Uma
América em declínio projecta a sua falência sobre uma Europa decadente.
26 de Janeiro de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub .
Quando o terrorista Donald Trump proclama, com a arrogância de um império que se acredita eterno, que «a Europa está em crise», que estaria «decadente», «enfraquecida», «moribunda», ele não está a fazer uma análise. Ele pratica um exercício muito mais antigo e trivial: a projecção imperial, esse mecanismo de defesa, apreciado pelos perversos narcisistas, que atribui ao «outro» (a Europa) os sintomas de um declínio que se recusa a indicar em casa própria.
Na verdade, Trump apenas externaliza contradições que afectam em primeiro lugar os próprios Estados Unidos. Não é essencialmente o império americano que é atingido pela desindustrialização maciça e duradoura, pela pauperização de uma parte crescente da classe operária, pela deterioração das suas infraestruturas, pela extrema polarização social e racial, pela crise política permanente (bloqueio institucional, questionamento das eleições, violência política latente), pela perda relativa de hegemonia face à China, etc.?
Historicamente, é sempre assim que falam os impérios prestes a perder a sua centralidade. Incapazes de assumir o seu declínio, insultam os seus aliados, denigrem os seus vassalos, acusam o mundo de já não estar à altura da sua grandeza passada, deslegitimam os seus aliados que se tornaram concorrentes. Tudo isso para justificar o seu recuo nacional agressivo, isolacionista e as suas operações predatórias.
Quando Trump martela que a Europa está em declínio, não se trata de uma análise geo-política. É uma ameaça mal disfarçada: «Submetam-se mais, paguem mais, armem-se para as nossas guerras, ou serão responsabilizados pela nossa queda».
É certo que a Europa está em crise. Mas não é a crise que o Dr. Frankenstein Trump pretende diagnosticar. A Europa está doente da sua capitulação. Doente da sua vassalagem atlântica. Doente de um alinhamento servil que dissolveu a sua soberania económica, energética e militar. Doente, sobretudo, por ter sacrificado os seus povos no altar do capital financeiro transnacional — sob a hegemonia americana.
A América joga hoje ao Dr. Frankenstein, horrorizada com a brutalidade da criatura monstruosa que ela própria montou: financeirização predatória, guerras sem fim, destruição social, niilismo político. E, como todo o cientista louco, agora acusa o mundo — a Europa em particular — pela monstruosidade que ela mesma criou. Trump é o monstro; o império americano é o Dr. Frankenstein. O que ele teme na Europa não é o seu declínio, mas o reflexo da sua própria criatura que se tornou incontrolável
Trump afirma encarnar o renascimento americano. Ele é apenas uma caricatura terminal. O seu nacionalismo chauvinista e histérico, o seu desprezo pelas alianças, a sua linguagem de mafioso internacional e terrorista mundial não sinalizam um renascimento, mas uma decomposição da hegemonia.
A prova. A América já não governa o mundo: extorque-o. Já não propõe ordem: impõe o caos. Já não promete progresso: exporta guerra, sanções, miséria. A América desequilibrada ameaça tributar o mundo inteiro.
Neste contexto, a Europa serve como um espelho invertido: o perverso narcisista Trump atribui-lhe o declínio para não ver aquele que corrói o coração do seu império. Esse é o verdadeiro declínio. Mas o senil Trump, porta-voz brutal da burguesia americana no fim de linha, não consegue indicá-lo. Então, ele desloca a crise, projecta-a para outro lugar, despeja-a sobre a Europa como se livrasse de um cadáver incómodo.
Na verdade, Trump não descreve o mundo como ele é. Ele revela a América como ela está a tornar-se: um império senil, violento, incapaz de pensar no seu próprio fim de outra forma que não seja acusando os outros de agonizarem no seu lugar.
Durante décadas, os Estados Unidos consideraram-se o alfa e o ómega da história, o fim insuperável do progresso humano. Hoje, essa narrativa desmorona-se sob o peso da realidade: ascensão da China, contestação do petrodólar, guerras perdidas, perda de autoridade moral.
Perante
este colapso simbólico, a América imperial adopta a postura clássica do
perverso narcisista: negação, agressividade, desprezo, exageros verbais. Já não
admite o mundo
multipolar;
insulta-o. Já não persuade; ameaça, humilha. Pior ainda. Hoje, a América
imperial já não governa o mundo: tenta despojá-lo, esquartejá-lo.
Um império florescente impõe as suas regras por adesão. Um império moribundo só tem a força bruta, a coerção e a pilhagem. É aí que estão os Estados Unidos. O capitalismo americano, sobre-endividado, financeirizado, incapaz de produzir riqueza real suficiente, tem agora de a procurar noutro lado. Não mais pela expansão produtiva, mas pela apropriação directa: a pilhagem.
É o regresso do capitalismo de pilhagem, na sua versão mais arcaica e brutal: apoderar-se de territórios, pilhar recursos, bloquear posições geo-estratégicas. Gronelândia, Venezuela, Canadá, não importa o alvo, não importa o pretexto. A mensagem imperial é clara: o que é fraco, o que é estratégico, o que é apreensível deve ser monopolizado.
O
império americano já não negocia: ele cobra. Com a América decadente, a lei do mercado mostra-se como sempre foi:
a lei do mais forte, o direito internacional substituído pelo instinto de
predação.
Como os Estados Unidos já não moldam a história, eles esforçam-se para arrancar os seus destroços. Um império que se apodera de territórios para reabastecer os seus cofres não é um império conquistador: é um império em fim de carreira, em fim de vida.
Assombrado pela sua própria queda, o império americano é assim reduzido à pilhagem, condenado à brutalidade. Porque já não domina o futuro, pilha o presente. Porque já não controla a história, falsifica a realidade.
Não há nada mais perigoso do que um animal agonizante. Um império agonizante age como um animal em agonia: devasta antes de entrar em colapso. O império americano asmático já não tem estratégia: apenas espasmos. Já não planeia: debate-se. Derruba. Incluindo os seus aliados, os seus cidadãos.
Khider MESLOUB
Fonte: L’Amérique en déclin projette sa faillite sur l’Europe décadente – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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