Notas sobre a
Invasão da Venezuela pelos Estados Unidos – Crítica Desapiedada
[Nota
do Crítica Desapiedada]: Divulgamos a segunda análise do Crítica Desapiedada*
publicada nesse Portal. Dessa vez, o foco foi a recente intervenção dos Estados
Unidos na Venezuela, registada no dia 03/01/2026, removendo o ex-presidente
Nicolás Maduro do poder.
Agradecemos imensamente ao Fernando Monteiro do Crítica Desapiedada que,
inicialmente, sugeriu a escrita do artigo sobre esse tema e desenvolveu a maior
parte do conteúdo. Além disso, agradecemos a leitura, análise crítica e
observações de algumas pessoas que contribuíram com observações importantes,
provocando-nos a aprimorar e reescrever diversas passagens do texto. No
entanto, o resultado final é da responsabilidade exclusiva do Crítica
Desapiedada.
—
Obs.: Uma versão em pdf do presente artigo pode ser consultada aqui.
* A primeira análise
pode ser conferida aqui.
O capitalismo cheira mal
Cheira mal
O capitalismo cheira mal
E todos
Sentem o cheiro
E todos tapam
O nariz
Em vez de abrir
E ver
De onde vem o fedor
Floh de
Cologne – Der Kapitalismus stinkt [O capitalismo fede]
No dia 3 de Janeiro de
2026, os Estados Unidos (EUA) realizaram ataques militares em território
venezuelano e, em seguida, capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores, levando-os
sob a justificativa de “cumprimento da lei” (acusação de
narcotráfico/narco-terrorismo etc.). A própria Casa Branca, porém, deixou
escapar o que de facto organiza a intervenção:
Trump afirmou que os EUA
pretendem “administrar”/“conduzir” a Venezuela por um período e explorar o seu
petróleo como eixo da estabilização e do “novo começo”.
Esse fato não é um
detalhe, trata-se da chave interpretativa dessa intervenção. Quando uma
potência imperialista entra, bombardeia, captura o chefe de Estado e anuncia
tutela política e pilhagem energética, não estamos diante de um mero episódio
policial de manchete diária. Estamos diante de uma intervenção militar aberta,
usando táctica de guerra, e a intervenção militar, no capitalismo, aparece como
estratégia de resolução acelerada de contradições que já não cabem na diplomacia
ou nos bloqueios económicos.
1) Anti-imperialismo não é “anti-EUA”: é
anti-capitalismo
Reduzir o
anti-imperialismo a uma simples posição “anti-EUA” é cair numa armadilha dupla.
Em primeiro lugar, porque o imperialismo não é uma disposição moral, cultural
ou psicológica de um Estado específico, mas uma forma histórica de competição
internacional entre países capitalistas, na qual Estados nacionais, capital e aparelhos
militares se articulam para assegurar mercados, rotas estratégicas, matérias-primas,
tecnologia, controlo monetário e domínio geo-político. O facto de os Estados
Unidos seguirem como polo central da violência internacional “legítima” não
elimina, nem relativiza, a existência de outros polos imperialistas já consolidados
e em consolidação, com as suas respectivas redes de poder, cadeias logísticas e
mecanismos financeiros que estruturam uma verdadeira cartografia armada da
apropriação da mais-valia.
Em segundo lugar, a
leitura “anti-EUA” costuma vir acompanhada de um pacote ideológico que opera
como mecanismo de ocultação das relações de classe. Categorias como “soberania
nacional”, “auto-determinação dos povos” e “defesa da democracia” são
mobilizadas de forma abstracta, deslocando o conflito do terreno material da
exploração para um plano moral e jurídico. Fala-se em nação para ocultar as
classes sociais; invoca-se o povo para dissolver o proletariado enquanto classe
historicamente revolucionária; exalta-se a democracia para naturalizar a forma
política do capital. Na prática, esse discurso resulta na defesa do capital
local (nacional), da sua subdivisão (estatal) e das suas fracções, como se a
burguesia mais fraca (“periférica”) fosse antídoto ao imperialismo, quando na
realidade constitui uma das suas engrenagens fundamentais.
A consequência é uma
inversão grotesca: sectores que se reivindicam revolucionários passam a
escolher entre “imperialismo bom” e “imperialismo mau”, como se a exploração
pudesse assumir carácter religioso quando conduzida por outra bandeira. O que
muda, nesse arranjo, não é o saque, mas apenas o administrador do saque.
Essa armadilha é ainda
mais profunda porque desloca o conflito das relações sociais de classe para o
campo da geo-política. Ao transformar o imperialismo em atributo específico da
política externa dos EUA, preserva-se intacta a lógica que o produz. O
capitalismo aparece como neutro, enquanto a violência surge como desvio
contingente. No entanto, é justamente a necessidade permanente de garantir
mercados, assegurar matérias-primas estratégicas, controlar fluxos financeiros
e disciplinar a força de trabalho que empurra os Estados capitalistas à
expansão, à guerra e à tutela de territórios. A violência não é excepção; ela é
um meio para regularizar a reprodução e redistribuição da mais-valia à escala
mundial.
Sob essa perspectiva, a
ascensão chinesa e a recomposição do poder russo não representam ruptura com o
imperialismo, mas uma redistribuição interna dos seus polos de dominação. Confundir
mudança de polo hegemónico com superação da lógica imperialista é um erro
recorrente. A expansão chinesa não se orienta por solidariedade “Sul-Sul”, mas
pela necessidade de garantir estabilidade para a sua acumulação, acesso à
energia, controlo de rotas e segurança das cadeias produtivas. Da mesma forma,
a actuação russa em seu entorno não se explica por “defesa cultural”, mas pela
disputa por sobrevivência enquanto potência regional no interior da
concorrência mundial. Troca-se o centro, preserva-se o mecanismo.
