Samir Geagea, líder das Forças Libanesas, um perfeito
zombie criminogénico (René Naba)
20 de Janeiro de 2026
Robert Bibeau
Por René Naba, em parceria com https://www.madaniya.info/
Sócrates: Uma alma sem memória está
condenada à repetição.
Este artigo é dedicado a Georges Ibrahim Abdallah, a antítese de Samir Geagea, líder miliciano cristão.
Georges Ibrahim Abdallah e Samir Geagea representam as duas faces do Líbano.
O primeiro, militante comunista
pró-palestiniano, encarna o seu lado glorioso, o orgulho nacional do Líbano; o
segundo, colaborador dos israelitas e depois dos sauditas, encarna o seu lado
hediondo, a escória do Líbano, a sua fossa séptica.
Ambos são maronitas, além de serem
originários do norte do Líbano. Prova flagrante de que a pertença religiosa não
predetermina a servilidade, mas a predisposição intelectual determina uma
postura de rectidão ou de rastejamento, dependendo da escolha do vertebrado ou
da inclinação profunda do réptil. A conclusão que se segue é que Georges
Ibrahim Abdallah é um homem de convicção de estatura internacional. Um árabe
autêntico. Samir Geagea, um lacaio envolto – camuflado? – num discurso
soberanista.
Este artigo é publicado a 9 de Fevereiro,
data comemorativa da celebração de São Maron, para que o santo patrono dos
maronitas incentive os líderes políticos desta comunidade a transcender as suas
turpitudes criminosas, cessando a sua guerra picrocholina, no seu próprio
interesse e no do Líbano.
Para os falantes de árabe, a versão
árabe encontra-se no prolongamento da versão francesa.
O silogismo circular dos países ocidentais
Em 82 anos de independência, o Líbano teve 14 presidentes, dos quais dois
foram assassinados - Bachir Gemayel (1982) e René Mouawad (1989) no início do
seu mandato -, outros dois cujo mandato foi marcado pela guerra civil, Camille
Chamoun (1958) e Soleimane Frangieh (1975) — e cinco presidentes provenientes
do comando do exército: Fouad Chehab, Emile Lahoud, Michel Sleimane, Michel
Aoun e Joseph Aoun. Os quatro últimos sucederam-se ininterruptamente desde
1998, ou seja, há 27 anos.
O Líbano voltou a ficar sem presidente desde o fim do mandato do general
Michel Aoun, em 30 de Outubro de 2022, devido à falta de consenso entre as
forças políticas libanesas sobre a escolha do seu sucessor. Um dos candidatos,
Soleimane Frangieh, neto de um antigo presidente da República Libanesa, cujo
nome ostenta, contava com o apoio do bloco xiita e, consequentemente,
enfrentava a oposição resoluta de todo o bloco parlamentar cristão.
O campo cristão contava com o apoio dos
países ocidentais, que consideravam, por uma espécie de silogismo circular, que
uma eventual eleição de Soleimane Frangieh, conhecido por ser próximo da Síria,
teria constituído, por ricochete, uma vitória do Irão e, por extensão, da
Rússia, augurando uma derrota da OTAN na Ucrânia e de Israel em Gaza, face ao
Hamas. A queda do regime baathista em Damasco, em 8 de Dezembro de 2024, levou
ipso facto à retirada da candidatura de Soleimane Frangieh da corrida
presidencial.
Uma das singularidades desta competição
é o facto de Samir Geagea, líder das Forças Libanesas (milícias cristãs), ter
vetado totalmente a eleição de Soleimane Frangieh, apesar de ter sido ele o
artífice da aniquilação de quase toda a família do seu rival do norte do
Líbano, indício indiscutível da aberração mental que consiste em conferir a um
carrasco um direito sobre a sua vítima;
indício indiscutível da perversidade do comportamento ocidental que
consiste em entronizar o maior criminoso do Líbano como «grande eleitor» de um
país que ele contribuiu amplamente para destruir .
