Lenine -
Luxemburgo - Liebknecht (Bilan #39, 1937)
Consideramos particularmente útil
republicar este texto de 1937 da Fracção Italiana da Esquerda Comunista numa
altura em que tudo indica que o capitalismo procura arrastar a humanidade para
uma terceira guerra mundial imperialista. Repetimos continuamente: a chave da
situação histórica reside na capacidade do proletariado internacional como um
todo para desenvolver as suas lutas em massa perante os ataques do capital e
acabar por oferecer à humanidade a sua alternativa revolucionária. Mas também
sabemos que o resultado vitorioso – ou "eficaz", se preferir – para o
proletariado do drama histórico que se aproxima dependerá da capacidade das
minorias revolucionárias de fornecer as orientações e palavras de ordem
correspondentes e de constituir um partido comunista mundial suficientemente
armado e unido para liderar o proletariado nestes confrontos históricos. No
entanto, esta capacidade não cairá do céu, nem virá do mero
"recrutamento" de membros em si. Virá dos seus esforços e lutas
para "restabelecer os fios
da evolução histórica", como
diz Bilan, ou seja, da sua reapropriação histórica do programa comunista e do
legado da Esquerda Comunista, para que possam orientar-se o melhor possível
perante os furacões que se aproximam.
O curso acelerado e cada vez mais bárbaro
em direcção à guerra que estamos a viver conduz, quase mecanicamente, a novas
gerações de militantes em revolta para posições revolucionárias. No entanto,
muito frequentemente, estão impregnados da influência da ideologia burguesa e pequeno-burguesa,
que é frequentemente "esquerdista" ou anárquica e ainda mais perigosa
quando se agita com posturas aparentemente radicais e frases revolucionárias. Uma das suas funções é
precisamente dificultar e confundir o processo de reapropriação histórica para
os jovens e, infelizmente, também para os militantes não tão jovens. Entre as
muitas falsificações da ideologia de esquerda, e infelizmente também de ordem
conselhista, na história do movimento operário, aquela que opõe o maléfico
ditador Lenine à simpática democrata Rosa Luxemburgo é, sem dúvida, uma das
mais perigosas, nem que seja apenas porque toca praticamente todas as questões
de princípio e método. Estamos convencidos de que esta luta pela adopção mais
clara possível do programa do futuro partido e, portanto, por uma reorganização
eficaz, ou seja, baseada na unidade política e convicção dos membros do
partido, passa pelo reconhecimento da unidade fundamental de classe entre
Lenine, Luxemburgo e Liebknecht e as suas reivindicações históricas.
Lenine - Luxemburgo -
Liebknecht (Bilan #39, 1937)
Confrontar a realidade atual com o trabalho daqueles que foram nossos
mestres é restabelecer os fios da evolução histórica que os seus detractores,
aqueles que mumificaram os seus corpos e princípios, esperam ter quebrado para
sempre em nome da sobrevivência do mundo capitalista. Todos os anos, os
marxistas, os comunistas que mantinham a bandeira da revolução proletária contra
a crescente maré da contra-revolução centrista, comemoravam estes grandes
líderes, Lenine, Rosa e Liebknecht, com a preocupação constante de verificar os
seus próprios esforços, como continuadores históricos da época heroica em que
viveram.
Hoje, estamos mais do que nunca sozinhos neste trabalho de verificação e
estamos conscientes das pesadas responsabilidades que a nossa solidão no
caminho do marxismo nos confere.
Todo o trabalho de Lenine é contra a
Rússia Soviética do centrismo [1], contra os partidos comunistas, agentes da
burguesia. Todo o seu trabalho é a negação da carnificina imperialista de
Espanha e da União Sagrada anti-fascista que ali se realizou.
Lenine é a selecção de quadros – através da selecção extrema de noções
programáticas – com vista à formação de um 'partido de classe'. É a luta total
contra o oportunismo, a busca pelas formas mais acentuadas da luta de classes.
Lenine é também 'O Estado e a Revolução', que contém todos os ensinamentos
históricos sobre a natureza do Estado, as posições proletárias perante o Estado
durante a revolução. Lenine é o fundador da Terceira Internacional, aquela que,
em 1919-20, fez o velho mundo tremer e encheu todos os explorados de esperança.
Hoje, permanecemos fiéis à obra de Lenine, lutando no caminho que ele
traçou para nós para forjar partidos. É falso, completamente falso, afirmar que
o partido centralizado, rigorosamente seleccionado nos seus quadros e ideias,
contém a causa de uma degeneração inevitável, levando à ditadura 'sobre' o
proletariado. A centralização é o resultado da selecção extrema do partido e
indica o aperfeiçoamento do cérebro da classe. Quanto mais a evolução da luta
de classes confronta o proletariado com a necessidade de avançar as suas
posições, mais deve aperfeiçoar o órgão do seu pensamento: a colectividade que
o partido representa.