É nesse ponto que o
pacote ideológico reaparece com força total. “Soberania”, “auto-determinação” e
“democracia” tornam-se categorias mistificadoras quando dissociadas das
relações de classe. A “soberania” defendida é a do Estado enquanto aparelho do
capital, não a independência do proletariado sobre as condições da sua existência.
A “auto-determinação” evocada é a do Estado-nação abstracto, não a auto-determinação
do proletariado enquanto classe explorada, mas potencialmente revolucionária. A
“democracia” celebrada é a democracia burguesa, plenamente compatível com
exploração, alienação e repressão, desde que juridicamente administradas.
Assim, o discurso
anti-imperialista esvaziado passa a legitimar burguesias nacionais (frágeis),
Estados capitalistas e projetos autocráticos sob a retórica da resistência
externa. A classe operária é colocada diante de uma falsa escolha: submeter-se
ao imperialismo estrangeiro ou alinhar-se com o capital nacional. Em ambos os
casos, perde. O Estado capitalista mais fraco aparece como escudo, quando na
realidade actua como correia de transmissão da exploração, negociando a sua
posição subordinada com Washington, Pequim ou Moscovo.
Essa inversão desarma
politicamente o proletariado, pois desloca a sua luta contra o capital para
interesses geo-políticos. Passa-se a defender sanções “necessárias”, bombardeamentos
“progressistas” ou repressões “anti-imperialistas”, desde que executadas pelo
bloco considerado correcto. O resultado é um anti-imperialismo sem anti-capitalismo,
incapaz de romper com a lógica que produz tanto o imperialismo quanto as suas
guerras.
Um anti-imperialismo
consequente exige romper com essa armadilha e deve ser, antes de tudo, uma
posição anti-capitalista, revolucionária e internacionalista. Esta posição não
se define pela escolha entre blocos, mas pela independência de classe frente a
todos os Estados e capitais. O imperialismo estadunidense não deve deixar de
ser denunciado como política externa agressiva e projecto sistemático de
pilhagem, tutela e violência, orientado pela recomposição da sua hegemonia em
declínio.
Por outro lado, o anti-capitalismo
afirma-se concretamente somente ao opor-se aos demais polos imperialistas,
inclusive China e Rússia, e aos circuitos económicos, financeiros e militares
que os sustentam. A disputa entre blocos não é disputa por projetos
emancipatórios, mas concorrência pelo domínio da exploração da mais-valia à
escala mundial. Quando a crítica se limita a denunciar apenas um polo, ela
acaba naturalizando os demais e abrindo espaço para novas formas de aliança
entre os Estados. A multipolaridade, longe de significar justiça internacional,
tende a significar multiplicação de zonas de conflito e de alianças,
especialmente nos países capitalistas subordinados.
A posição anti-capitalista
exige também romper com a ilusão do “Estado periférico” (ou “dependente”, etc.)
como aparelho anti-imperialista. No caso venezuelano, a burguesia local e o seu
aparelho estatal, sob retórica bolivariana, foram apresentados como forças de
resistência ao imperialismo, operando uma possível mediação entre o capital e a
classe operária. A experiência recente revela essa contradição com nitidez. O
suposto discurso “revolucionário” tornou-se discurso governamental, o discurso
governamental passou a ser política de repressão às classes inferiores[1] e a repressão
em estratégia permanente de controlo social. A defesa acrítica desse “Estado
periférico” em nome da ilusória soberania nacional apenas muda o discurso, mas mantém-se
a lógica fundamental do capital: a instrumentalização da classe proletária ao
serviço da acumulação de capital.
Além disso, o caso
venezuelano expõe um problema mais amplo: a recusa de certos campos da “esquerda” (sectores
do bloco progressista) em sustentar uma posição de independência de classe em
contextos de disputa inter-imperialista e o consequente abandono dessa posição por parte de sectores
ambíguos (e frágeis) do bloco revolucionário. Quando a crítica se dissolve na
lógica do “mal menor”, perde-se de vista que, para o proletariado, não há mal
menor na escolha entre projectos de dominação. Há apenas formas distintas de
resistir à mesma miséria.
2) O que é o governo Maduro: neo-liberalismo
e aumento da militarização
A sucessão de governos “socialistas” [Chávez e Maduro] e s sua actual crise
só podem ser compreendidas levando-se em conta que o socialismo de que se fala
é, sem dúvida, um “socialismo” burguês. É a social-democracia a instaurar os
seus governos “operários”, reivindicando a soberania nacional, a defesa da
economia nacional, pretendendo governar para a classe que esmaga. Assim, com
estatizações, uma grande renda proveniente do petróleo, uma enorme burocracia,
muito nacionalismo e populismo, e pauladas e migalhas para a maioria do
proletariado, é gerada a revolução bolivariana, e a Venezuela constitui-se no
bastião do tão na moda Socialismo do Século XXI.
