A agressão americana contra a Venezuela: uma escalada
rumo à guerra mundial.
6 de Janeiro de 2026 Robert Bibeau
Pelo GIGC/IGCL . Em https://igcl.org/Communique-sur-l-attaque
O comunicado de imprensa está disponível em formato PDF : COMUNICADO DE IMPRENSA -
VENEZUELLA
Declaração sobre o ataque americano à Venezuela
« É a
América em primeiro lugar. É a paz pela força. Bem-vindo a 2026. » (Pete
Hegseth na conferência de imprensa de Trump em 3 de Janeiro)
« É a
América em primeiro lugar. É a paz pela força. Bem-vindo a 2026. » (Pete
Hegseth na conferência de imprensa de Trump em 3 de Janeiro)
O ataque americano à Venezuela
e o sequestro do seu presidente Maduro na
noite de 2 para 3 de Janeiro marcam uma nova etapa na corrida para a guerra
imperialista generalizada. Ninguém duvidará realmente disso. « Ninguém
mais questionará a dominação americana no hemisfério ocidental »,
declarou Trump durante essa mesma conferência de imprensa. A intervenção americana fora de qualquer quadro
jurídico internacional ou mesmo nacional significa que o momento é de pura e
simples força militar, sem pretensão de legalidade, e que esta tendência é
agora definitiva. Tal como a Sociedade das Nações, em meados da década de 1930,
sobretudo a partir da invasão da Etiópia pelo italiano mussoliniano, se tinha
tornado uma casca vazia, a ONU já não conta. Já não existe. Não haverá
regressos. O direito do mais forte e da canhoneira já não se disfarça, não se
esconde mais atrás de qualquer direito internacional. As
regras do jogo imperialista que prevaleciam desde 1945 já não existem. E muitos
já não podem participar nele. Apenas os Estados Unidos, a China e, num grau
menor, a Rússia, possuem agora as cartas para se sentarem à mesa do jogo, para
grande desgosto das velhas potências europeias, que têm estado excluídas desde
a eclosão da guerra na Ucrânia. Tendo
em conta os precedentes estabelecidos pela política externa de Trump, nenhuma
regra formal impede a China de impor um bloqueio naval, ou até de invadir
Taiwan, e as ameaças militares americanas sobre… a Gronelândia enquadram-se na ordem do possível, senão
do provável, para grande receio da Dinamarca e dos europeus. Trump também
ameaçou o México, a Colômbia e Cuba[ 1 ] .
Mesmo a
burguesia canadiana, que faz parte há muito do bloco imperialista dirigido pelos Estados Unidos, terá de começar a
preocupar-se, tendo em conta a vontade dos Estados Unidos de tomar à força tudo
o que puderem.
O assalto a Caracas não tinha
apenas como objectivo colocar as mãos no petróleo venezuelano e privar a China
e, de passagem, Cuba. Também é necessário pressionar e isolar ainda mais os
governos sul-americanos que ainda não estão alinhados com as políticas
trumpistas. Em particular, o Brasil de Lula está na linha de mira. Depois do
Panamá, da Argentina de Milei, depois do Chile, do Equador, do Peru, etc., o continente da América do Sul e Central
está a ser posto na linha. A garra americana estende-se e ameaça. O acesso
da China e de outros concorrentes, especialmente europeus, aos mercados da
América do Sul tornar-se-á cada vez mais difícil e a sua influência e presença
imperialista irão diminuir na mesma proporção.
À hora a que escrevemos, o destino da Venezuela ainda não está definido quanto à equipa no poder. Este episódio sublinha a incapacidade da Rússia e da China de projectar o seu poder muito para além das suas costas, uma capacidade que apenas os Estados Unidos possuem por enquanto. Foram impotentes para impedir os bombardeamentos americanos e o rapto de Maduro, que havia encontrado um enviado do governo chinês poucas horas antes de ser capturado pelas forças americanas. Isso só pode incitar os sucessores, sejam do regime em vigor ou da oposição pró-americana – igualmente corrupta e sempre foi assim [ 2 ] – a responder aos ditames americanos. «Os Estados Unidos fornecerão uma visão de como a Venezuela deve ser governada e esperarão que o governo interino a implemente durante um período de transição, sob a ameaça de uma nova intervenção militar[ 3 ] ».
Em
contrapartida, as outras potências imperialistas, começando pela China e
provavelmente também os europeus, serão reforçadas na convicção de que apenas
medidas de ordem militar podem assegurar a sua sobrevivência, já que, no
final, só a força conta. A corrida mundial aos armamentos vai ainda
acelerar. Pior ainda, a ofensiva americana para excluir a China do continente
americano insere-se na política imperialista clássica do imperialismo
americano, conhecida como «containment», a
mesma que estrangulava cada vez mais o Japão nos anos 1930 e que o levou a
lançar-se na aventura de Pearl Harbor. Não podemos aqui antecipar a eficácia
desta política de estrangulamento da China hoje. No entanto, não há grandes
dúvidas de que esta não poderá deixar de reagir de alguma forma, inclusive
acelerando o desenvolvimento do seu poder naval, correndo caso contrário o
risco de aceitar os ditames americanos.
