segunda-feira, 25 de maio de 2026

A corrida russo-chinesa para a multipolaridade – declaração conjunta de 20 de Maio de 2026 (Pepe Escobar)

 


A corrida russo-chinesa para a multipolaridade – declaração conjunta de 20 de Maio de 2026 (Pepe Escobar)

25 de Maio de 2026 Robert Bibeau



Por Pepe Escobar, 21 de maio de 2026

As Novas Rotas da Seda/BRI e os seus ramos, como a Rota Marítima do Norte/Rota da Seda do Ártico, continuam muito presentes.


Xangai – Está lançado!

A parceria estratégica russo-chinesa, os líderes do processo de integração eurasiática, os líderes das organizações multipolares BRICS e a OCS, endossaram oficialmente e reforçaram o ímpeto para a multipolaridade e um novo sistema de relações internacionais através de uma declaração estratégica conjunta, assinada, endossada e apresentada durante a visita do Presidente Putin à China na quarta-feira.

É um evento que ficará para os livros de história – em mais do que um sentido.

Tive o privilégio de acompanhar os debates em Pequim ao longo do dia no Aurora College, uma grande escola e universidade privada em Xangai, como parte de um convívio fabuloso de professores e alunos.

Isto deu-nos tempo suficiente para discutir as implicações de como as duas maiores potências eurasiáticas – e mundiais – estão a traçar um novo futuro geo-político para a maior parte da humanidade. As excepções serão os excepcionalistas, recalcitrantes e vassalos viciados em suicídios políticos em série.

Todos recordamos a visita do Presidente Xi à Rússia em 2023, onde, ao deixar o Kremlin ao lado de Putin, expressou de forma muito concisa o que tem vindo a desenvolver há algum tempo:

"Estamos actualmente a assistir a mudanças sem precedentes em 100 anos." Xi e Putin concordaram então que hoje, "somos nós que estamos a guiar estas mudanças juntos."

O resultado concreto é a Declaração Conjunta de Pequim, de grande precisão, redigida por inegáveis "civilizações antigas".

Vamos analisar alguns dos pontos altos desta declaração. Esta última não mede as palavras ou os conceitos quando se trata de oferecer uma alternativa séria ao contexto histórico unilateral actual – e em declínio.

Policentrismo:

"As tentativas de alguns Estados de gerir os assuntos mundiais por si próprios, impor os seus interesses a todo o mundo e limitar o desenvolvimento soberano de outros países no espírito da era colonial falharam." A Rússia e a China trabalharão para estabelecer um "estado de policentrismo a longo prazo".

A "lei da selva":

"As normas fundamentais universalmente reconhecidas do direito internacional e das relações internacionais são regularmente violadas (...) O perigo de uma divisão da comunidade internacional e do regresso à 'lei da selva' é muito real."

Um novo dispositivo de segurança:

"É necessário dar a devida atenção às legítimas preocupações de segurança de todos os países, dar prioridade à cooperação em matérias de segurança, rejeitar o confronto entre blocos e estratégias de soma zero, opor-se à expansão de alianças militares, guerras híbridas e guerras por procuração, e promover a criação de um aparelho de segurança mundial e regional modernizado, equilibrado, eficaz e sustentável (...) É inaceitável forçar os Estados soberanos a renunciar à sua neutralidade."

Isto é exactamente o que Moscovo propôs a Washington e à NATO em Dezembro de 2021: a indivisibilidade da segurança. A falta de resposta precipitou a operação militar especial na Ucrânia dois meses depois, quando Moscovo percebeu que o plano da NATO previa uma blitzkrieg no Donbass.

Hegemonia:

"A hegemonia no mundo é inaceitável e deve ser proibida. Nenhum Estado ou grupo de Estados deve controlar os assuntos internacionais, determinar o destino de outros países ou monopolizar oportunidades de desenvolvimento."

Governação mundial: este é o conceito querido ao Presidente Xi, totalmente definido na cimeira da OCS do ano passado em Tianjin:

"Em termos de governação mundial, que é uma ferramenta essencial para simplificar o sistema de relações internacionais, é necessário aderir aos princípios da igualdade soberana, do Estado de direito internacional, do multilateralismo, de uma abordagem centrada no ser humano e do foco nos resultados."

As Nações Unidas: é necessário

"fortalecer o papel do multilateralismo como principal ferramenta para enfrentar desafios mundiais complexos e multifacetados, e para evitar o enfraquecimento das Nações Unidas". Isto deveria conduzir à "reforma das Nações Unidas".

No entanto, todos sabem que isso nunca acontecerá sob a actual administração na Casa Branca.

Ponto 4 da declaração: a diversidade de civilizações e valores à escala mundial. Este pode ser o cerne da questão – enterrar inexoravelmente qualquer reivindicação de excepcionalismo:

"O sistema espiritual e moral de uma civilização não pode ser descrito como excepcional ou superior a outros. Todos os países devem promover uma visão de civilizações baseada na igualdade, na troca mútua de experiências e diálogo, e fortalecer o respeito mútuo, compreensão, confiança e intercâmbios entre diferentes nacionalidades e civilizações, promover o entendimento e a amizade mútuos entre os povos de todos os países, e proteger a diversidade de culturas e civilizações."