El Mito
de la Izquierda se cae de Maduro – Bolétin La Oveja Negra
O carácter imperialista
da intervenção estadunidense não converte, por inversão automática, o governo
Maduro em polo anti-imperialista. Essa lógica binária é uma das formas mais
eficazes de desarme da crítica materialista, pois força a escolha entre
aparelhos de dominação distintos, mas politicamente convergentes. No caso
venezuelano, tal armadilha impede a compreensão do essencial: a crise política
e financeira recente do país expressa a reorganização de um Estado rentista sob
as condições mundiais do regime de acumulação integral, e não uma experiência
de transição socialista bloqueada externamente.
A dependência extrema da
renda petrolífera não foi superada; foi administrada até ao seu limite. O
Estado venezuelano passou a operar através de novos arranjos político-militares
e empresariais, profundamente vulneráveis às oscilações do mercado mundial e às
disputas inter-imperialistas. A queda do preço do petróleo e as sanções
internacionais não explicam, por si só, a fragilidade do regime venezuelano;
elas aceleram e tornam visíveis contradições já existentes: fragilidade
produtiva, importação massiva de bens essenciais, corrupção sistémica e captura
do fundo público por redes político-militares.
Nesse contexto, a
contenção da luta de classes não se dá pela ampliação de direitos, mas pela
combinação de assistência focalizada, controle territorial e repressão.
Políticas sociais “populistas” são substituídas por mecanismos selectivos de
sobrevivência, por programas focalizados, emergenciais e condicionados,
orientados para a administração da escassez e para a manutenção mínima da
reprodução das condições de vida. Na Venezuela, essa dinâmica expressa-se de
forma exemplar nos Comités
Locales de Abastecimiento y Producción (CLAP) e no Carnet de la Patria, que passaram a
organizar o acesso a alimentos subsidiados e benefícios monetários num contexto
de colapso salarial e hiperinflação.
Longe de constituírem
políticas sociais universais, esses dispositivos operam de maneira
intermitente, territorialmente desigual e politicamente mediada, produzindo
dependência material contínua e convertendo a sobrevivência quotidiana em
estratégia de controlo estatal. Nesse mesmo movimento, a militarização do quotidiano
consolida-se como instrumento de governabilidade, seja pela participação directa
das forças armadas na gestão da distribuição de alimentos e da circulação de
mercadorias, seja pela ampliação do controlo territorial em bairros populares.
A repressão política, por sua vez, passa a ser justificada enquanto defesa
ilusória da “revolução” ou da “soberania nacional”, reclassificando
manifestações populares como ameaças políticas, e completando um quadro de
disciplinamento social no qual as classes inferiores são mantidas entre a
dependência material e o medo político.
A diáspora venezuelana é
expressão directa desse processo. Com cerca de 7,7 milhões de pessoas que
deixaram o país desde 2014, aproximadamente 20% da população, a migração em
massa indica os limites das condições de acumulação nesse território e do modo
como o capitalismo venezuelano se insere na divisão social do trabalho mundial.
Ela revela a dificuldade crescente do Estado de garantir condições mínimas de
reprodução da força de trabalho para parcelas crescentes da população. Não se
trata apenas de “fuga do bloqueio”, mas da desorganização profunda das
condições de existência: o salário perde sentido, o trabalho precariza-se e a
sobrevivência passa a depender de remessas, informalidade ou deslocamento
forçado.
Essa dinâmica indica a
incapacidade crescente do capital e do Estado venezuelano de garantir condições
mínimas de reprodução da força de trabalho, provocando a sua expulsão como
estratégia de sobrevivência para parcelas crescentes da população. A saída em
larga escala de trabalhadores não elimina a acumulação, mas reorganiza-a de
forma regressiva, reduzindo a base produtiva interna, aprofundando a
precarização do trabalho remanescente e reforçando a dependência de remessas,
informalidade e circuitos externos de reprodução social.
No plano político, o encerramento
institucional após 2017 não constitui episódio conjuntural, mas sinaliza a
consolidação de um arranjo autocrático de estabilização da reprodução das
relações capitalistas. A repressão a críticos, opositores e parcelas da
sociedade civil intensifica-se, impactando tanto sectores do bloco
progressista, quanto do bloco revolucionário, acompanhada pela deslegitimação
das instituições burguesas, que se tornam meras fachadas, como as eleições. A
defesa da “revolução” converte-se, progressivamente, no fortalecimento do aparelho
estatal e de fracções da classe dominante local.
É nesse quadro que o
chamado “Socialismo do Século XXI” se apresenta como ideologia de legitimação.
Prometeu “socialização”, mas manteve a propriedade privada na sua forma
estatal; prometeu poder popular, mas concentrou as decisões nas classes
superiores (burguesia e burocracia); prometeu ruptura, mas reorganizou a
exploração sob novas formas. A emergência da “boliburguesia” (os endinheirados
venezuelanos) não é desvio moral, mas consequência lógica de um projecto que
jamais rompeu com a centralidade do Estado como aparelho privado da acumulação
de capital. As classes inferiores pagam o custo desse arranjo por múltiplas
vias: inflação, precarização, repressão e migração forçada.
3) O que os EUA procuram na Venezuela:
petróleo, poder regional e demonstração de força
“O exército dos Estados Unidos é, de longe, o mais forte e feroz do
planeta, com capacidades e competências que os nossos inimigos mal conseguem
imaginar. Não há equipamento como o que temos.”
“A indústria petrolífera da Venezuela esteve em colapso durante muito tempo.
Eles produziam quase nada em comparação com o que poderiam ter produzido. As nossas
grandes empresas petrolíferas americanas irão investir milhares de milhões de
dólares para consertar a infraestrutura danificada e começar a gerar riqueza
para o país.”
