Georges
Habache, figura lendária da luta nacional palestiniana 2/2
René Naba / 23 DE JANEIRO DE 2021
EM Portrait
Última actualização em 17 de Fevereiro
de 2021
A tentativa perniciosa do Catar de se
apropriar do património intelectual e moral do líder palestiniano.
Max Abrams, «Terrorismo»: Actores não
estatais que utilizam a violência contra civis para fins políticos e que não
são apoiados pelos Estados Unidos», Max Abrams, académico americano, professor
especialista em terrorismo. Tal definição exclui os talibãs e a Al Qaeda na sua
versão afegã anti-soviética, bem como a «Vetted Syrian Opposition-VSO», ou
seja, a oposição síria aprovada pela NATO.
1 – Georges Habache e Wadih Haddad,
gémeos. O testemunho de Bassam Abou Charif
A relação entre Georges Habache e Wadih
Haddad baseava-se numa grande convergência intelectual, ao ponto de os dois
líderes da FPLP funcionarem de forma perfeitamente sincronizada, numa divisão
de tarefas perfeita.
Georges Habache actuava como o «Grande
Manitou», definindo as grandes orientações, e Wadih Haddad assumia as funções
de chefe do estado-maior operacional, responsável pelo planeamento das
operações, recrutamento dos comandos, seu treino, supervisão, armamento,
escolha dos objectivos e transporte do comando até ao seu alvo.
Wadih Haddad é considerado o mentor do ataque
ao aeroporto de Lod Telavive, pelo Exército Vermelho Japonês. Os dois homens
estavam convencidos da necessidade imperiosa de recorrer à luta armada para
libertar a Palestina e o mundo árabe do domínio colonial ocidental. Além do sul
do Iémen e do Dhofar (Sultanato de Omã), Bassam Abou Chérif, seu fiel tenente,
precisa que o Movimento Nacionalista Árabe (MNA), assim como o seu rival
ideológico pan-árabe, o Partido Baath da Síria, se comprometeram ao lado da FLN
argelina na sua guerra de independência contra o colonialismo francês e no
golpe de Estado anti-monárquico no Iraque liderado pelo general Abdel Karim
Kassem, em 1958.
Após a derrota de 1967 e em concertação
com o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, foi tomada a decisão de iniciar
uma luta armada total em apoio à guerra de desgaste travada na frente de Suez,
com o objectivo de recuperar o Sinai e outros territórios árabes ocupados
(Jerusalém Oriental, Cisjordânia, planalto sírio de Golã). Wadih Haddad passou
muitas semanas a viajar entre o Cairo e Damasco para a formação de quadros e a
transferência de armas.
A coordenação entre a FPLP e o Egipto
era assegurada conjuntamente pelo comando do exército e pelos serviços de
inteligência egípcios, alguns dos quais não nutriam grande simpatia pela FPLP.
Isso deu origem a incidentes repetitivos
que eram sempre resolvidos ao mais alto nível, em reuniões entre Nasser e
Habache, por quem o presidente egípcio nutria um grande respeito.
Um dos grandes confrontos ocorreu
aquando da publicação do «relatório de Agosto» de 1968, que antecedeu a cisão
da FDLP sob a liderança de Nayef Hawatmeh. O autor do relatório, um futuro
dissidente, desqualificou os «regimes nacionais» (Egipto, Síria, Iraque, Líbia,
Argélia) do carácter revolucionário, colocando-os fora do campo revolucionário.
Esta passagem provocou a ira de Nasser, levando-o a romper toda a colaboração
do Egipto com a FPLP. Simultaneamente, os serviços secretos sírios procederam à
detenção de Georges Habache, que acusavam de fomentar um golpe de Estado contra
a Síria. O interrogatório do líder palestiniano foi confiado ao chefe dos
serviços secretos sírios, Abdel Karim Al Joundi, que mais tarde se suicidaria.
Durante esta sequência, que culminou em
1969 com a dissidência de Nayef Hawatmeh e a formação de uma organização rival,
a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), Wadih Haddad
refugiou-se em Amã, vivendo numa modesta habitação no campo de Wahadate,
escondendo o rosto sob uma barba espessa, trabalhando incansavelmente na
elaboração de um plano para libertar o seu alter ego das prisões sírias.