Retorno a este sinistro personagem
Filho de um sub-oficial do exército libanês, morador do subúrbio cristão de
Beirute, Ein Er Remmaneh, Samir Geagea sempre quis conjurar a fatalidade das
condições modestas do seu nascimento, sonhando em reinar sobre a sua
comunidade, os maronitas, detentores das principais alavancas do poder no
Líbano, em virtude da divisão confessional do poder.
E Achrafieh, a colina que domina Beirute, reduto do poder maronita que
desprezava com o seu desdém burguês o subúrbio populoso da sua residência,
tornou-se o seu alvo permanente. Esse poderia ser o sentido de todas as medidas
que ele tomou desde o seu envolvimento na acção armada.
Um ser duplamente paradoxal, que não se preocupa com coerência,
racionalidade e muito menos humanidade.
Afectado não por megalomania, mas por megalocéfalia, a síndrome da cabeça
grande, este irredentista cristão foi o coveiro da liderança cristã; esse
soberanista convicto, o factótum das duas teocracias do Médio Oriente: Israel,
durante a guerra civil libanesa (1975-1990), e a Arábia Saudita desde o período
pós-guerra, dois regimes antinómicos do Líbano.
Num contexto de violência exacerbada, ele chegou ao topo da hierarquia
miliciana após o assassinato dos seus dois antecessores, Bachir Gémayel,
fundador das «Forças Libanesas», e do seu sucessor, Elias Hobeika, executor das
baixas acções dos israelitas no massacre dos campos palestinianos de Sabra e
Chatila, nos subúrbios a sudeste de Beirute, em Setembro de 1982.
Sanguinário, simplista, rudimentar, expeditivo, ele subiu os degraus da
hierarquia sobre um terreno repleto dos cadáveres dos seus inimigos reais,
potenciais e até virtuais, ganhando ao longo do caminho o título pouco glorioso
de implacável «coveiro da liderança cristã».
O seu pseudónimo, porém, não deve enganar: ele recorre à ambiguidade, tal
como a sua personalidade recorre à ambivalência.
«Al Hakim», o seu nome de guerra, que significa o sábio ou o médico, nunca
foi sábio no seu comportamento belicoso, além de toda a medida e desmesura, nem
erudito, nem médico, não possuindo sequer o grau universitário. Esta é a sua
primeira usurpação.
Aquele que a sua formação universitária deveria ter destinado a um
comportamento humano revelou-se um dos mais desumanos chefes de guerra,
responsável pela decapitação da família Frangieh, em 1978, não poupando nada
nem ninguém desta grande família do norte do Líbano, seus vizinhos, nem mesmo
uma menina de três anos ou o cão de guarda à frente da casa.
Reincidente em 1980, ele atacou o reduto do outro aliado dos falangistas,
as milícias do PNL (Partido Nacional Liberal) de Dany Chamoun, filho do
ex-presidente Camille Chamoun, em Faqra, na região montanhosa do Líbano,
afogando em sangue as forças cristãs, apesar de serem aliadas na mesma
coligação. Em Julho de 1983, ele iniciou a batalha da montanha de Chouf contra
a milícia drusa liderada por Walid, filho e sucessor de Kamal Joumblatt, líder
do Partido Socialista Progressista e chefe da comunidade drusa. A sua ofensiva
resultou na destruição de 60 aldeias e no êxodo de uma população cristã de mais
de 250 000 habitantes do Chouf, pondo fim a um século de convivência
druso-cristã no Chouf.
O mesmo aconteceu, com resultados idênticos, em Saida, capital do sul do
Líbano, e em Zahlé, no centro do Líbano, em 1985.
Baixo balanço para o defensor das minorias cristãs oprimidas, que o seu
belicismo oprimiu de forma mais duradoura do que a hostilidade dos seus
adversários.
A lista não é exaustiva. Em 1988, no final do mandato do presidente Amine
Gemayel, Samir Geagea estava à frente de uma empresa próspera apoiada por uma
máquina de guerra bem oleada. A prova de força que ele empreendeu contra o
general Michel Aoun, comandante-chefe e primeiro-ministro interino, acabou por
esgotar o campo cristão, com o general Aoun a seguir o caminho do exílio para
Paris, onde permaneceu durante quinze anos, e Samir Geagea a seguir o caminho
da prisão, onde ficou detido durante quase dez anos.