Trechos da conferência de imprensa de Donald Trump após o ataque à Venezuela
(03/01/26)
O vínculo explícito
entre controle territorial e petróleo revela algo essencial: a intervenção não é resposta excepcional a um “desvio
autoritário”, mas continuidade de uma política de controlo energético e disciplinamento estatal.
Quando Trump fala em “controlo temporário” associado à exploração do petróleo, ele
apenas torna público aquilo que, durante anos, operou sob a forma técnica das sanções,
licenças e excepções jurídicas. O petróleo venezuelano não é apenas uma commodity; ele é instrumento -,
alavanca de pressão e elemento de barganha na disputa pela hegemonia energética
num contexto de reconfiguração mundial.
A política de sanções
imposta pelos EUA significa uma ofensiva de classe, conforme argumenta Jamie
Merchant. As sanções procuram favorecer os interesses da burguesia
transnacional estadunidense, orientada por uma estratégia mundial com o objectivo
de competir em condições mais favoráveis contra burguesias concorrentes e,
simultaneamente, impor os seus interesses contra os trabalhadores (de diversos
países), resultando em reacomodações favoráveis ao seu domínio.
Por meio da OFAC (Office of Foreign Assets Control – Escritório de
Controle de Ativos Estrangeiros), os EUA determinam quem pode produzir, vender,
transportar e receber o petróleo venezuelano, quando e em que condições. As
licenças concedidas ou retiradas ao longo dos últimos anos mostram que o objectivo
nunca foi “isolar” totalmente a Venezuela, mas submetê-la a um regime de
dependência administrada, no qual o Estado venezuelano só respira na medida em
que aceita negociar sob termos impostos. A intervenção militar surge, assim,
como radicalização de um controle que já era exercido por vias financeiras e
jurídicas.
Esse movimento ganha
sentido mais amplo quando se observa a posição geo-política da Venezuela. O
país ocupa uma posição estratégica no Caribe, articula-se com a Amazónia
setentrional e influencia directamente fluxos migratórios regionais. Além
disso, tornou-se, nas últimas décadas, um espaço de penetração económica e
diplomática de China e Rússia na América Latina. A intervenção, portanto, não
se dirige apenas a um governo específico, mas ao reposicionamento regional do
poder. É um recado inequívoco: a América Latina continua a ser tratada como
zona prioritária de dominação (estadunidense), onde desvios estratégicos
(alianças com a China, por exemplo) não são tolerados.
Nesse sentido, a
operação funciona como um recado regional. Ela ensina aos Estados nacionais da
região quais são os limites aceitáveis de autonomia e quais as alianças que serão
punidas. Mais do que derrubar um governo, trata-se de reafirmar a capacidade
dos EUA de intervir directamente, inclusive militarmente, num momento em que o
seu domínio é contestado noutras frentes do capitalismo mundial. A violência
não é apenas meio; ela é mensagem directa e efectiva.
O alegado “cinismo
jurídico” cumpre papel decisivo nesse processo. A tentativa de enquadrar a
intervenção como “operação de prisão” baseada em acusações criminais é exemplar
da instrumentalização do direito como retórica posterior à acção. O direito
internacional é cúmplice da intervenção; ele é convocado depois, de forma selectiva[2], para oferecer um
verniz de legalidade ao facto consumado. Quando especialistas apontam a
ausência de autorização do Congresso e a fragilidade jurídica do argumento, o
que se revela é a subordinação completa da legalidade à razão de Estado e aos
interesses do capital.
Essa lógica não é nova,
mas a sua explicitação é sintomática. Ela indica que, no actual estágio do
capitalismo, a distância entre força e norma se reduz. A legalidade deixa de
ser um limite e passa a ser um recurso discursivo, accionado conforme a
conveniência estratégica. A moralidade burguesa já não precisa sequer convencer
e deliberar plenamente; basta impor e, depois, justificar.
Por fim, esse quadro
reforça um ponto central: a intervenção não pode ser compreendida como resposta
pontual a Maduro, nem como cruzada moral contra um regime autocrático. Ela
expressa a resposta violenta da relativa perda de domínio estadunidense, num
cenário de competição acirrada com outros países imperialistas. O petróleo, o
território e a demonstração de força articulam-se como elementos de um mesmo
movimento: garantir que, apesar do declínio relativo, os EUA sigam definindo
quem governa, como governa e em benefício de quem se governa na região.
Para a classe operária
venezuelana, e latino-americana, isso significa apenas uma coisa: a
intensificação da instabilidade, da exploração e da militarização da vida
social. O discurso ideológico da “legalidade” e da “democracia” serve apenas para
camuflar o aspecto fundamental: trata-se de uma operação de poder, orientada
pelos interesses do capital, em que a violência é o argumento final.
4) O significado do imperialismo hoje:
conflitos regionais e concorrência pelo mercado mundial
A noção de guerra
generalizada não deve ser entendida como anúncio imediato de um conflito
mundial único e contínuo, como uma vindoura terceira guerra mundial, nos moldes
das duas grandes guerras do século XX. As guerras locais na contemporaneidade
assumem uma forma difusa, permanente e escalonada de conflitos bélicos que
poderão resultar na formação de dois grandes blocos imperialistas. O que se
generaliza não é necessariamente o teatro de operações à escala mundial, mas a
lógica da guerra local/regional e por procuração como estratégia regular de
redistribuição do poder. Trata-se de uma guerra fragmentada, distribuída em
múltiplos territórios, com intensidades variáveis, mas articulada por um mesmo
princípio: resolver, pela força, contradições que já não encontram solução
estável na economia ou na diplomacia.