Wahadate, um campo palestiniano nos subúrbios de Amã, foi construído pela
UNRWA, (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina)
com o objectivo de realojar os palestinianos do campo de Loueibda, situado na
encosta de uma colina de Amã, onde deveria ser construída a embaixada dos
Estados Unidos na Jordânia, perto dos palácios reais. Wahadate deve o seu nome
às unidades habitacionais que constituíam esse campo. Seria o bairro da FPLP
durante o triplo sequestro de aviões em 1970, conhecido como «Revolução do
Aeroporto de Zarka».
Na sua modesta habitação, sumariamente
mobilada – um colchão, um cobertor, uma pequena mesa de trabalho em madeira,
uma cadeira –, Wadih Haddad convocava individualmente os membros do comando que
tinha seleccionado, atribuindo a cada um uma missão precisa, para a libertação
do seu alter ego, cujo cativeiro na Síria vivia como uma amputação de si mesmo.
Como mensageiras de Georges Habache, ele escolheu duas senhoras do círculo
familiar do líder palestiniano, encarregando-as de uma mensagem enigmática para
o prisioneiro, cujo significado elas desconheciam, mas que não escapava ao
prisioneiro. Para não levantar suspeitas, o dia escolhido para esta missão foi
aquele marcado para as visitas familiares, de modo que a entrevista decorreu
sob a supervisão dos serviços sírios.
Para o seu interrogatório, Georges
Habache deslocava-se num comboio militar composto por três veículos, o seu
próprio e dois carros de acompanhamento, que o levavam da prisão Cheikh Hussein
para o quartel-general dos serviços sírios. Quando regressava à prisão, o seu
comboio foi interceptado por um veículo da Polícia Militar síria. Aterrorizado,
o motorista levantou os braços e anunciou em voz alta a sua missão: «transporte
de um prisioneiro político a caminho da prisão». O chefe do comando, Abou
Tala'at, membro da FPLP, disfarçado de militar sírio, ordenou-lhe que se
calasse, tirando Georges Habache da sua carrinha, enquanto os outros membros do
seu comando apontavam as suas armas contra o resto do comboio sírio.
O motorista Abou Daoud Ali Talha
arrancou então a toda a velocidade em direção à fronteira libanesa. Ao chegar
perto do posto fronteiriço libanês, ele desviou para uma estrada secundária por
onde transitavam fedayin e armas para o sul do Líbano, antes de seguir em direcção
a Beirute.
Na capital libanesa, Georges Habache
seria hóspede do seu antigo camarada da Universidade Americana, Najib Abou
Haidar, futuro ministro da Educação durante o mandato do presidente Soleimane
Frangieh.
Nasser, informado de todos os detalhes
da fuga, deu instruções ao embaixador do Egipto no Líbano para garantir a
chegada do líder palestiniano ao Cairo o mais rápido possível.
O chefe dos serviços de inteligência
sírios, Abdel Karim Al Joundi, enviou várias patrulhas para a Bekaa, planície
central do Líbano, em busca do fugitivo. Uma das patrulhas sírias foi
interceptada pela FPLP, que entregou ao motorista uma mensagem de Wadih Haddad
para o seu superior, com ameaças de morte contra ele, caso não cessasse a
perseguição. Como punição pelo seu fracasso, Abdel Karim Al Joundi suicidou-se
após a fuga de Georges Habache.
Estratega excepcional, Wadih Haddad
passou a maior parte da sua vida militante na mais total clandestinidade,
deslocando-se entre Beirute, o Cairo e, após a morte de Nasser, Bagdade, as
capitais dos países do antigo Pacto de Varsóvia, abstendo-se de fazer qualquer
declaração ou aparição pública. O homem que manteve o mundo ocidental e muitos
países árabes em suspense durante duas décadas faleceu em Berlim Oriental a 28
de Março de 1978, vítima de leucemia.
