quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O primeiro por ódio. O segundo por amor.

 


O primeiro por ódio.

O segundo por amor.

 

21 de Janeiro de 1921.

Naquela manhã chovia em Livorno.

Os delegados comunistas deixaram o Teatro Goldoni cantando o Hino Internacional, escoltados pelos Carabinieri, enquanto grupos de operários saíam das galerias para acompanhá-los.

Eles eram liderados por um engenheiro napolitano de 31 anos. Ele acabara de pronunciar as palavras que dividiram a história em duas: «Os delegados que votaram a moção da fracção comunista abandonem a sala».

Ele chamava-se Amadeo Bordiga.

Hoje, todos celebram essa data como o nascimento do «partido de Gramsci». Há um problema: Gramsci nunca tomou a palavra. Passou o congresso, como documenta o filme da época, «escondido no seu camarote». Não foi eleito para a direcção. Era «pouco conhecido fora de Turim».

Togliatti nem sequer estava presente.

O novo partido nasceu num teatro em ruínas.

O San Marco tinha sido usado como depósito militar durante a guerra. O telhado estava podre, as janelas sem vidros. Chovia lá dentro. Os delegados ficaram de pé sob guarda-chuvas abertos, durante horas, enquanto lá fora a polícia vigiava.

Naquela miséria nasceu o que se tornaria o maior partido comunista do Ocidente.

Mas não continuaria a ser o partido deles.

O Executivo eleito naquele dia:

Amadeo Bordiga, engenheiro

Bruno Fortichiari - aquele que em 1914 assinou a expulsão de Mussolini do PSI.

Luigi Repossi, operário torneiro que cresceu na miséria.

Ruggero Grieco, agrónomo da Apúlia, órfão aos sete anos.

Umberto Terracini, advogado de Turim.

Cinco homens.

Em dez anos, quatro dos cinco seriam expulsos do partido que tinham fundado.

Dois meses antes, a Itália estava em chamas.

Setembro de 1920. Meio milhão de operários ocupam as fábricas. Turim, Milão, Génova - os portões fechados por dentro, bandeiras vermelhas nos telhados, conselhos operários que decidem a produção. Por um momento, a revolução parece possível.

Então, o PSI recua. Negociar, mediar, «ser responsável».

E o fascismo chega para preencher esse vazio.

A cisão de Livorno nasce dessa traição. Quem funda o partido sabe uma coisa: ou revolução ou nada.

Todos expulsos, excepto Grieco: o único que ficou. Em 1936, ele assinou o «Apelo aos irmãos de camisa preta». Vocês entendem o que significa permanecer.

Mas as expulsões não foram a pior coisa.

Togliatti pediu ao CLN (Comité de Libertação Nacional) autorização para «tirar fisicamente do caminho» os principais internacionalistas. Eles eram culpados de «obstaculizar a integração da classe operária sob a bandeira tricolor».

Mandavam jovens manipulados para matar revolucionários, chamando-os de fascistas. Companheiros como

Mario Acquaviva e Bruno Fortichiari.

Primeiros anos dos anos 2000. Uma trattoria operária em Milão.

Um velho camarada com quase dois metros de altura — um daqueles que você imagina a partir cabeças de fascistas nos anos 40 — conta baixinho a sua história.

Ele e outros dois amigos, jovens, armados com revólveres, tinham sido enviados exactamente assim. «Vão matar aquele traidor fascista, Bruno Maffi.»

Entram na sede. Vêem Marx e Lenine na parede. Maffi a falar de revolução. Percebem imediatamente que algo não bate certo.

Em dialecto milanês, ele diz aos outros: «Rapazes, vamos sentar-nos e ouvir o que ele tem a dizer.»

E foi assim que passaram mais de cinquenta anos de militância. Até aquela noite da história.

Quando Gramsci morreu em 1937, Togliatti guardou os seus Cadernos durante dez anos.

Quando os publicou, publicou-os censurados. Removidas as referências a Bordiga, as provas de que Gramsci tinha rompido com a linha do partido, as suas tentativas de ler Trotsky.

Nas Cartas da prisão, dezoito citações de Bordiga foram alteradas ou apagadas.

Foi fabricada uma fotografia falsa: o suposto casamento da filha de Bordiga, com os noivos a saudar à romana entre camisas negras. Um casamento que nunca aconteceu. Uma foto construída para provar que o fundador do partido comunista era fascista.

Em 1951, por ordem directa de Togliatti, foi escrito que Bordiga era «trotskista», «simpatizante fascista» e «defensor da burguesia».

O homem que fundou o partido acusado de ser seu inimigo.

O teatro onde nasceu o PCd'I foi demolido após a guerra.

A placa comemorativa fala da «ideologia de Marx, Engels, Lenine e Estaline, com o exemplo de Gramsci, sob a liderança de Togliatti».

Bordiga não é mencionado.

Fortichiari não é mencionado.

Repossi não é mencionado.

Acquaviva e Atti não são mencionados.

O local foi apagado.

A memória foi apagada.

Alguns foram apagados fisicamente.

E aqui a história poderia terminar.

Mais uma história de vítimas e carrascos. De estalinistas assassinos e revolucionários traídos.

Mas há algo que muda tudo.

Aqueles que ainda hoje levam adiante essa tradição — a Esquerda Comunista «italiana» — nunca usam esses nomes.

Nunca.

Em nenhum texto. Em nenhum documento. Em nenhum aniversário.

Não por esquecimento. Por princípio.

Porque a história não é feita por indivíduos. Não existem «grandes homens» para celebrar. O culto da personalidade — o de Estaline, mas também o de Lenine transformado em ícone — era exactamente o que Bordiga criticava como traição à revolução.

Citar nomes significaria cair na mesma armadilha.

Pensem nisso.

Homens que fundam um movimento.

São expulsos, caluniados, assassinados.

E os seus herdeiros - por respeito ao que acreditavam - recusam-se a pronunciar os seus nomes.

Os inimigos apagaram-nos por interesse.

Os continuadores silenciaram-nos por lealdade.

O resultado é o mesmo: o silêncio.

O significado é oposto.

Conhecem outro exemplo semelhante na história?

Homens perseguidos e mortos, e cujos herdeiros - justamente por respeitá-los - se recusam a lembrá-los?

Eu não.

É uma coerência que não pertence à política. Pertence a algo que a nossa época nem sequer consegue mais conceber.

Hoje, todo o líder quer o nome nos cartazes.

Todo o intelectual quer a assinatura nas ideias.

Cada militante quer ser lembrado.

Eles não.

Há 104 anos, num teatro que já não existe, sob uma chuva que entrava pelo telhado, um grupo de homens acreditava que o mundo estava prestes a mudar.

Foram derrotados.

Foram expulsos.

Foram caluniados.

Alguns foram mortos - não pelos fascistas, pelos «companheiros».

Depois foram esquecidos. Duas vezes.

A primeira por ódio.

A segunda por amor.

E talvez fosse exactamente isso que eles queriam.

 

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Fonte:  (1) Facebook 

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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