sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

NEM AUSTERIDADE NEM EXPANSÃO

 


B O L E T I M
de
Fomento Operário Revolucionário
Ano III, N.º 7                                                                                                              Outubro 1950

 

NEM AUSTERIDADE NEM EXPANSÃO

 

Com a chamada reforma económica ou "operação de saneamento da economia espanhola", inicia-se uma etapa de grande importância para o futuro, ao término da qual — se se deixar chegar ao fim — o país encontrará-se-á transformado numa espécie de Itália ou de Alemanha vaticanas, ou então numa Polónia mosqueteira. Os partidos da emigração, tal como os incipientes do interior, aspiram descaradamente a uma coisa ou a outra, e se hoje não colaboram com o que o franquismo faz, já habilitam prolongar a sua actividade, dólares ou rublos mediante.  Assumir uma posição revolucionária perante a operação económica do franquismo torna-se impossível sem confrontar, ao mesmo tempo, os lobistas da oposição pró-russa ou pró-americana.

Desde a revolução espanhola, durante a qual o estalinismo deu pela primeira vez livre curso às suas potencialidades reaccionárias, acumuladas e inibidas fora da Rússia durante longos anos, as diferenças entre a direita e os grandes partidos que ainda se pretendem de esquerda têm-se apagado. Até tal ponto que o que hoje tais partidos projectam para o futuro económico de Espanha não representa uma novidade, mas sim a continuação do que Franco iniciou. Não se trata de um problema espanhol, mas internacional. Em Espanha ficou claramente insinuado a partir de 1936 e todos os acontecimentos mundiais posteriores o têm confirmado, e em Espanha essa questão volta a ser colocada com maior acuidade a partir de agora, tanto no aspecto económico como no aspecto mais directo da luta política.

Despida de cantilenas propagandísticas, "a operação de saneamento da economia espanhola" não é outra coisa senão a subordinação completa da mesma à economia do bloco ocidental. A imprensa do ditador anunciou que, com a chegada a Madrid de uma comissão presidida por E. William, gestor do departamento europeu do Banco Mundial de Washington, "o plano de reforma económica entra na sua segunda fase", a qual o regime, sempre trapaceiro, apresenta como de expansão industrial e aumento do nível de vida. Mas, por enquanto, as indústrias continuam a despedir operários aos milhares e a reduzir as horas de trabalho aos restantes. Centenas de milhares de operários pedem para ir trabalhar para o estrangeiro, e o nível de vida proletário — deixando de fora os desempregados — sofreu uma queda de 30%. Enquanto os altos hierarcas franquistas discutem o plano de investimentos com os seus financiadores internacionais, a polícia reprime os operários que, de palavra ou obra protestam, ao mesmo tempo que se aumentam os salários às instituições repressivas e aos técnicos, esse corpo que, não estando acoplado à revolução, se transforma, por sua própria função e juntamente com as direcções sindicais, na polícia das fábricas.

Com a segunda parte da operação económica, o franquismo espera revigorar o seu poder decrescente e prolongar-se como sistema político para além do desaparecimento do seu protagonista. O júbilo oficial nunca foi tão grande. Finalmente, vão pôr as mãos na bolsa dos dólares, e as beatas nulidades governantes poderão vangloriar-se de ser construtores de um povo. Felizmente para este, os dólares chegam demasiado tarde às mãos gananciosas do 'glorioso movimento nacional'. O mais sintomático da 'operação de saneamento' é precisamente o facto de ser empreendida quando toda a gente, em Espanha e fora dela, adversários e apoiantes de Franco igualmente, está convicta de que o regime se desmorona irremediavelmente. As próprias potências tuteladoras do Banco Mundial estão convencidas disso. O facto de continuarem a tratar com Franco apesar de tudo e de projectarem planos económicos para Espanha dá-nos a chave da sua intervenção. Com Franco ou com os seus sucessores, a indústria, os transportes e a própria agricultura devem ser postos em condições de auxiliar eficazmente o esforço de guerra ocidental. Toda outra consideração é subordinada e secundária, quando não mero gesto para a plateia.

