da
estratégia islâmico-atlantista na região, da guerra do Afeganistão à Bósnia, da
Chechénia à Líbia e, finalmente, à Síria.
Figura lendária da luta palestiniana e da luta nacional árabe, Georges Habache morreu de ataque cardíaco em 26 de Janeiro de 2008, aos 82 anos.
Quatro dos principais protagonistas deste drama – o rei Faysal da Arábia Saudita, o primeiro-ministro israelita Itzhack Rabin, o primeiro-ministro da Jordânia Wasfi Tall e o presidente Anwar Sadat –, todos aliados de primeiro plano dos Estados Unidos, dos quais dois prémio Nobel da Paz (Rabin e Sadat) foram assassinados, enquanto a República Islâmica do Irão se transformava no líder da luta pela libertação da Palestina e do Médio Oriente do domínio israelo-americano.
Naquela época, morrer pela Palestina fazia sentido. A
subserviência colectiva da monarquia a Israel, um contrasenso. Uma traição
indelével.
René Naba
Jornalista-escritor, ex-chefe do mundo árabe e muçulmano no serviço
diplomático da AFP, depois assessor do director-geral da RMC Médio Oriente,
chefe de informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de
Direitos Humanos e da Associação de Amizade Euro-Árabe. De 1969 a 1979, foi
correspondente rotativo no escritório regional da Agence France-Presse (AFP) em
Beirute, onde cobriu a guerra civil jordaniano-palestiniana, o "Setembro
Negro" de 1970, a nacionalização de instalações petrolíferas no Iraque e
na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de Estado e sequestros de aviões, bem como
a Guerra do Líbano (1975-1990) a 3ª guerra árabe-israelita de Outubro de 1973,
as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas na Mena House Cairo (1979).
De 1979 a 1989, foi responsável pelo mundo árabe-muçulmano no serviço
diplomático da AFP, depois assessor do director-geral da RMC Médio Oriente,
encarregado da informação, de 1989 a 1995. Autor de "Arábia Saudita, um
reino das trevas" (Golias), "De Bougnoule a selvagem, uma viagem ao
imaginário francês" (Harmattan), "Hariri, de pai para filho,
empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes
e a maldição de Camp David" (Bachari), "Media e democracia, a captura
do imaginário, um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, ele é
membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos (SIHR),
com sede em Genebra. Ele também é vice-presidente do Centro Internacional
Contra o Terrorismo (ICALT), Genebra; Presidente da instituição de caridade
LINA, que opera nos bairros do norte de Marselha, e Presidente Honorário do
'Car tu y es libre', (Bairro Livre), trabalhando para a promoção social e
política das áreas periurbanas do departamento de Bouches du Rhône, no sul da
França. Desde 2014, é consultor do Instituto Internacional para a Paz, Justiça
e Direitos Humanos (IIPJDH), com sede em Genebra. Desde 1 de setembro de 2014,
é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info e
apresentador de uma coluna semanal na Radio Galère (Marselha), às
quintas-feiras, das 16h às 18h.
Fonte: Georges
Habache, figure de légende du combat national palestinien 1/2 - Madaniya
Este artigo
foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

Sem comentários:
Enviar um comentário