quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ataque dos EUA à Venezuela: Algumas Reflexões Iniciais

 


Ataque dos EUA à Venezuela: Algumas Reflexões Iniciais

O artigo que se segue é adaptado de um artigo da  Battaglia Comunista  escrito pouco antes do ataque dos EUA à Venezuela, e desenvolvido pela Organização Comunista dos Operários à luz do ataque.

As acções do governo dos EUA contra a Venezuela nos últimos dias – ataques aéreos massivos que mataram pelo menos 40 pessoas, e o aparente rapto do Presidente Maduro por forças especiais dos EUA para um julgamento encenado em Nova Iorque – representam uma grande escalada de tensão na região e mais um sinal da propensão para a guerra generalizada em todo o mundo que tem sido evidente há vários anos. O Presidente Trump disse que os EUA irão ‘administrar’ a Venezuela para evitar que caia no caos e ameaçou a presidente interina Delcy Rodríguez caso ela não cumpra as exigências dos EUA. Mas será que uma guerra directa e aberta entre os EUA e a Venezuela está em perspectiva? Trump ordenará uma invasão terrestre?

A resposta, neste momento, é – provavelmente – não, mas o cálculo que os EUA estão a fazer não é menos perigoso. Trump certamente quer eliminar a figura indesejada de Maduro do Caribe e de toda a América do Sul, tanto por causa das simpatias estratégicas de Maduro para com a Rússia e a China (o governo venezuelano tinha pedido ajuda militar se fosse atacado), como porque a Venezuela teve a sorte de tirar proveito de enormes reservas de petróleo, cujo controlo seria economicamente e estrategicamente importante para os EUA. A Venezuela é também um componente importante num bloco de estados ‘anti-EUA’ na região, que inclui também Cuba. Mas uma invasão seria, neste momento, tacticamente contraproducente.

O cenário mais provável neste momento é depender das forças anti-Maduro dentro da Venezuela e entre os exilados, fomentando uma mudança política que seja mais favorável aos interesses dos EUA. Não está ainda claro se isto virá de dentro da própria clique governante de Maduro, ou será liderado por alguém como María Corina Machado. Trump declarou publicamente que esta última não tem apoio na Venezuela, mas, de facto, ele queria muito esse Prémio Nobel da Paz e é conhecido por não saber perder. Não está claro se ele está a falar por algo mais do que despeito contra a mulher que lhe tirou ‘o seu’ prémio. Talvez os EUA tenham sucesso desta vez, ao contrário do que aconteceu com Juan Guaidó, o antigo ‘reconhecido’ Presidente no Exílio em 2019, e possam colocar um candidato seguro e de direita no palácio presidencial.

Nem mesmo a alegada guerra às drogas (os EUA acusaram a Venezuela de ser crucial para a exportação de fentanil para os EUA) é suficiente para explicar o enorme destacamento de forças americanas nas águas do Caribe com os ataques a três petroleiros venezuelanos, talvez em águas internacionais, e a barcos que estariam, ainda alegadamente, a transportar a sua carga de drogas em direcção à costa dos EUA – uma campanha que nos últimos meses causou a morte de cerca de 100 pessoas, alegadamente mais uma vez, sem provas, pelo governo dos EUA como sendo traficantes de droga, mas que a Venezuela, a Colômbia e Trinidad afirmam serem pescadores.

Então, o que se está a passar? Se os EUA construíram massivamente as suas forças em torno da Venezuela, mas não planeiam invadir, para que é que serve tudo isto? A resposta mais provável é que a política de Trump adoptou deliberadamente uma postura agressiva para intimidar os aliados da Venezuela, grandes e pequenos, alguns dos quais, mesmo numa área que os EUA consideram como o seu quintal, estão a manobrar de uma forma pouco menos evidente do que os próprios EUA. No topo desta lista está a China, mas também a Rússia, e mais perto de casa, Cuba, que Trump já indicou estar na linha de fogo, e também a Colômbia, que Trump também acusa de ser cúmplice no comércio internacional de drogas.

Os factos mostram-nos como recentemente tanto o Presidente Putin como o Presidente Xi enviaram fundos substanciais a Cuba, com o risco de que estes, além de apoio económico, sejam o precursor de futuras bases militares. Não sabemos se os “bens” militares já chegaram, pois, naturalmente, não há notícias, mas a possibilidade não pode ser excluída. Está assim em jogo a abertura de outra frente imperialista de grande valor político, económico e estratégico. Um reposicionamento estratégico-militar como parte do cenário provável de um conflito cada vez mais generalizado.