Quem quer que esqueça os mecanismos de guerra das medidas económicas ou políticas incessantemente levadas a cabo em todo o mundo, priva-se do critério principal para julgar a situação em cada país e globalmente, e, desde logo, coloca-se à margem do pensamento revolucionário. Mesmo falando de paz e desarmamento, os dois blocos preparam-se para a guerra. O intervalo de paz ou guerra fria é usado por ambos para ocupar posições económicas e estratégicas. Um e outro se pressupõem mutuamente, sendo cada vez mais inseparáveis. Ninguém que jure por Washington ou por Moscovo pode ser outra coisa senão um subalterno do respectivo Estado-Maior. A mortífera competição entre os dois chefes de bloco obriga-os a industrializar os seus respectivos satélites, sem deixar, pelo contrário, de os amarrar económica e fortemente. Nos chamados países neutros, os dois blocos competem em bajulações e ofertas monetárias, dissimuladamente aproveitados por governantes e burguesias locais. Assim, sob a capa de "ajuda financeira, técnica e cultural aos países sub-desenvolvidos", é que se desenrola a penetração dos primeiros imperialismos até aos últimos recantos do Planeta. E enquanto se fala de independência e movimentos nacionais, de "comunismo" ou de "democracia", mais estreita e corrupta é a adaptação aos interesses de Washington ou de Moscovo.

Dizem essas duas metrópoles ajudar os fracos quando na realidade tomam posições militares e fazem investimentos que lhes permitem acumular maior mais-valia, e cedo ou tarde, conforme a intensidade da ajuda, ditam medidas económicas e políticas. Por seu lado, os líderes dos movimentos nacionais dos países atrasados apresentam-se aos seus povos como libertadores e modernizadores “progressistas” da economia, quando na realidade consolidam as suas próprias características de exploradores e déspotas, oferecendo-se ao melhor comprador de um dos dois blocos em troca de uma maior percentagem da mais-valia extraída aos seus próprios compatriotas. Assim corre em ambos os blocos, desde o topo até à base, a prevaricação e a falácia demagógica.

Dentro desse mundo venal e pré-bélico, o clericalismo essencial dos vencedores da guerra civil faz deles servos incondicionais do imperialismo americano, sem se poderem permitir sequer o jogo duplo fraudulento de um Tito ou de um Lumumba. Qualquer um. Guardando as devidas diferenças (secundárias, no entanto), a Espanha de Franco ocupa em relação ao imperialismo ianque uma posição semelhante à da Bulgária, ou à da Mongólia exterior em relação à Rússia. Durante vinte anos de ditadura, incontestada, o conglomerado igreja-exército-burguesia tem sido incapaz de realizar qualquer labor positivo, seja na economia, na organização social ou na cultura. Agora, precisamente quando o seu ocaso já é inegável, as necessidades da guerra totalitária vêm dar-lhe um respiro e uma esperança. 'Agora! vai criar grandes indústrias e modernizar o país. Afinal de contas, porque é que a tradicional conservadora espanhola não haveria de recorrer aos enganos progressistas como lhe ensinaram insistentemente tantos traidores à revolução proletária?

Certamente, Franco já não enganará ninguém, mesmo no improvável suposto de que a sua queda se faça esperar por muito tempo e de que sob a sua ditadura se alcance um desenvolvimento industrial importante. Inevitávelmente, a aversão ao seu regime irá tomando tendência e amplitude cada vez mais revolucionárias, qualquer que seja a evolução económica. Mas outros podem, no futuro, enganar com o mesmo atractivo industrializante e à sombra de diferentes tendências. Esse perigo é o mais grave, pois na realidade espreita de quase todos os ângulos do quadrante político, e significaria a continuação da mesma "operação" económica.