A colocação sob tutela israelita da
Autoridade Palestiniana em Ramallah e a transformação da Cisjordânia num vasto
campo de concentração a céu aberto justificam a posteriori a posição
intransigente da dupla Georges Habache-Wadih Haddad sobre a ardente obrigação
de uma guerrilha levar a cabo a sua luta armada até à concretização dos seus
objectivos estratégicos.
·
Para ir mais longe sobre este tema, cf este link
·
Aqui para o falante árabe o testemunho integral de Bassam Abou Chérif publicado no Ar
Rai Al Yom Domingo 28 de Julho de 2019.
2 – Azmi Bishara, o desertor comunista
palestiniano, o homem das altas e baixas obras do Qatar e a sua tentativa de roubar
o património intelectual de Georges Habache.
Crésus dos tempos modernos (Creso foi o último rei da Lídia, da dinastia Mermnada, filho
e sucessor de Alíates que morreu em 560 a.C. e submeteu as principais cidades
da Anatólia. Wikipédia), o Catar não tem um
passado histórico glorioso. Protegido por duas bases estrangeiras, uma
americana para o proteger contra o Irão e outra turca para o proteger contra a
Arábia Saudita, este minúsculo Estado petrolífero passou do protectorado
britânico para a tutela americana, sem qualquer margem de liberdade.
Distinguiu-se durante a sequência conhecida como «Primavera Árabe» (2011-2020)
ao lançar as suas hordas de mercenários terroristas islâmicos, sob a supervisão
da Irmandade Muçulmana, ao assalto dos regimes árabes de tipo republicano, a
Líbia e a Síria, desestabilizando através da Ansar Eddine, o Mali, um dos mais
antigos aliados da França, parceiro do Qatar nesta louca aventura destrutiva.
Para manter as aparências, gabando-se
das suas belas letras, o Qatar acariciou o projecto de se apoderar, à maneira
dos piratas da Costa dos Piratas, da qual foi membro durante muito tempo, do
património intelectual do mais prestigiado líder palestiniano. Confia esta
tarefa a Azmi Bishara, o homem das altas e baixas obras deste principado.
Membro do Partido Comunista
Árabe-Israelita, este antigo membro do Knesset, o parlamento israelita, passará
para os anais da política árabe como um dos mais famosos transfugas políticos
do círculo progressista árabe, ao mesmo nível do vice-presidente sírio, o
baathista Abdel Halim Khaddam, do chefe feudal druso do Partido Socialista
Libanês, Walid Joumblatt, e o líder da oposição democrática tunisina Mouncef Marzouki.
À maneira de um roubo, a operação será
realizada em duas etapas: O Qatar, através do seu homem de confiança, tomará
posse do prestigiado jornal «Al Qods Al Arabi», então propriedade do influente
jornalista árabe Abdel Bari Atwane, um palestiniano compatriota de Azmi
Bishara.
Em seguida, numa operação indirecta de
desestabilização, este jornal, agora dirigido por San'a Alloul, antiga
colaboradora mais próxima de Abdel Bari Atwane, palestiniana como os outros
dois protagonistas deste lamentável caso, divulgou uma informação atribuída à
Sra. Hilda Habache, segundo a qual a viúva de Georges Habache estaria
insatisfeita com a gestão do «Centro de Estudos Árabes», acusando esta
instituição e o seu director Saïf Dah'ia de piratear as memórias do líder da
FPLP. Uma tentativa evidente de prejudicar a reputação tanto do centro como do
seu director.
Azmi Bishara tinha tentado anteriormente
chegar a um acordo com a Sra. Habache, prometendo-lhe uma subvenção financeira
subordinada a uma alteração do organograma da direcção da instituição e ao
posicionamento do centro a favor do Qatar no seu conflito com a Arábia Saudita
e os Emirados Árabes Unidos.
O homem do Qatar propôs-se restabelecer
nas suas funções o antigo director do centro, Kheireddine Hassib, um antigo
dirigente baathista iraquiano e antigo governador do Banco Central do Iraque. A
operação fracassou.