O partido degenera quando deixa de ser a expressão fiel da evolução do
proletariado, e este fenómeno de discrepância não é determinado pelo partido,
mas pela modificação das relações entre as classes. Quanto mais cedo estas
mudanças forem realizadas, mais cedo o partido de classe poderá ser purificado
e o proletariado poderá continuar a sua marcha em frente.
Se o partido bolchevique se tornou o que é hoje: uma arma de repressão
contra os operários revolucionários na Rússia, é precisamente porque a dimensão
dos problemas com que os bolcheviques se depararam, chamados a resolver pela
primeira vez o problema da gestão de um Estado proletário, os lançou num
impasse que, mais tarde, os afastaria do proletariado russo e internacional. O
que não se quer compreender é a contradição que existe entre a afirmação: 'sem
o partido bolchevique, a Revolução de Outubro teria sido impossível' e a
afirmação: 'as noções de Lenine sobre o partido conduzem inevitavelmente à
degeneração'. Será então necessário admitir Lenine até à revolução, e depois
revê-lo após esta, ou deve-se retirar da experiência russa os dados da gestão
do Estado proletário como um sector subordinado à luta e à evolução do
proletariado internacional? Com a concepção do partido tal como Lenine a
formulou realizada na Rússia (não como procedeu nos diferentes países após
1917) estamos e continuamos solidários e é ao seu desenvolvimento e aos
ensinamentos da Revolução russa que nos dedicámos.
Assim como Lenine, nos limites históricos da sua época, se ligou às formas
mais acentuadas da luta de classes, assim os marxistas do nosso tempo tinham o
dever não de repetir fórmulas ou um catecismo, mas de seguir a locomotiva da
história. Se, aparentemente, se pode encontrar uma oposição entre certas
posições de Lenine e as nossas, ela é apenas formal se se tiver em conta o desenvolvimento
histórico. Lenine podia ser a favor do direito de auto-determinação dos povos
(embora, neste ponto, Rosa visse mais correctamente do que ele), porque
acreditava que esta posição própria das revoluções burguesas ainda podia, em
alguns países, conciliar-se com a luta pela revolução proletária. Após a
experiência chinesa, o problema está fundamentalmente resolvido e continuamos
Lenine, rectificando à luz da experiência a sua experiência.
Lenine, pela sua obra e pela sua vida, encontra-se no extremo oposto da
'reconciliação dos franceses', do 'amor à pátria soviética', da defesa da
democracia, da S.D.N. (qualificada por ele de Sociedade dos Salteadores), e,
acima de tudo, já não tem nada em comum com um Estado operário que sufoca o
proletariado russo, massacra os seus melhores militantes, persegue os
internacionalistas, mas abençoa o Sr. Laval quando ele faz votar créditos
militares. Lenine já não tem nada a ver com partidos comunistas que passaram a
barricada, defendem 'a sua' pátria, 'as suas' colónias e fazem cantar o hino
dos exploradores aos explorados.
Se o centrismo possui a múmia de Lenine, herdamos a sua obra, o seu
pensamento e continuamos quando gritamos: operários, deixem os partidos
comunistas, traidores e patrioteiros'. Continuamos quando dizemos: 'nenhuma
defesa da U.R.S.S., carrasco do proletariado russo, instrumento do capitalismo
mundial na obra de repressão contra os operários. A U.R.S.S., tendo rompido com
o proletariado internacional para passar para o outro lado da barricada e
massacrado hoje a velha guarda bolchevique, o proletariado levanta aí a
bandeira da luta pela revolução a fim de destruir nos seus fundamentos a
ditadura centrista, expressão da vitória internacional do capitalismo.
E que não se cole Lenine, internacionalista e derrotista em 1914, à União
Sagrada anti-fascista de Espanha, ao intervencionismo até ao fim na guerra
imperialista. Lenine não era a favor da trégua na luta de classes durante a
guerra como o POUM e os anarquistas entrando no Estado capitalista catalão. Não
esperava ser expulso vergonhosamente dos ministérios para se lembrar de que
também é preciso lutar contra o Estado capitalista. Contra a corrente, defendia
a transformação da guerra imperialista em guerra civil, que para ele não era
senão a forma extrema que a luta de classes teria inevitavelmente de assumir
durante a guerra.