'Os socialistas' e os republicanos —sem falar dos monárquicos, que se consideram os legítimos herdeiros de Franco— aspiram a modernizar-nos e a dar expansão à economia nacional em geral, para o que aceitarão idênticos auxílios e hipotecas que Franco. Por sua vez, o estalinismo, que não conhece outra orientação, encontra-se de antemão hipotecado por ajudas de origem diferente, mas ainda mais opressivas. Ele destaca-se sem esforço entre todos os outros no terreno da demagogia nacional-progressista, e conta com isso para ir assimilando-os sempre que se apresenta a ocasião propícia, como já fez em numerosos países. Expressão exterior de um capitalismo de Estado centralizado como nenhum outro e cujo império é hoje único rival dos Estados Unidos; o estalinismo considera-se destinado a impor em todos os lugares o modelo russo, e, de certo modo, acerta. De facto, mesmo nos lugares onde não consegue impor-se, acelera, pela sua presença e pelo seu peso na política internacional a marcha reaccionária, da economia para o capitalismo de Estado. O mundo não conseguirá escapar à aniquiladora invasão deste — e isso a curto prazo — senão pela revolução social. Pouco importa que nos seja apresentado, ou como socialismo ou democracia popular, ou como liberdade.

Por fim, os próprios grupos de oposição mais ou menos verdadeiros recentemente surgidos no interior (não me refiro à dos operários, que tem sido permanente e será, também, a oposição decisiva, mas sim à dos intelectuais e a uma parte da igreja dedicada a intrigas sucessórias) feridos nos seus preconceitos nacionais pelo atraso da Espanha, só pensam em imitar os russos ou os americanos, e acabarão, em última análise, por ser absorvidos por uns ou por outros.

Defendendo-se hoje contra Franco, o proletariado deve adoptar perante o problema uma atitude, e prever soluções que lhe permitam ao mesmo tempo derrubar a ditadura e ptovocar aqueles que planeiam impor-lhe, tal como Franco, uma industrialização alcançada às suas custas e dirigida contra ele. É mentira que o problema económico de Espanha consista em alcançar o nível dos países industrializados. O próprio Franco utilizou esse engano para justificar a sua ditadura e a miséria das massas. Não, o problema de Espanha é o mesmo dos países mais altamente industrializados: passar da actual escravidão assalariada para o modo de produção e distribuição socialista. Todas as premissas económicas, políticas e psicológicas necessárias estão presentes em Espanha e a nível mundial. Alcançar o nível dos Estados Unidos, da Rússia ou da Inglaterra não pode ser considerado sequer um passo progressivo modesto; permanece um plano redondamente reaccionário. Cumprido, o resultado seria, para os operários, um ritmo acelerado de produtividade com salários relativos decrescentes e absolutos, carência de direitos; para os exploradores —sejam eles a beatería tradicional, a “democracia” ou a nova beatería estalinista— um despotismo absoluto sobre a riqueza e sobre os homens. O único progresso real que se pode aspirar hoje deve começar com uma distribuição socialista de todos os produtos do trabalho. Através dela encontrar-se-á uma solução revolucionária para os outros problemas económicos, grandes ou pequenos, e o desenvolvimento industrial, assim transformado de condição e motor da exploração, pelo contrário, não conhecerá limites, garantindo ao mesmo tempo a plena liberdade do indivíduo.