 

A preparação para o ataque

Os EUA têm patrulhado as águas ao largo da costa da Venezuela com o que constitui a maior implantação de navios americanos no Caribe desde a crise dos mísseis em Cuba em 1962. Na quarta-feira, 10 de Dezembro de 2025, o petroleiro venezuelano Skipper foi atacado e apreendido por navios de guerra americanos ainda ao largo da costa da Venezuela. O sucesso desta operação militar pirata (pirata, porque foi claramente uma violação das leis internacionais e demonstrativa da hipocrisia da administração Trump, que condena outros líderes como criminosos enquanto actua como criminosos) foi anunciado pessoalmente por Trump, com todo o destaque propagandístico que a operação merecia, para colocar o regime de Maduro na Venezuela sob maior pressão. Ao mesmo tempo, a Procuradora-Geral dos EUA, Pam Bondi, divulgou toda a operação de ataque no X para dar o máximo de apoio possível à arrogância imperialista do seu Presidente. Bondi justificou a operação dizendo que o petroleiro estava sob sanções dos EUA há anos, pois estava envolvido numa alegada “rede de transporte de petróleo a apoiar [claramente, não especificadas] organizações terroristas estrangeiras”. Segundo Washington, o navio transportava petróleo da Venezuela e do Irão, e Trump especificou com orgulho que era o “maior petroleiro alguma vez apreendido”. Caracas denunciou a apreensão do petroleiro como um “roubo” e um “acto de pirataria internacional”, sublinhando que o verdadeiro alvo dos prolongados ataques dos EUA à Venezuela eram os seus recursos naturais, em particular o petróleo. Os EUA não necessitam particularmente do petróleo venezuelano, mas a China sim, e, em última análise, o controlo dos EUA é um movimento contra a China. Mais dois petroleiros foram apreendidos da mesma forma pirata nos dias seguintes à captura do Skipper, e na quarta-feira, 17 de Dezembro de 2025, os EUA anunciaram um “bloqueio” aos “petroleiros sancionados” que entram e saem da Venezuela.

Uma segunda desculpa para pressionar o governo de Maduro é a luta contra o tráfico de drogas que alegadamente tem início no país sul-americano, onde, segundo Trump, um chamado “Cartel de los Soles”, distribuidor daquele fentanil que poderia matar milhares de cidadãos norte-americanos, é controlado directamente pelo próprio Maduro. Para tal, o Presidente americano lançou uma operação terrestre nas costas da Venezuela com drones e homens treinados para o efeito. Numa conferência de imprensa durante a visita do Primeiro-Ministro israelita, em resposta a perguntas sobre se as forças militares dos EUA ou os serviços secretos estavam por detrás da operação, Trump afirmou (29 de Dezembro de 2025), “Não quero dizer isso... Sei exatamente quem foi, mas não quero dizer quem foi. Mas sabem, foi ao longo da costa.” Este grave incidente envolvendo um ataque a um terceiro país foi classificado como um “conflito armado não internacional”.

A partir destas premissas, o objectivo óbvio de Trump é desestabilizar o regime venezuelano e favorecer a ascensão de um governo mais pró-EUA. Tudo para tirar o máximo proveito dos seus recursos energéticos e eliminar do cenário internacional um concorrente petrolífero que, entre outras coisas, detém reservas equivalentes a 300 mil milhões de barris de petróleo e é o segundo maior fornecedor de energia para a China, depois da Rússia. Por fim, a capacidade dos EUA de atacar os seus vizinhos e sequestrar os seus líderes impunemente destina-se a intimidar quaisquer outras elites locais que estejam a pensar em aproximar-se demasiado da China ou da Rússia. Está, assim, em causa não apenas a guerra às drogas, usada como pretexto, mas a abertura de outra frente potencial imperialista com valor político, económico e estratégico. Trump está a abandonar a Europa ao seu destino, concentrando-se em recuperar terreno na América do Sul e a preparar-se para o desafio mais importante, o que envolve a China, Taiwan e o jogo económico e financeiro que Xi está a jogar contra ele.

Estes são jogos perigosos para a classe operária. As aventuras dos EUA no Caribe já estão a ser vistas por alguns na China como uma possível justificação para acções contra Taiwan. Se Trump pode atacar nações soberanas e sequestrar os seus líderes, justificando as suas acções com base na guerra às drogas, a China não estaria igualmente justificada em fazer o mesmo em Taiwan? Afinal, aos olhos de Xi, Taiwan é apenas uma província rebelde e não uma nação soberana, com problemas de corrupção próprios. Putin, sem dúvida, vê a hipocrisia da América ao atacar os seus vizinhos enquanto condena a invasão russa da Ucrânia e provavelmente fará grande uso propagandístico disso. A ordem internacional baseada em regras nunca foi muito mais do que um floreado, pois os Estados têm ignorado selectivamente as regras sempre que lhes convém, mas os EUA arrumarem o seu quintal desta forma é um sinal preocupante de que se estão a preparar para um conflito futuro. Estão a eliminar rivais menores na sua própria região como preparação para enfrentar rivais mundiais mais para a frente. É outro sinal de um mundo que avança rumo a um massacre generalizado.