O advento da nova "nação indispensável"

A declaração russo-chinesa, por mais concisa que seja, oferece aquilo que equivale a uma esperança muito necessária para a humanidade mergulhar na matriz de um passado civilizacional e forjar um futuro promissor e mais igualitário.

Em todo o caso, trata-se de um mini-manifesto humanista que vai muito além do estabelecimento de uma nova estrutura de segurança e do estabelecimento de grandes mudanças no actual sistema de relações internacionais. A sua credibilidade é sustentada pelo apoio de duas grandes potências que também são civilizações estatais, totalmente soberanas e totalmente independentes.

Tenho chamado a este processo há algum tempo de "o século da Eurásia". Isto foi celebrado a 20 de Maio de 2026 em Pequim, como parte da visita oficial do Presidente Putin à China.

A escala, o alcance e a ambição da declaração conjunta ofuscam claramente outros aspectos da viagem de Putin a Pequim, embora sejam bastante relevantes por si só.

Começando pela consagração da nova "nação indispensável". Chega de excepcionalistas, e abram caminho para a China. A velha ordem está a ser derrubada – em tempo real. E sim, esta é a mudança mais decisiva no alinhamento das grandes potências desde o fim da Guerra Fria – com, como bónus, um Império do Caos que tem sido implacável a sancionar a Rússia para a empurrar para o "isolamento" e colapso económico, mas que inevitavelmente foi ultrapassado pela parceria estratégica russo-chinesa.

O tratado de boa vizinhança, com 25 anos de existência, entre a Rússia e a China, foi significativamente reforçado – com corredores energéticos estratégicos (o oleoduto Power of Siberia 2), coordenação militar muito próxima e um quadro civilizacional/ideológico comum.

Claro que não haverá fugas substanciais sobre o que Xi e Putin discutiram durante a sua pausa informal de duas horas para o chá. A guerra por procuração na Ucrânia e a guerra ilegal contra o Irão estavam certamente na agenda, com Putin sem dúvida a informar Xi sobre os possíveis próximos passos da Rússia numa confrontação cada vez mais directa e tóxica com a NATO, e os dois homens a avaliarem os aspectos técnicos do apoio russo-chinês ao Irão.

Em resumo, as Novas Rotas da Seda/BRI e as suas extensões, como a Rota Marítima do Norte/Rota da Seda do Ártico, são mais relevantes do que nunca, e a desdolarização da economia mundial – reflexo do equilíbrio comercial russo-chinês, que agora se realiza exclusivamente em yuan e rublos – está verdadeiramente em andamento.

Quanto aos países BRICS, desestabilizados internamente pelos Estados Unidos através da Índia e dos Emirados Árabes Unidos, podem acabar por sair do coma. Este processo terá de ser liderado por Lavrov e Wang Yi. E a direcção estratégica terá de mudar: os BRICS têm de desenvolver alguma coerência estratégica dentro da Maioria Global para que a transição para um mundo multipolar funcione verdadeiramente.

Depois vem o futuro promissor de Power of Siberia 2. A China pode até acabar por esquecer a sua obsessão pela "fuga de Malaca", eficaz desde o início dos anos 2000, e regressar à linha da frente com o falso bloqueio americano ao Estreito de Ormuz e aos portos iranianos.

Os líderes de Pequim sempre estiveram plenamente conscientes de que o bloqueio do Estreito de Malaca é parte integrante da estratégia dos EUA de contenção e sufocamento da China. Power of Siberia 2 oferece uma solução completamente independente do império talassocrático da pirataria, trazendo gás diretamente para a China a partir da Península de Yamal, através das Montanhas Altai e das estepes mongóis.

Entre tantas reviravoltas, foi acrescentado um toque agradável ao Grande Salão do Povo: uma exposição conjunta TASS-Xinhua, intitulada

"A amizade indestrutível das grandes nações, a parceria estratégica das grandes potências",

com 26 fotografias que traçam a amizade entre Putin e Xi ao longo dos anos, em várias cimeiras do G20, BRICS e OCS, no fórum "Um Cinturão, Uma Rota", no Dia da Vitória em Moscovo e nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Putin e Xi visitaram a exposição na companhia de dois guias muito especiais: Andrey Kondrashov, CEO da TASS, e Fu Hua, CEO da Xinhua.

Combinado com a cerimónia do chá, podemos falar de um apego humano profundo, um laço pessoal essencial para percorrer o longo e sinuoso caminho rumo a um futuro geo-político feito de serenidade e respeito mútuo.


Traduzido por Spirit of Free SpeechA nave espacial Rússia-China avança em direcção ao Planeta Multipolar, por Pepe Escobar – Análise de The Unz

 

 

Fonte: La course russo-chinoise vers la multipolarité – déclaration commune du 20 mai 2026 (Pepe Escobar) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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