Entrevista com Bruno Fortichiari, co-fundador do PCd'I
não do PCI que veio depois, e membro do primeiro executivo.
- O PCd'I ainda era, em suma, o partido
de Livorno.
F. - Claro. Mesmo com aquela liderança
minoritária que, aliás, tinha sofrido uma derrota esmagadora em Como. No
entanto, foi tomada uma decisão que os camaradas não podiam aceitar, não podiam
compreender, que era contrária às suas convicções.
C. - Mas acha que as massas estavam
então num período de grande radicalização, de vontade de luta?
F. - As massas estavam numa condição
muito particular. Há momentos de explosão e esses momentos correspondem a
certos períodos infelizmente transitórios e também breves, mas, por exemplo,
durante o caso Matteotti, tenho a convicção de que a grande maioria do elemento
proletário e boa parte da classe média estavam dispostos a unir-se.
Dizíamos a Gramsci antes de chegar ao
Aventino: «Vamos fazer uma greve geral» e depois: «Não se deve aceitar a
política do Aventino», porque a política do Aventino não era aceite pela base,
tanto mais que quem tinha a iniciativa, os social-democratas e os Amendola,
falavam claro, eles não queriam não só a revolução, mas também um movimento de
massas. Amendola dizia claramente que não queria colocar a monarquia em risco.
Agora, devíamos pedir aos operários que salvassem a monarquia?
C. - Vocês tinham em mente uma revolução
imediata ou simplesmente dar um primeiro golpe na situação?
F. - Não podíamos ter nenhum objectivo
preciso, mas sentíamos que a situação era favorável, não só por parte dos
operários, mas também devido à crise que atravessava o movimento fascista. Eles
estavam desorientados, estavam em fuga. Mussolini tinha ficado sozinho. Estou
em Roma para saber como estão as coisas e encontro Cesare Rossi, o secretário
de Mussolini, nos degraus de Montecitorio, que estava a fugir. O próprio
Farinacci não se aproximou de Mussolini durante alguns dias. É claro que essa
situação particular durou apenas alguns dias, devido à forma como o drama se
desenrolou. É preciso pensar nas pessoas que sabem que Matteotti foi
assassinado, que foram elas que o mataram, que esconderam o cadáver e ninguém o
encontra, toda a imprensa fala sobre isso; mas, acima de tudo, via-se os
fascistas completamente dispersos, totalmente incapazes de reagir. Portanto,
praticamente não havia mais força de resistência por parte dos fascistas e de
Mussolini. Como seria o futuro? Era uma coisa arriscada, evidentemente, mas
certos riscos, em certos momentos, também têm de ser corridos. Os operários
faziam greve espontaneamente; mas, tal como tinha acontecido no «biennio rosso»
com o PSI, faltava o partido. No entanto, tínhamo-lo fundado para isso.
C. - Gramsci, por outro lado, procura a
aliança com os outros partidos.
F. - Ele aproximou-se oficialmente dos
outros porque no Aventino estavam todos, populares, liberais, os dois
socialistas, etc., ou seja, todos aqueles contra os quais tínhamos feito uma
dura controvérsia. Isso teve dois efeitos: derrubar a classe operária e dar
tempo a Mussolini para se recuperar e se organizar.
C. - Nesses dias, você estava perto de
Gramsci?
F. - Eu estava em Roma, mas não o via
com muita frequência porque ele trabalhava num ambiente que não era o nosso.
C. - Escreveu que nem todos os deputados
comunistas aderiram ao Aventino.
F. - Nem todos, porque um grupo de
esquerda se opôs e alguns por motivos pessoais. Entre os opositores estávamos
eu, Repossi, Ferrari de esquerda, depois havia outros que estavam hesitantes.
C. - Vocês falavam abertamente entre vós
sobre os erros da direcção política de Gramsci?
F. - Certamente. E eu cheguei a
criticá-lo duramente e directamente quando ele, após o fracasso da participação
no Aventino, insistiu em fazer uma greve geral: «Agora é um erro, e torna-se
uma culpa se falhar, porque depois, durante muito tempo, não se consegue mais
falar às massas operárias»; e, de facto, foi assim que aconteceu. Quando se
chega depois de algum tempo, ou seja, quando o momento certo já passou e as
massas operárias já entenderam como as coisas funcionam, quando o fascismo já
passou pelo seu pior momento e tudo se reduz a uma espécie de aposta entre o
próprio fascismo e a oposição legalista e anti-operária do Aventino, então fica
claro que o jogo já está feito, e eram os velhos jogos dentro da burguesia. A
classe operária percebeu que agora está excluída.
C. - Acho que esse facto criou um fosso
politicamente intransponível entre o partido de Livorno e a direcção gramsciana;
essa talvez seja a primeira grande fractura. Portanto, o PCI de hoje tem razão
em dizer que a sua política remonta a 1924, foi experimentada pela primeira vez
naquele período.
F. - Veja, a malandragem dos dirigentes
actuais é que eles não fazem essa distinção, não separam as duas fases do PCI,
eles falam do partido como tal, como se a evolução objectiva dos factos os
tivesse levado a essa atitude, que, ao contrário, foi uma escolha política do
grupo gramsciano.
No diálogo, a inicial F indica as
intervenções de Fortichiari, a inicial C as do entrevistador, Luigi Cortesi.
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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