A desaceleração relativa
da potência dominante não implica perda imediata de capacidade de destruição ou
de intervenção. Ao contrário, historicamente, momentos de declínio relativo
tendem a produzir respostas mais agressivas, pois a violência passa a funcionar
como instrumento de contenção da perda de domínio. A ascensão de novas
potências, por sua vez, não ocorre em terreno neutro, mas num mercado mundial
já hierarquizado, no qual cada avanço implica deslocamento de interesses
consolidados. A disputa entre blocos de Estados capitalistas, portanto, não é
apenas económica ou tecnológica; ela traduz-se em conflitos territoriais
concretos, onde se testam limites, alianças e capacidades militares.
A reorganização das
potências imperialistas, das cadeias mundiais e do controlo tecnológico
intensifica esse processo. O capitalismo depende de infraestruturas críticas
altamente concentradas: semi-condutores, energia, dados, logística, rotas
marítimas. A disputa por esses nós estratégicos transforma territórios inteiros
em activos geo-políticos. Guerras e intervenções deixam de ser apenas sobre
“fronteiras” e passam a ser sobre circuitos. Controlar um porto, uma rota
energética, um espaço aéreo ou um corredor logístico equivale a controlar
fluxos de valor à escala mundial.
A financeirização e o
endividamento completam esse quadro. A dívida funciona como instrumento de
comando indirecto, subordinando Estados e populações a agendas de ajuste,
privatização e abertura. Quando esse mecanismo entra em crise, seja por
insolvência, instabilidade política ou resistência social, a coerção tende a deslocar-se
do plano financeiro para o plano militar. A guerra aparece, então, como
continuação violenta da disciplina económica, garantindo, pela força, aquilo
que o crédito já não consegue impor.
Nesse contexto, as
guerras locais e regionais operam como laboratórios da dominação contemporânea.
Nelas se testam armas, doutrinas militares, formas de controlo da informação,
regimes de excepção, tecnologias de vigilância e modelos de reconstrução económica
pós-conflito. Ucrânia, Palestina, Sudão e Venezuela não são anomalias isoladas,
mas experiências concentradas de um processo mais amplo. Cada uma expressa, à
sua maneira, a mesma tendência: transformar crises políticas e sociais em
oportunidades de reposicionamento estratégico.
A linguagem ideológica
que acompanha esses conflitos cumpre função essencial. Termos como
“democracia”, “segurança” e “combate ao terrorismo” operam como dispositivos de
legitimação, capazes de mobilizar opinião pública, neutralizar críticas e
despolitizar a violência. Ao reduzir guerras a cruzadas morais, esconde-se a sua
finalidade material: controlo de energia, rotas comerciais, moedas, territórios
e populações. A moral serve para ocultar a economia da guerra.
Ler esses conflitos como
momentos de uma mesma tendência permite superar interpretações episódicas ou
moralistas. A guerra, no capitalismo contemporâneo, não é acidente nem
irracionalidade: ela é mecanismo de regulação destrutiva, capaz de reorganizar
hierarquias, eliminar excedentes, redefinir alianças e conquistar regiões
inteiras. O custo humano, mortes, deslocamentos, miséria, não é um efeito
colateral indesejado, mas parte constitutiva desse processo.
Por isso, insistir que a
guerra não é um desvio do capitalismo, mas uma das suas estratégias de
funcionamento, é recolocar a crítica no seu terreno correcto. Enquanto a
análise permanecer no plano das escolhas geo-políticas ou das intenções morais
dos Estados nacionais, perde-se de vista o essencial: é a própria lógica da
acumulação de capital que exige, periodicamente, a violência aberta.
5) O impacto imediato para a classe operária
venezuelana: entre o “salvador externo” e o “governante patriota”
A promessa de
“libertação” é um elemento fundamental da propaganda de guerra, não um excesso
retórico. Ela cumpre a função de converter violência em moral, destruição em
necessidade histórica e morte em sacrifício legítimo. Ao anunciar que a
intervenção visa libertar “um povo de um regime autoritário”, o imperialismo
desloca o foco da análise: a guerra deixa de ser lida como redistribuição de
poder e passa a ser apresentada como missão moral. No entanto, o descompasso
entre discurso e realidade é sistemático, porque a libertação proclamada nunca
se refere às condições materiais de vida da classe operária, mas à substituição
de um arranjo político por outro mais funcional aos interesses externos.
A insegurança material
ampliada é o primeiro e mais imediato efeito dessa operação. Guerras e
intervenções desorganizam cadeias de abastecimento, destroem infraestrutura,
encarecem bens básicos e corroem salários já fragilizados. A inflação de choque
não é um acidente: ela resulta da ruptura deliberada de fluxos económicos e da
especulação que acompanha qualquer cenário de instabilidade. Para as classes
inferiores, isso traduz-se em condições de vida degradantes, em que o quotidiano
é marcado pela incerteza permanente e pela necessidade de sobrevivência
imediata. A migração, longe de ser escolha, torna-se estratégia compulsória de
sobrevivência.
Ao mesmo tempo, a
intervenção externa reconfigura as disputas internas entre fracções da classe
dominante. A guerra não dissolve a burguesia local; ela reorganiza-a.
