quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Entrevista com Bruno Fortichiari, co-fundador do PCd'I

 


Entrevista com Bruno Fortichiari, co-fundador do PCd'I

 não do PCI que veio depois, e membro do primeiro executivo.

 

- O PCd'I ainda era, em suma, o partido de Livorno.

F. - Claro. Mesmo com aquela liderança minoritária que, aliás, tinha sofrido uma derrota esmagadora em Como. No entanto, foi tomada uma decisão que os camaradas não podiam aceitar, não podiam compreender, que era contrária às suas convicções.

C. - Mas acha que as massas estavam então num período de grande radicalização, de vontade de luta?

F. - As massas estavam numa condição muito particular. Há momentos de explosão e esses momentos correspondem a certos períodos infelizmente transitórios e também breves, mas, por exemplo, durante o caso Matteotti, tenho a convicção de que a grande maioria do elemento proletário e boa parte da classe média estavam dispostos a unir-se.

Dizíamos a Gramsci antes de chegar ao Aventino: «Vamos fazer uma greve geral» e depois: «Não se deve aceitar a política do Aventino», porque a política do Aventino não era aceite pela base, tanto mais que quem tinha a iniciativa, os social-democratas e os Amendola, falavam claro, eles não queriam não só a revolução, mas também um movimento de massas. Amendola dizia claramente que não queria colocar a monarquia em risco. Agora, devíamos pedir aos operários que salvassem a monarquia?

C. - Vocês tinham em mente uma revolução imediata ou simplesmente dar um primeiro golpe na situação?

F. - Não podíamos ter nenhum objectivo preciso, mas sentíamos que a situação era favorável, não só por parte dos operários, mas também devido à crise que atravessava o movimento fascista. Eles estavam desorientados, estavam em fuga. Mussolini tinha ficado sozinho. Estou em Roma para saber como estão as coisas e encontro Cesare Rossi, o secretário de Mussolini, nos degraus de Montecitorio, que estava a fugir. O próprio Farinacci não se aproximou de Mussolini durante alguns dias. É claro que essa situação particular durou apenas alguns dias, devido à forma como o drama se desenrolou. É preciso pensar nas pessoas que sabem que Matteotti foi assassinado, que foram elas que o mataram, que esconderam o cadáver e ninguém o encontra, toda a imprensa fala sobre isso; mas, acima de tudo, via-se os fascistas completamente dispersos, totalmente incapazes de reagir. Portanto, praticamente não havia mais força de resistência por parte dos fascistas e de Mussolini. Como seria o futuro? Era uma coisa arriscada, evidentemente, mas certos riscos, em certos momentos, também têm de ser corridos. Os operários faziam greve espontaneamente; mas, tal como tinha acontecido no «biennio rosso» com o PSI, faltava o partido. No entanto, tínhamo-lo fundado para isso.

C. - Gramsci, por outro lado, procura a aliança com os outros partidos.

F. - Ele aproximou-se oficialmente dos outros porque no Aventino estavam todos, populares, liberais, os dois socialistas, etc., ou seja, todos aqueles contra os quais tínhamos feito uma dura controvérsia. Isso teve dois efeitos: derrubar a classe operária e dar tempo a Mussolini para se recuperar e se organizar.

C. - Nesses dias, você estava perto de Gramsci?

F. - Eu estava em Roma, mas não o via com muita frequência porque ele trabalhava num ambiente que não era o nosso.

C. - Escreveu que nem todos os deputados comunistas aderiram ao Aventino.

F. - Nem todos, porque um grupo de esquerda se opôs e alguns por motivos pessoais. Entre os opositores estávamos eu, Repossi, Ferrari de esquerda, depois havia outros que estavam hesitantes.

C. - Vocês falavam abertamente entre vós sobre os erros da direcção política de Gramsci?

F. - Certamente. E eu cheguei a criticá-lo duramente e directamente quando ele, após o fracasso da participação no Aventino, insistiu em fazer uma greve geral: «Agora é um erro, e torna-se uma culpa se falhar, porque depois, durante muito tempo, não se consegue mais falar às massas operárias»; e, de facto, foi assim que aconteceu. Quando se chega depois de algum tempo, ou seja, quando o momento certo já passou e as massas operárias já entenderam como as coisas funcionam, quando o fascismo já passou pelo seu pior momento e tudo se reduz a uma espécie de aposta entre o próprio fascismo e a oposição legalista e anti-operária do Aventino, então fica claro que o jogo já está feito, e eram os velhos jogos dentro da burguesia. A classe operária percebeu que agora está excluída.

C. - Acho que esse facto criou um fosso politicamente intransponível entre o partido de Livorno e a direcção gramsciana; essa talvez seja a primeira grande fractura. Portanto, o PCI de hoje tem razão em dizer que a sua política remonta a 1924, foi experimentada pela primeira vez naquele período.

F. - Veja, a malandragem dos dirigentes actuais é que eles não fazem essa distinção, não separam as duas fases do PCI, eles falam do partido como tal, como se a evolução objectiva dos factos os tivesse levado a essa atitude, que, ao contrário, foi uma escolha política do grupo gramsciano.

No diálogo, a inicial F indica as intervenções de Fortichiari, a inicial C as do entrevistador, Luigi Cortesi.

De Luca Sgarlata

 

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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