O ataque americano contra a Venezuela torna Taiwan mais directamente ameaçada. Embora a China não disponha da capacidade de projecção de poder dos Estados Unidos, possui os meios e a motivação necessários para exercer poder coercivo perto das suas próprias costas. Pode estrangular economicamente Taiwan e pressionar através da apreensão de navios comerciais. Pode também pressionar os Estados Unidos ao limitar as exportações de gálio e de terras raras, dois minerais estratégicos que constituem matérias-primas importantes para qualquer projecto americano de repatriamento da fabricação de chips electrónicos de ponta, actualmente concentrada em Taiwan. Mesmo antes da última escalada com a Venezuela, a China tinha anunciado a construção de nove porta-aviões até 2035. A corrida para a guerra está bem lançada e o assalto à Venezuela só pode convencer os últimos hesitantes da sua realidade.
No caso
da Venezuela, o proletariado local e internacional deve abster-se de apoiar
qualquer um dos lados, seja o chamado campo "bolivariano" de Maduro
ou o chamado campo "democrático" pró-americano. Apoiar qualquer um
dos lados só agravaria a situação dos trabalhadores e assalariados do país,
ainda que apenas porque seriam reduzidos a mera bucha de canhão em caso de
conflito armado. A participação, ou mesmo o apoio passivo, a qualquer um dos
lados apenas paralisaria qualquer resistência futura às condições exploratórias
— salários, emprego, repressão, etc. — que certamente se agravarão,
independentemente do governo no poder.
O mesmo
se aplica aos proletários dos países vizinhos da América Central ou do Sul,
Colômbia ou Brasil em particular, bem como ao proletariado internacional em
geral. É provável que forças de esquerda tentem organizar manifestações de
apoio contra o "imperialismo ianque". Isto já
acontece nos Estados Unidos, onde se realizaram manifestações contra a
intervenção americana nas principais cidades, Nova Iorque, Chicago, São
Francisco, Washington, etc., no dia 3 de Janeiro. O mesmo ocorre na Europa e no
Canadá. A pedido da France Insoumise e do PCF, realizou-se em Paris uma
manifestação expressiva de algumas centenas de pessoas. Certamente, não é
participando nela que os proletários podem prestar qualquer tipo de
solidariedade efetiva aos operários da Venezuela, ou mesmo à sua população como
um todo. O único terreno em que podem
expressar a sua solidariedade de classe encontra-se na luta contra o seu
próprio capitalismo, incluindo contra os governos de esquerda
anti-americanos, ou pelo menos anti-Trump, dos presidentes Lula (Brasil) e Gustavo Petro (Colômbia).
Acima de tudo, o ataque
americano interpela ainda mais o proletariado das principais potências
imperialistas que nos estão a precipitar para o drama, começando, claro, pelos
Estados Unidos. A burguesia americana empenha-se numa corrida para a frente
que, apesar das fanfarronadas de Trump e da sua equipa, mal consegue mascarar
uma espécie de pânico face ao seu declínio e à afirmação crescente e massiva do
poder chinês. «Os Estados Unidos nunca permitirão que
potências estrangeiras roubem o nosso povo[ 4 ] e nos
expulsem do nosso hemisfério»,
afirma Trump. Mas, para hoje defender os seus interesses imperialistas ao nível
exigido pela situação, a burguesia americana terá também de redobrar os seus
ataques contra o seu próprio proletariado. O mesmo se aplica inevitavelmente
aos outros rivais imperialistas. Eles devem atacar a sua própria classe operária
se quiserem ter sequer um lugar à mesa do jogo.
É uma
corrida contra o tempo que se estabeleceu entre o capitalismo e o proletariado
cada vez mais miserável. O primeiro, encurralado, precipita-nos na guerra. O
segundo deve enfrentar o agravamento das suas condições de vida e de trabalho
devido à própria preparação geral para a guerra. Revolução proletária
internacional ou guerra imperialista generalizada, tal é a alternativa
perante a qual a humanidade se encontra. A responsabilidade histórica do
proletariado, classe explorada e revolucionária ao mesmo tempo, bem como a das
suas minorias comunistas, é por isso ainda mais comprometida.
GIGC, 4 de Janeiro de 2026
Notas:
[ 1 ] https://www.axios.com/2026/01/03/trump-maduro-venezuela-mexico-sheinbaum
[ 2 ] A
burguesia venezuelana sempre foi uma burguesia parasitária, vivendo das rendas
do petróleo. Como resultado, o pessoal que ela nomeia para governar o país
sempre foi altamente corrupto.
[ 3 ] . New York Times , Trump
mergulha os EUA em uma nova era de risco na Venezuela , 3
de janeiro de 2026.
[ 4 ] .
Ou seja, a burguesia americana considera que o petróleo venezuelano lhe
pertence.
Fonte: L’agression américaine contre le Venezuela, une escalade vers la guerre globale – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice

Sem comentários:
Enviar um comentário