Militares, tecnocratas, empresários importadores, intermediários financeiros e
redes ilegais disputam posições dentro do novo arranjo de poder. Alguns perdem
acesso a recursos, outros fortalecem-se como mediadores entre o capital externo
e o Estado nacional. Essa recomposição interna é frequentemente apresentada
como “transição democrática” ou “reconstrução institucional”, mas o seu
conteúdo real é a rearticulação da classe dominante local e suas classes
auxiliares. O proletariado, novamente, não participa como classe independente:
participa apenas como força de trabalho explorada ou como massa descartável.
O recurso ao estado de
excepção completa esse quadro. Diante da intervenção, tanto o governo atacado
quanto os burocratas externos invocam a emergência como justificativa para
suspender direitos, restringir liberdades e intensificar o controlo social. No
caso venezuelano, a resposta estatal baseada em mobilização e emergência tende
historicamente a significar maior vigilância, repressão a dissensos e
enquadramento da classe operária sob a lógica da defesa nacional e ideologias
nacionalistas. A excepção torna-se regra, e a guerra funciona como acelerador
do reaccionarismo e mobilização de inimigos imaginários, independentemente de
quem detenha formalmente o poder.
A conversão da classe operária
em refém político é, talvez, o aspecto mais perverso desse processo. A
burguesia externa instrumentaliza o sofrimento da população empobrecida para
legitimar a sua intervenção, apresentando-se como salvadora humanitária. A
burguesia local, por sua vez, instrumentaliza o mesmo sofrimento para exigir
lealdade, sacrifício e silêncio em nome da pátria ameaçada. Em ambos os
discursos, a classe operária não aparece como classe independente, mas como
classe explorada e alienada. O seu sofrimento é mobilizado, mas as suas exigências
materiais são adiadas indefinidamente.
Essa dupla captura tem
um efeito político profundo: ela desorganiza a força política da classe. Ao ser
convocado a escolher entre o invasor e o governante, o proletariado vê a sua
própria luta suspensa em nome de uma urgência que nunca se encerra. O conflito
interno cria um tempo excepcional em que tudo pode ser adiado: reivindicações,
auto-organização e luta colectiva. O conflito externo passa a funcionar como
mecanismo de pacificação interna.
Desse modo, a
intervenção estadunidense possui como objectivo a reorganização do domínio
estatal e regional, e os efeitos materiais dessa reorganização recaem quase
integralmente sobre as classes inferiores. A guerra sempre redistribui custos e
benefícios de forma desigual: os custos são socializados entre trabalhadores e
desempregados; os benefícios são apropriados por Estados e capitais
reorganizados.
Em última instância, a
promessa de libertação funciona como ideologia compensatória. Ela oferece um
sentido moral para uma experiência material de perda, medo e destruição.
Desmascarar essa promessa significa recusar a ideia de que a violência estatal
possa ser caminho de emancipação.
6) Fecho provisório: o “vento de guerra”[3] como
estratégia de controlo social
A captura de Maduro e a
intervenção aberta não são apenas um “excesso” ou uma decisão conjuntural de
política externa; elas indicam uma inflexão qualitativa na forma como os
Estados Unidos lidam com a sua perda relativa de hegemonia. Quando os mecanismos
tradicionais de controlo, sanções, bloqueios financeiros, pressões
diplomáticas, mediações institucionais, deixam de produzir os efeitos
desejados, a força militar deixa de ser ameaça implícita e passa a ser
instrumento directo de dominação.
Esse movimento carrega
uma contradição central: ao recorrer à força aberta, os EUA reafirmam poder,
mas também exibem fragilidade estrutural. A intervenção militar funciona como
demonstração de capacidade, mas, ao mesmo tempo, como confissão de que a
hegemonia já não se sustenta apenas por regras jurídicas, instituições ou
mercado. Essa dinâmica tende a estimular respostas simétricas ou assimétricas
dos demais polos imperialistas, que passam a reforçar alianças, acelerar
processos de militarização e procurar zonas próprias de influência. O resultado
é a multiplicação de frentes de tensão, com conflitos localizados, guerras por
procuração e o aumento da instabilidade.
Nesse cenário, a
violência intensifica-se e passa a ser um fenómeno com maior regularidade na
vida das classes inferiores. A violência intensificada significa fronteiras
militarizadas, vigilância ampliada, estados de excepção normalizados e
precarização contínua do trabalho. Significa também deslocamentos humanos em
escala crescente, com milhões de pessoas convertidas em refugiados, migrantes
forçados ou populações “sob tutela”. A barbárie quotidiana apresenta-se como
erosão lenta e sistemática das condições de existência, legitimada por
discursos de segurança e emergência.
É justamente aí que
operam duas formas de chantagem. A primeira é a chantagem dos que defendem o
lado “imperialista”. Nessa perspectiva, o conjunto das classes inferiores é
convocado a celebrar o invasor como libertador, prometendo que a violência
externa abrirá caminho para democracia, prosperidade e direitos. Essa promessa
é falsa, porque a intervenção do invasor não visa emancipar, mas reorganizar a
exploração sob novas formas e novos mediadores. A libertação oferecida é sempre
condicional, selectiva e subordinada aos interesses do capital externo.
A segunda chantagem é
daqueles que defendem a perspectiva “nacionalista”, expressando os interesses
da classe dominante local (no caso, venezuelana). Para esses indivíduos, o
proletariado é obrigado a suspender as suas reivindicações de classe,
sacrificar a sua vida e aceitar a repressão em nome da defesa da pátria
ameaçada. Aqui, a exploração interna é naturalizada como preço inevitável da
soberania nacional. A burguesia local apresenta-se como guardiã da nação,
enquanto intensifica o controlo social, silencia dissensos e converte o
conflito bélico em instrumento de pacificação interna. O trabalhador comum é
convocado a morrer por uma classe capitalista que, em tempos “normais”, o
explora sem hesitação.