Anteriormente, Samir tinha alargado o raio de acção da sua fúria aos seus
rivais do campo palestiniano-progressista, como o primeiro-ministro Rachid
Karamé, uma figura proeminente da vida política libanesa, e depois, sem
sucesso, à estrela política incontestada do cenáculo libanês, Najah Wakim, em
pessoa, em Outubro de 1987, mas falhou o alvo.
Grande senhor, Najah Wakim opôs-se, no entanto, à prisão de Samir Geagea,
apesar do seu pesado passivo, assim como à partida para o exílio do general
Michel Aoun, preocupado em evitar uma operação que pudesse ser vista pelo campo
cristão como uma «caça às bruxas», provocando, em contrapartida, pelo
sentimento de vitimização, uma cristalização definitiva do campo cristão em
torno dos seus líderes depostos, prejudicial à co-habitação interconfessional.
O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em Fevereiro de 2005,
dará origem a uma improvável reviravolta na aliança, reunindo os antigos chefes
de guerra antagónicos e o seu financiador: Walid Joumblatt, Samir Geagea, Amine
Gemayel e Saad Hariri.
Embora tenha resultado na libertação de Samir Geagea graças à aprovação de
uma lei de amnistia que apagou o passado, esta coligação heterogénea e sem
credibilidade constituirá o ponto fraco do dispositivo ocidental para preservar
o poder libanês no seu seio.
Único líder libanês condenado por assassinato, amnistiado e não absolvido,
Samir Geagea assume agora uma postura de perturbação em nome do campo
ocidental. E da Arábia Saudita, seu benfeitor. O ponto de discórdia de todas as
iniciativas políticas que não tenham o aval da dinastia wahhabita e do seu
protector americano.
Samir Geagea é o único sobrevivente dos principais protagonistas do caso
Sabra-Chatila, cujo grande vencedor moral poderia ser, a posteriori e
paradoxalmente, Soleimane Frangieh, o sobrevivente do massacre que fundou a sua
autoridade.
Num país há muito transformado num gigantesco cemitério, Soleimane
Frangieh, cuja família serviu de banco de ensaio para o massacre de
Sabra-Chatila, refreará os seus instintos guerreiros para conceder o perdão
pelas ofensas, sendo o único líder libanês a ter realizado este gesto de
grandeza moral, remetendo para a sua vilania o carrasco da sua própria família.
Barricado na sua fortaleza de Meerab, no coração do reduto cristão de
Kesrouane (Monte Líbano), Samir Geagea, nascido em 1952, encontra-se no
crepúsculo da sua vida. Circunstância agravante: a ausência de herdeiros
biológicos enfraquece-o e, ao mesmo tempo, compromete a continuidade do seu
projecto político, colocando-o à mercê de um golpe do destino.
O homem escapou assim temporariamente à justiça dos homens. Personagem
funesta, sem descendência, sem remorsos, sozinho diante dos seus crimes,
sozinho diante dos seus fantasmas, impedido pelos seus delitos, manchas
indeléveis, dificilmente poderá escapar ao castigo da História...
Sem dúvida, o olho estará no túmulo e observará Caim.
• Sobre a aventura das milícias cristãs durante a guerra do Líbano: https://www.renenaba.com/chretiens-dorient-le-singulier-destin-des-chretiens-arabes-2/
·
Sobre os Maronitas, cf, este link : https://www.renenaba.com/france-liban-a-propos-des-maronites/
·
Sobre a Guerra do Líbano : https://www.madaniya.info/2015/04/13/liban-beyrouth-le-vietnam-d-israel/
·
Sobre a aventura das milícias cristãs durante a guerra do Líbano : https://www.renenaba.com/chretiens-dorient-le-singulier-destin-des-chretiens-arabes-2/
·
e sobre os traficantes de armas da Guerra do Líbano: https://www.madaniya.info/2018/04/05/liban-memoires-de-guerre-1-3-les-racines-americaines-de-la-guerre-civile-au-liban-1975-2000/
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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