Os industrializadores são gente da patronal ou de mentalidade patronal. Por mais que muitos deles se encontrem na emigração ou até na prisão, sofrem por constituir uma patronal mais dinâmica do que a de Franco. Uma boa parte destes aponta para isso com ciência e consciência, mas também aqueles que o ignorem atingiriam, coroando o seu propósito, os mesmos resultados. Todo operário sabe instintivamente que as suas necessidades são ganhar cada vez mais trabalhando menos, e dispor da mais completa liberdade política e de desenvolvimento da sua personalidade. Essa intuição, que expressa uma necessidade premente, condensa o problema económico de Espanha, e do mundo, assinalando ao mesmo tempo a sua solução. Os industrializadores não só frustram de antemão essa urgência, como vão na direcção diametralmente oposta. Para eles, o consumo da massa operária, da sociedade em geral, deve subordinar-se ao desenvolvimento industrial. O novo nisso não é o facto em si, factor intrínseco e inseparável do capitalismo, mas a proporção estranguladora que adquire nas mãos dos industrializadores; cujo tipo mais completo – depois dos grandes trusts mundiais americanos, ingleses, etc. – é o capitalismo de Estado à russa. Máquinas, ciência, governo e cultura direccionados a um único objectivo: estrangular os operários (a sociedade) pelos meios de produção, tempo de trabalho, produtividade, salário, etc., impostos de forma ditatorial, e a produção exclusivamente dedicada a satisfazer o ostentar da burocracia ou da burguesia, governantes, bem como os seus gastos exorbitantes de guerra e polícia. Nenhuma política industrializante tem outro objectivo, seja implementada por Franco ou pelos sequazes de Moscovo. Por isso afirmamos que é reaccionária de ponta a ponta.

Além de pelos seus métodos de chicote totalitário, é também reaccionária pelas suas possibilidades estritamente industriais. De facto, o nível de industrialização e modernização técnica que essa política pode atingir, no melhor dos casos, é desprezível em comparação com o que se conseguiria colocando todos os instrumentos de trabalho, expropriados à burguesia ou ao Estado, ao serviço das necessidades de consumo, cultura e liberdade dos operários. Só essa atitude é revolucionária, e por isso nós, operários, chamamos a defender-nos do franquismo e dos seus futuros imitadores através de consignas e procedimentos que nos habilitem a tomar nas nossas mãos toda a economia, o poder político, a distribuição dos produtos, as armas, etc.

Nem austeridade nem expansão, fases cíclicas da mesma economia capitalista. A fase de "expansão", como disse Alarma no seu número anterior, não permite aos operários consumir um pouco mais, mas sim à custa de mais horas de trabalho e de maior rendimento por hora, aumentando quase geometricamente os lucros do capital. À fase de "expansão" deve-se, portanto, responder, não mendigando um aumento de salário pequeno ou grande, mas exigindo que todo o aumento da produção passe directamente para o consumo dos operários. Existem, certo, indústrias cuja produção não pode ser consumida ou utilizada, a não ser pela alta burguesia, não pelos operários; razão a mais para exigir a sua conversão em indústrias de consumo ou de máquinas úteis ao consumo total da sociedade. À fase de depressão e desemprego — austeridade, dizem os lacaios do franquismo — deve-se responder exigindo nenhum despedimento, nenhuma diminuição do salário médio mensal, impostos apenas para manter os benefícios do capital. O número de horas de trabalho deve ser proporcionalmente dividido entre o número de operários, igualmente sem diminuir o salário médio, incluindo os candidatos que, por idade ou outras razões, não tenham trabalhado antes. Concretizá-lo é superar definitivamente toda crise e abrir caminho para a emancipação da humanidade.

Dessa forma, reúnem-se continuamente táctica e estratégia para a defesa imediata dos operários e para o ataque profundo à sociedade de exploração, quer a representem os governantes actuais ou quaisquer outros potenciais. Nesse quadro, encontram a sua verdadeira solução todos os problemas económicos sem excepção, desde os mais rotineiros e urgentes até ao grande problema da criação de uma sociedade socialista mundial.

ALARMA

Fonte: alarma-nc2ba-7o.pdf

Nota do Tradutor: Este artigo, que foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice, foi escrito em Outubro de 1950 – há 75 anos atrás - para o Boletim nº 7 do ALARMA, órgão do Fomento Operário Revolucionário, marxista, mas a sua actualidade e justeza  é tal que poderia ter sido escrito na época actual.




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