Essas duas chantagens alimentam-se
mutuamente. Quanto mais agressiva a intervenção externa, mais eficaz o discurso
nacionalista interno; quanto mais autocrático o Estado local, mais legitimada
aparece a retórica “libertadora” do imperialismo. O proletariado é esmagado
entre essas duas forças, sem representação própria, sem poder autónomo e sem
horizonte que não seja o da sobrevivência.
Nesse sentido, o anti-capitalismo
é expressão de uma posição estratégica diante do capitalismo contemporâneo e da
sua tendência para a guerra generalizada. Ele afirma que não há saída
emancipatória na escolha entre blocos e Estados nacionais, e que a única
perspectiva capaz de romper com a barbárie passa pelo ressurgimento da política
revolucionária do proletariado, contra todos os projectos de dominação, internos
e externos.
É aqui que a afirmação
“o principal inimigo está em casa” ganha conteúdo revolucionário. Não se trata
de um nacionalismo invertido, mas do reconhecimento de que a dominação se
organiza a partir das relações internas de classe. É a burguesia local, nas
suas fracções (bancária, industrial, bélica, etc.), que estrutura o trabalho
assalariado, apodera-se do lucro, distribuindo as suas migalhas, controla o
território e define as condições de reprodução das relações de classe. O
imperialismo externo não age no vazio; ele apoia-se nessas estruturas, negocia
com elas e reforça-as.
O anti-capitalismo, portanto, não se limita a dizer “não” à intervenção externa; ele diz não à totalidade das formas de dominação que tornam essa intervenção possível. Ele afirma que não há emancipação pela via da guerra entre potências, nem pela tutela de Estados fortes, nem pela escolha de blocos “menos maus”. A sua referência não é a nação abstracta, mas a classe operária concreta, nas suas condições materiais de existência no capitalismo mundial. Assim, ele recoloca a luta no terreno onde ela pode, de facto, produzir ruptura revolucionária: contra o capital, contra os seus Estados e contra as suas guerras, venham elas com bandeira estadunidense, chinesa, russa ou venezuelana.
7) A reorganização do domínio dos blocos
imperialistas: EUA, China e Rússia – o que precisamos entender
A política imperialista não é obra de um país ou de um grupo de países. É o
produto da evolução mundial do capitalismo num dado momento da sua maturação. É
um fenómeno por natureza internacional, um todo inseparável que só se
compreende nas suas relações recíprocas e ao qual nenhum Estado poderá escapar.
Rosa Luxemburgo – A Crise
da Social-Democracia (1916)
O actual regime de
acumulação, o regime integral, tem atravessado o seu ciclo de dissolução e
passa a ser marcado por uma redistribuição do domínio imperialista à escala
mundial, resultado directo do esgotamento relativo da chamada ordem unipolar
consolidada após o fim da Guerra Fria. O que se observa não é o declínio do imperialismo
enquanto forma histórica do capital, mas a sua mutação e recomposição em novos
blocos concorrentes, cada qual articulando poder económico, militar,
tecnológico e político sobre espaços regionais estratégicos.
Em termos mundiais,
delineiam-se dois grandes blocos imperialistas em desenvolvimento. De um lado,
o bloco liderado pelos Estados Unidos, que mantém a sua centralidade militar e
financeira, articulando alianças tradicionais na Europa Ocidental,
especialmente através da OTAN, e procurando preservar a sua hegemonia sobre
rotas energéticas, mercados financeiros e zonas historicamente subordinadas,
como a América Latina. De outro, o bloco que tem a China como principal
potência emergente, articulando-se com Estados como Rússia e Irão, combinando
expansão económica, investimentos em infraestrutura, controle tecnológico e
alianças militares e energéticas.
Essa polarização não
deve ser interpretada como uma disputa entre “modelos civilizatórios” ou entre
“democracia/fascismo” e “autocracia/socialismo”, mas como uma concorrência
entre capitais e Estados pela direcção do capitalismo mundial. A ascensão
chinesa, baseada em forte intervenção estatal, controle de sectores
estratégicos e expansão externa via investimentos e crédito, não rompe com a
lógica imperialista; ao contrário, actualiza-a sob novas formas. Do mesmo modo,
a Rússia actua como potência imperialista regional, procurando reafirmar a sua
influência no leste europeu e no espaço pós-soviético, utilizando-se de poder
militar, energia e alianças para garantir a sua posição na hierarquia mundial.
No plano regional, essa
reorganização assume contornos ainda mais nítidos. No Extremo Oriente, a China
projecta a sua hegemonia sobre o Sudeste Asiático e áreas do Pacífico,
disputando rotas comerciais, cadeias produtivas e influência político-militar.
No leste europeu, a Rússia actua como polo imperialista regional, em choque
directo com a expansão do bloco euro-atlântico, convertendo a região numa das
principais frentes da guerra inter-imperialista contemporânea. Já na América
Latina, os Estados Unidos seguem tratando o continente como zona prioritária de
influência, não apenas por razões históricas, mas pela sua centralidade
estratégica actual: recursos naturais, bio-diversidade, energia, controle
territorial e contenção da presença chinesa.