Mas ao lado desta brilhante figura do líder proletário estão igualmente as imponentes
figuras de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Produtos de uma luta
internacional contra o revisionismo e o oportunismo, expressão da vontade
revolucionária do proletariado alemão, pertencem-nos a nós e não àqueles que
querem fazer de Rosa a bandeira do anti-Lenine e do anti-partido; de
Liebknecht, a bandeira de um anti-militarismo que, de facto, se expressa pelo
voto a favor de créditos militares nos vários países 'democráticos'. Rosa
Luxemburgo não expressou uma concepção particular do partido, mas reagiu tanto
contra a concepção introduzida pelos oportunistas como contra a concepção
marxista de Lenine. A criação do partido espartaquista, pouco antes do fim da
guerra, permite-nos, no entanto, compreender que os acontecimentos empurraram
Rosa pelo caminho seguido pelos bolcheviques e que as suas concepções
anteriores foram apenas produto de uma não-maturação das condições históricas
da Alemanha para o surgimento de uma concepção cristalizada da natureza e do
papel do partido de vanguarda. A morte interrompeu o desenvolvimento do
pensamento de Rosa Luxemburgo, e é por isso que os oportunistas preferem
construir as suas especulações sujas sobre aspectos do pensamento da grande
militante que fazem parte de um passado para sempre desaparecido, quando é
apenas o futuro que a obra de Rosa contém que importa. Este destino, como prova
o discurso no Congresso dos espartaquistas, teria sido conforme ao caminho
seguido até aqui por Rosa, que se orientava para as posições e formas mais
acentuadas da luta de classes na Alemanha. É isso que explica a necessidade para
a burguesia de a fazer assassinar no momento da irrupção dos operários armados
na arena política. 'À morte a Spartakus', tal foi o grito do capitalismo diante
de um organismo dirigido por Rosa e Liebknecht, que hoje se quer fazer o
estandarte da democracia pura, os inimigos da ditadura do proletariado. Mas, da
mesma forma que Luxemburgo, Liebknecht não pode ser reivindicado por aqueles
que defendem a sua pátria imperialista, mobilizam os operários em torno de
posições chauvinistas, reconciliam as classes numa fraternal União Sagrada e
vão até ao fim na guerra capitalista de Espanha.
Cruel ironia das coisas ver ultra-nacionalistas adornarem-se de um homem
que lançou sozinho no Reichstag prussiano um NÃO que deveria fazê-lo conhecer
as masmorras, mas que deveria torná-lo o guia das massas na grande tempestade
imperialista de 1914. Aqueles mesmos que o celebram votam aos montes milhares
de milhões para a defesa nacional e limitam-se a pedir ao Senhor Daladier [2] para melhorar o menu dos soldados nas casernas.
Permanecemos, portanto, fiéis a Liebknecht ao lançar, sozinhos contra
todos, o seu NÃO simbólico numa época em que todos enviam os proletários para serem
massacrados em Espanha em nome do capitalismo. Mantemo-nos fiéis a ele ao
erguer a bandeira da transformação da guerra imperialista em guerra civil.
Hoje, Lenine, Luxemburg, Liebknecht encontram-se nas fracções da esquerda
comunista internacional que são os herdeiros legítimos, os seus continuadores e
a quem a história confiou a pesada tarefa de avançar, sempre avançar. Tal como
os seus mestres, os comunistas internacionalistas orientam-se para as posições
e formas de luta mais acentuadas que a evolução da luta de classes na fase de
decadência profunda do sistema capitalista exige. É neste sentido que eles
combateram e combaterão todas as tentativas de reduzir as suas posições e a sua
actividade ao catecismo retirado de Lenine ou de Rosa, pois é a forma de
falsificar a sua obra e usá-la não para a vitória, mas para a derrota
proletária. Os princípios que nos legaram e que são fruto da experiência
histórica permanecem a nossa herança, mas assim como a luta de classes não se
detém com a sua morte, o nosso trabalho ideológico e de elaboração programática
deve continuar progressivamente para preparar a classe operária para as horas
decisivas em que lançará o seu assalto revolucionário e estabelecerá as bases
de uma nova sociedade onde a obra daqueles que abriram o caminho para a
emancipação dos proletários não será mais mumificada, mas receberá finalmente o
seu verdadeiro significado.
Bilan n.º 39 - Janeiro-Fevereiro de
1937,
boletim teórico mensal da Fracção Italiana da Esquerda Comunista
Notas:
[1] . Por "centrismo", Bilan entende estalinismo. Se se puder
discutir após o festum a validade de considerar o estalinismo desde o final dos
anos 1920 até à guerra como "centrista", o elemento essencial é
novamente o método aqui utilizado. Para a Fracção de Esquerda do PC de Itália
até 1935, depois a Fracção Italiana da Esquerda Comunista, a degeneração da
Internacional foi um processo e, portanto, também o objectivo de uma luta
contra o oportunismo e o centrismo que permitiria tirar as lições da vaga
revolucionária de 1917-1923 e fornecer o quadro e as posições programáticas da
Esquerda Comunista de hoje e do partido de amanhã.
[2] . Ministro da Guerra em 1933-1934, depois de Junho
de 1936 até ao desastre do exército francês em Maio de 1940. Foi também Presidente
do Conselho – Primeiro-Ministro do governo francês de Abril de 1938 a Março de
1940.
Revolução ou Guerra 2014-2026
Fonte: Lénine - Luxemburg – Liebknecht (Bilan #39, 1937) - Révolution ou Guerre
Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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