Os internacionalistas e a Classe Operária

Só a classe operária está em posição de impedir isto, porque é a classe operária que, através do seu trabalho, mantém o sistema a funcionar. Só uma classe operária organizada para lutar pelos seus próprios interesses – que são, em última análise, os interesses da raça humana – pode acabar com o sistema de competição capitalista que nos arrasta para a guerra em nome dos lucros. Isto nunca poderá ser através do apoio a um Estado contra outro, a um bloco contra outro, a uma potência imperialista contra outra. O nosso inimigo é o nacionalismo, seja qual for a sua forma. A classe operária enfrentou décadas de recuo perante a austeridade capitalista, que intensificou a pobreza e a insegurança; Precisamos que se unam para resistir ao impulso para a guerra mundial. Embora não possamos esperar que isto aconteça da noite para o dia, a classe operária precisa de criar a sua própria organização internacional de revolucionários como uma ferramenta necessária da classe operária para combater o sistema predatório do capitalismo mundial que controla as nossas vidas e aproxima-nos cada vez mais do massacre mundial. Essa organização ainda não existe, e nós no ICT certamente não somos ela, embora esperemos ser um componente de tal organização no futuro, mas reconhecemos que há internacionalistas que se opõem à corrida para a guerra em termos semelhantes aos nossos. Estamos cientes das seguintes declarações internacionalistas na sequência dos acontecimentos recentes: 

Os ataques militares dos EUA na Venezuela são um passo adicional na tendência contínua para a guerra generalizada. A intervenção dos EUA deve ser analisada no contexto da competição pela hegemonia capitalista mundial entre os Estados Unidos e a China. Os ventos da guerra sopram na disputa entre uma potência em declínio e uma em ascensão.

O proletariado deve reafirmar o seu programa histórico perante esta situação: nenhum apoio a qualquer governo burguês, derrotismo revolucionário contra todos os blocos imperialistas.

Grupo Barbaria, tradução nossa, t.me

Com o Irão, e agora possivelmente Cuba, que depende do petróleo venezuelano na mira dos EUA, todos de interesse estratégico para a China, as linhas de falha da rivalidade capitalista mundial estão agora em chamas na América do Sul, bem como em África, Europa, Médio Oriente e noutras partes da Ásia.

O nosso papel como internacionalistas revolucionários deve ser denunciar cada lado ao serviço do seu respectivo Estado capitalista ou mestres faccionais e apelar a uma escalada da Guerra de Classes em casa para dificultar o Estado de guerra... Sem regresso à paz capitalista. Apenas uma pausa repressiva e um ataque de austeridade a preparar-se para o próximo conflito sangrento! Para resistência e escalada em todas as frentes. Guerra de classes contra guerra imperialista! Resistência e solidariedade da classe operária contra a brutalidade capitalista e estatal!

Network of Anarchist Internationalists, anarcomuk.uk

Os ataques do exército dos EUA na Venezuela são uma expressão do imperialismo... Do ponto de vista da classe operária e da perspectiva da emancipação internacional, o grito de batalha pela ‘soberania’ é um mito perigoso. A situação na Venezuela faz parte de um panorama mundial de confrontação de blocos e, como operários internacionalistas, temos de encontrar formas de não sermos esmagados no meio.

Actualmente, assistimos a uma corrida armamentista mundial, liderada pelos EUA… É claro que eles pagam por isso cortando o nosso rendimento e bem-estar, como a saúde e a educação. Todos os governos querem normalizar esta preparação para guerras futuras… Temos de recusar isso na nossa luta diária.

Temos de expandir gradualmente esta batalha pelo controlo ao nível social. Contra a guerra mundial, por um futuro livre e comunista.

Angry Workers of the World, angryworkers.org

Os ataques dos EUA à Venezuela em Janeiro e o rapto do seu presidente Maduro na noite de 3 de Janeiro marcam uma nova etapa na corrida para uma guerra imperialista generalizada. Para defender os seus interesses imperialistas ao nível exigido pela situação actual, a burguesia americana terá também de redobrar os seus ataques ao seu próprio proletariado. O mesmo é inevitavelmente verdade para outros rivais imperialistas. Têm de atacar a sua própria classe operária se quiserem ter sequer uma pequena participação à mesa. É uma corrida contra o tempo entre o capitalismo e o proletariado cada vez mais empobrecido. A primeira, numa situação desesperada, está a mergulhar-nos na guerra. Estes últimos têm de lidar com o agravamento das condições de vida e de trabalho devido a esta preparação geral para a guerra. Revolução proletária internacional ou guerra imperialista generalizada: esta é a alternativa que a humanidade enfrenta. A responsabilidade histórica do proletariado, uma classe que é simultaneamente explorada e revolucionária, assim como as das suas minorias comunistas, torna-se ainda mais urgente.

International Group of the Communist Left, igcl.org

Certamente existem outros. Neste momento, internacionalistas genuínos, qualquer que seja a sua tradição, podem unir-se e, com base em declarações revolucionárias derrotistas, engajar-se em diálogo e, sempre que possível, trabalhar juntos para dar impulso à resistência da classe operária mundial à guerra imperialista. Este internacionalismo não inclui os tradicionais apoiantes da esquerda capitalista do falso socialismo (incluindo o de Maduro e da chamada “Revolução Bolivariana”). O socialismo real só pode ser construído pelos próprios trabalhadores através da sua própria organização e não pela de uma nova forma de capitalismo controlado pelo estado. A nossa escolha histórica é entre a revolução da classe operária mundial ou mais massacres imperialistas.

Communist Workers' Organisation
6 de Janeiro de 2026

 

Fonte: US Attack on Venezuela: Some Initial Thoughts | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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