Pensar os blocos de
interesses regionais no continente americano exige reconhecer que a América
Latina não é um espaço “à margem” de disputa, mas um território-chave da
recomposição hegemónica dos EUA. A intensificação de sanções, intervenções directas,
golpes institucionais, tutela política e presença militar deve ser compreendida
como parte de uma estratégia mais ampla de reafirmação do poder imperialista
estadunidense diante do avanço chinês na região, especialmente via
investimentos em infraestrutura, mineração, energia e logística.
Nesse sentido, a
reorganização dos blocos imperialistas não aponta para um mundo “multipolar”
mais justo, mas para uma multiplicação das zonas de conflito, em que Estados
mais fracos tornam-se campos de disputa entre potências mais avançadas. O
resultado concreto dessa dinâmica não é a emancipação humana, mas o
aprofundamento da exploração, da militarização e da instabilidade política. A
hegemonia reorganiza-se, mas a lógica permanece: a do capital em busca de valorização,
agora cada vez mais mediada pela força armada e pela intervenção militar
aberta. Diante desse cenário, nenhum Estado nacional escapa das garras dos
conflitos inter-imperialistas e uma revolução proletária deverá,
necessariamente, afirmar-se como uma revolução mundial.
Leituras Recomendadas
CORONIL, Fernando. El Estado mágico: naturaleza, dinero y modernidade em
Venezuela. Caracas: Nueva Sociedad, Consejo de Desarrollo Científico y
Humanístico de la Universidad Central de Venezuela, 2002. Disponível em: https://epulahistoria.wordpress.com/wp-content/uploads/2016/10/6-el-estado-mc3a1gico-fernando-coronil.pdf.
CORONIL, Fernando. Natureza do pós-Colonialismo: do Eurocentrismo ao
globocentrismo. In: LANDER, Eduardo (Org.). A colonialidade do saber:
eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires:
CLACSO, 2005. p. 55-87. Disponível em: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624095004/7_Coronil.pdf.
MERCHANT, Jamie. Tariffs as class offensive. Libcom.org, 2025. Disponível em: https://libcom.org/article/tariffs-class-offensive-jamie-merchant-2025.
SANTOS, Rayssa da Silva. MELO, Fernando Monteiro. SANTANA, Paola Verri de.
Estado, Neo-liberalismo e Políticas Públicas: os venezuelanos em Manaus (AM).
In: XXI Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Planeamento Urbano e Regional – Ideias, políticas e práticas em
territorialidades do Sul Global, 2025, Curitiba. Anais […]. Campina Grande:
Realize Editora, 2024. p. 1-24. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/122908.
VIANA, Nildo. A acumulação integral e a dinâmica do capitalismo contemporâneo.
Revista Despierta, Curitiba, ano 09, n. 12, p. 17-37, jul./Dez. 2022.
Disponível em: https://redelp.net/index.php/rd/article/view/1334.
VIANA, Nildo. Blocos Sociais e Luta de Classes. Revista Enfrentamento, v. 10 n.
17 (2015). Disponível em: https://redelp.net/index.php/renf/article/view/425/401.
VIANA, Nildo. Breve história do neo-liberalismo. Revista Enfrentamento, n. 05,
p. 4-10, jul./dez. 2008. Disponível em: https://redelp.net/index.php/renf/article/view/792.
VIANA, Nildo. Classes Superiores e Classes Inferiores. Revista Espaço Livre, v.
17 n. 34 (2022). Disponível em: https://redelp.net/index.php/rel/article/view/1412/1270.
VIANA, Nildo. Estado e acumulação de capital. Revista Enfrentamento, Goiânia,
ano 12, n. 21, p. 48-58, jan./jun. 2017. Disponível em: https://redelp.net/index.php/renf/article/view/398.
VIANA, Nildo. O capitalismo na era da acumulação integral. Aparecida, SP:
Editora Santuário, 2009. 315p.
ZIBECHI, Raúl; MACHADO, Decio. Os limites do progressismo: sobre a
impossibilidade de mudar o mundo de cima para baixo. Rio de Janeiro:
Consequência, 2017. 160p.
[1] Proletariado,
lumpemproletariado, trabalhadores de serviços etc.
[2] Importante
notar que, até ao momento da escrita desse texto, foram somente determinados sectores
progressistas nos Estados Unidos, certos governos neo-liberais neo-populistas
(“esquerda”) na América Latina e alguns países da União Europeia que alegaram a
ilegalidade da intervenção dos EUA em relação ao direito internacional.
Os trumpistas não recorreram ao
direito internacional para justificar a intervenção. No geral, Hugo Alves
observou bem essa contenda: “a acção [de intervenção na Venezuela pelos EUA]
dividiu a opinião pública em dois polos: os que condenam a iniciativa, alegando
que a sua realização significou um ataque à soberania nacional do país, e os
que estão a aplaudir, afirmando que a queda do ditador é uma grande vitória
para o povo venezuelano.” Cf.: https://criticadesapiedada.com.br/a-agressao-contra-a-venezuela-e-a-politica-estrategica-de-dominacao-dos-eua-hugo-alves/
[3] Fecho
provisório significa uma acção de momento, uma solução ou mecanismo de encerramento
temporário. Por “vento de guerra” queremos dizer que, ao não saberem ainda o que
será feito – após a intervenção na Venezuela -, o temor pela guerra torna-se o
modo como a gestão da acção é desenvolvida inicialmente.
Crítica Desapiedada (Janeiro de 2026)
Fonte: Notas
sobre a Invasão da Venezuela pelos Estados Unidos – Crítica Desapiedada –
Crítica Desapiedada
Este artigo foi
traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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