Irão: Levantamento popular contra o mito da
conspiração estrangeira
11 de Janeiro de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub .
As classes dirigentes, apoiadas pelos seus meios de comunicação domesticados, atribuem ao povo apenas um estatuto animal: rebanho sem pensamento, massa amorfa, carne eleitoral ou carne para espancar. Na sua imaginação paranóica, o povo nunca pensa por si mesmo. Não se revolta. É sempre «manipulado». Sempre controlado à distância. Sempre infiltrado. Nunca consciente.
Animadas por uma visão desdenhosa herdada de séculos de dominação, as classes dirigentes de todo o mundo concebem o povo apenas como matéria-prima: uma massa sem pensamento, sem memória, sem vontade própria. Um corpo social reduzido ao instinto, incapaz de produzir consciência política.
Assim, quando os trabalhadores saem da sua longa hibernação social, quando invadem as ruas para reivindicar o direito elementar de viver, já não se fala de miséria, mas de conspiração. Já não se fala de fome, mas de ingerência estrangeira. Já não se fala de raiva social, mas da CIA, da Mossad, de inimigos invisíveis. Curiosamente, essa mesma mão estrangeira nunca é acusada de ter produzido a resignação. A obediência. A submissão. O apagamento histórico desses mesmos trabalhadores.
A sua passividade é celebrada. Santificada. Brandida como prova de maturidade nacional. Enquanto o proletariado se cala, é patriota. Assim que fala, torna-se traidor.
Irão: o povo contra a fábula da conspiração estrangeira
O Irão fornece-nos actualmente um exemplo quimicamente puro desse mecanismo ideológico. Um aumento brutal dos preços, aliado ao colapso da moeda local, foi suficiente para acender a pólvora. Para precipitar para as ruas, a arena da luta, centenas de milhares de proletários iranianos.
Nenhum slogan importado. Nenhuma palavra de ordem ocidental. Apenas a vida que se tornou insuportável. Há vários dias, centenas de cidades estão em chamas. Os bairros populares explodem. Os trabalhadores, os desempregados, os condenados das periferias invadem as ruas. Eles gritam o seu ódio aos mulás. Os slogans não deixam margem para ambiguidades: «Morte ao ditador», «Abaixo Khamenei», «Fora os mulás». O proletariado iraniano já não exige ajustes. Contesta toda a ordem.
Como de costume, a resposta do regime é imediata: balas reais, milícias islâmicas, massacres. Segundo o jornal Le Monde, pelo menos 27 manifestantes «foram mortos por tiros ou outras formas de violência perpetradas pelas forças de segurança em oito províncias». Ao mesmo tempo, o regime cortou a internet. Então, como sempre, o regime dos mulás brandiu a fábula reciclada: a conspiração estrangeira. A CIA. O Mossad. O inimigo externo. Sempre o mesmo cenário. Sempre a mesma covardia política. O regime teocrático nunca ousou enfrentar a verdade: o que o ameaça não é Washington, é a miséria que produz e o terror que administra.
Irão: quando a miséria incendeia o Estado teocrático
No entanto, esta revolta não tem nada a ver com as protestos pequeno-burgueses anteriores. Esta revolta já não é impulsionada apenas por facções estudantis ou pequeno-burguesas urbanas. É obra dos trabalhadores, dos desempregados, dos precários, dos excluídos, dos comerciantes arruinados. Os protestos não se referem a eleições fraudulentas entre facções burguesas concorrentes. Referem-se à sobrevivência.
Esta revolta vem de baixo. Das províncias. Das cidades secundárias. Dos bairros esquecidos. Como todas as grandes rupturas históricas, as revoluções nunca nascem nos salões das capitais burguesas. Surgem onde a miséria é evidente. A prova, segundo várias fontes, é que a cidade de Abdanan está praticamente sob o controlo da população e dos jovens insurgentes. Em pânico com a extensão da revolta, o regime dos mulás cortou a electricidade desta cidade.
Outro elemento aterrador para o regime: a ausência de líderes. Sem chefes. Sem porta-vozes. Sem figuras recuperáveis. Uma massa proletária agindo sem mediação, sem supervisão, sem permissão. Uma raiva sem rosto. Uma violência social sem tutor. O pesadelo de todas as classes dominantes.
As valentes mulheres iranianas compreenderam imediatamente o que estava em jogo. Elas juntaram a sua luta à dos proletários. No Irão, o véu não é um símbolo cultural: é um instrumento político. Uma marca de inferioridade. Uma camisa de forças ideológica. Uma atribuição social. Para as mulheres iranianas insurgentes, retirá-lo não é provocar: é reapropriar-se da sua humanidade confiscada, do seu corpo (social) oprimido e reprimido.
Irão em revolta: fome contra os aiatolas
No que diz respeito a estas manifestações insurreccionais, falar de manipulação americano-sionista é uma farsa obscena. A menos que se considere que a miséria é um produto de exportação da CIA e da Mossad. A revolta iraniana é o produto directo de uma crise económica sistémica, de um Estado teocrático predatório, de um orçamento militar obeso, de milícias parasitas que se enriquecem à custa de 80 milhões de explorados e de aventuras imperialistas regionais pagas pelos iranianos famintos.
A molahrquia não está ameaçada por Washington. Ela é ameaçada pelos proletários iranianos famintos... por justiça social e sedentos por liberdade. Pela sua entrada em cena. Pela sua recusa em continuar a viver de joelhos.
Nada está escrito. Mas uma coisa é certa: quando o proletariado deixa de acreditar, deixa de obedecer, deixa de se calar, mesmo os regimes mais arcaicos vacilam.
A molahrquia não é eterna. Nenhum regime baseado no terror, na religião de Estado e na exploração o é. As grandes manifestações insurreccionais que atravessam o Irão sinalizam uma verdade simples e temida: o povo deixou de acreditar, deixou de obedecer, deixou de ter medo.
O povo iraniano está a erguer a cabeça. E com ele, as mulheres, duplamente oprimidas. Quando cair o véu — tanto ideológico quanto têxtil — não será uma reforma. Será uma ruptura. Uma reapropriação da vida contra a teocracia, contra a exploração. E é precisamente isso que a classe dominante iraniana, a molahrquia, teme.
O proletariado iraniano entra na história à força. E quando um povo explorado levanta a cabeça, são sempre os tronos, os turbantes e os palácios que começam a tremer e, depois, dependendo do equilíbrio de forças, a cair.
Khider MESLOUB
Fonte: Iran
: soulèvement populaire contre la fable du complot étranger – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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