Desapontado, Azmi Bishara decidiu
construir no Qatar um «Centro de Doha para a Definição de Políticas», cujo objectivo
era atrair intelectuais e investigadores do mundo árabe com salários atractivos,
a fim de eliminar a concorrência.
Sem se deixar desencorajar pelos
repetidos fracassos, Azmi Bishara fundou em Paris, em 2019, o CAREP, Centro
Árabe de Estudos e Pesquisas Políticas de Paris, cujo mais recente colóquio, em
28 de Novembro de 2019, teve como tema: «Democracias em formação? Os países
árabes como laboratórios de novas transformações».
Com o seguinte comité científico: Azmi
Bishara, Henry Laurens, o inevitável François Burgat, orientador da tese de
doutoramento do qatarólogo Nabil Ennasri, conhecido pela sua tese sobre o Mufti
da OTAN, o bilionário egípcio-qatariano Youssef Qaradawi, que ficará na
história por ter implorado à OTAN para bombardear a Síria, numa trágica
ilustração da sua extrema servilidade em relação aos seus antigos
colonizadores. «Democracias em formação»? Não é evidente, enquanto existirem
palhaços do calibre de Azmi Bishara e do seu alter ego com o ego tão alterado
François Burgat, a arma de destruição maciça da credibilidade da islamologia
francesa.
Uma questão fundamental permanece. Como
explicar que um comunista palestiniano aceite servir de conselheiro ao príncipe
de um país, o Qatar, padrinho dos Irmãos Muçulmanos, os coveiros da causa
palestiniana. Ah, os efeitos corrosivos do dólar. E, neste caso específico, dos
petrodólares.
• Para saber mais sobre Azmi
Bishara, líder da contestação árabe contra a grande impostura dos democratas
árabes https://www.madaniya.info/2019/02/22/de-la-regression-de-lidee-de-la-democratie-dans-le-monde-arabe-huit-ans-apres-le-printemps-arabe/
·
Para ir mais longe a propósito François Burgat;
Para o falante de árabe, a narrativa desta tentativa de Holp up, com
documentos que apoiam o modo de operação de Azmi Bishara. Azmi Bishara tenta
pilhar a herança de Georges Habache ao esforçar-se por colocar as mãos no
prestigiado Centro de Estudos Árabes (Ma’had ad Dirassat al Arabiya) – Al Akhbar 2ª feira 8 de Julho de 2019
Ilustração : https://www.deviantart.com/marcospal/art/Wadie-Haddad-136587252
René Naba
Jornalista-escritor, ex-chefe do
mundo árabe e muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois assessor do
director-geral da RMC Médio Oriente, chefe de informação, membro do grupo
consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação de Amizade
Euro-Árabe. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no escritório regional
da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil
jordaniano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização
de instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de
Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a 3ª
guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz
egípcio-israelitas na Mena House Cairo (1979). De 1979 a 1989, foi responsável
pelo mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois assessor do
director-geral da RMC Médio Oriente, encarregado da informação, de 1989 a 1995.
Autor de "Arábia Saudita, um reino das trevas" (Golias), "De
Bougnoule a selvagem, uma viagem ao imaginário francês" (Harmattan),
"Hariri, de pai para filho, empresários, primeiros-ministros"
(Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David"
(Bachari), "Media e democracia, a captura do imaginário, um desafio do
século XXI" (Golias). Desde 2013, ele é membro do grupo consultivo do
Instituto Escandinavo de Direitos Humanos (SIHR), com sede em Genebra. Ele
também é vice-presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT),
Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que opera nos bairros do
norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre', (Bairro
Livre), trabalhando para a promoção social e política das áreas periurbanas do
departamento de Bouches du Rhône, no sul da França. Desde 2014, é consultor do
Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos Humanos (IIPJDH), com
sede em Genebra. Desde 1 de setembro de 2014, é responsável pela coordenação
editorial do site https://www.madaniya.info e
apresentador de uma coluna semanal na Radio Galère (Marselha), às
quintas-feiras, das 16h às 18h.
Fonte: Habache,
figure de légende du combat national palestinien 2/2 - Madaniya
Este
artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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