Irão: Operários enfrentam
inimigos por todos os lados
Não há dúvidas sobre o
carácter reaccionário da República Islâmica do Irão. Desde que tomou o poder em
1979, ela sufocou a revolução em nome da “revolução”; esmagou os operários e os
camponeses em nome da defesa dos “oprimidos”; espancou, prendeu e humilhou as
mulheres, impondo o uso obrigatório do hijab (1)em nome da protecção da
“nossa cultura”; e amordaçou a sociedade — proibindo a liberdade de expressão,
de reunião e de organização — em nome do combate às “anormalidades”. Não passou
um único dia sem que este regime conspirasse contra as massas em geral e contra
a classe operária em particular — seja através do terror aberto, do
derramamento de sangue, das prisões e das execuções, ou através do seu
parlamento e do seu circo eleitoral quadrienal destinado a fabricar
consentimento.
No entanto, os crimes da
República Islâmica não absolvem os seus inimigos. Não passou um único dia sem
que os Estados Unidos e a Europa tentassem recuperar a posição imperialista
privilegiada de que gozavam sob a ditadura do Xá. Os seus métodos são tão
previsíveis quanto cínicos: agressão militar directa (2), sanções que
estrangulam os trabalhadores comuns, interferência política, manipulação da media
e manobras constantes em torno de protestos e revoltas. (3)
Longe de «libertar»
alguém, esses esforços têm repetidamente fortalecido o próprio regime que
afirmam combater. O fracasso em trazer o Irão de volta à ordem imperialista
ocidental abriu, em vez disso, a porta para que outros predadores imperialistas
— Rússia e China — joguem a «carta do Irão» sempre que isso servir aos seus
próprios interesses.
Também não pode haver
dúvidas sobre a legitimidade da rebelião contra as condições existentes. Quando
as pessoas se levantam contra a pobreza, a repressão e a humilhação, elas estão
certas em fazê-lo. Mas o que deve ser recebido com cepticismo absoluto — e
combatido incansavelmente — são as narrativas prontas que são impostas a essas
revoltas pelas alas esquerda e direita do capital. Essas narrativas não são
explicações neutras: são armas. Elas são projectadas para sufocar a revolta
logo no início ou para desviá-la para canais que atendam aos objectivos da
classe dominante.
Ao colocar
obsessivamente em primeiro plano questões secundárias — por mais reais e
dolorosas que sejam —, essas forças ocultam a raiz da crise: a crise do próprio
capital. Elas trabalham para apagar o conteúdo de classe da luta e enterrar as
bases materiais da raiva das massas sob palavras de ordem moralistas, espectáculos
mediáticos e simbolismos fabricados. A revolta mais recente no Irão expôs esse
processo à vista de todos. Todas as facções reaccionárias — internas e externas
— tentaram sequestrá-la, transformá-la em arma e direccioná-la para os seus
próprios fins.
A repressão bárbara do
regime é prova suficiente do terror da burguesia iraniana em relação às massas.
Mas o momento da revolta e a forma como ela se desenrolou levantam sérias
questões. O padrão sugere não uma erupção puramente orgânica, mas uma operação
de inteligência calculada envolvendo a CIA e a Mossad: um colapso monetário
deliberadamente engendrado para inflamar a agitação social, seguido de
infiltração, provocação e inserção de elementos violentos para envenenar o
movimento e justificar a repressão estatal. Nesta perspectiva, a ideia de que
esta revolta representa o décimo terceiro dia de uma guerra não é paranóia — é
uma avaliação política sóbria.(4)
Crises, a taxa de juro assassina de 30% e a Manipulação
cambial
Durante mais de duas décadas, as altas taxas de juro —
que por vezes atingiram os 40% — mal suscitaram a atenção da oposição, quanto
mais a sua indignação. Na verdade, tanto a oposição como grande parte da
população foram treinadas para tratar esta catástrofe como «natural», como se
fosse uma lei da física e não um instrumento deliberado do domínio de classe. A
taxa de juro de 30% não é um acidente. Não é «má gestão». É um roubo organizado
— um assassinato social realizado através da política bancária.
Para entender como essa máquina foi construída,
devemos traçar o desenvolvimento do regime cambial. Entre Setembro de 1980 e Julho
de 1988, durante os oito anos da guerra Irão-Iraque, a taxa de câmbio do
mercado aumentou sete vezes, enquanto a taxa oficial permaneceu fixa (ver
tabela abaixo). Este foi o período em que a burguesia iraniana — sob o comando
do primeiro-ministro Mousavi — adoptou um modelo de propriedade estatal
semelhante à estrutura de comando do estilo soviético. Mas esse modelo nunca
teve a ver com justiça social. Era um mecanismo de sobrevivência, racionamento
e controle em tempo de guerra.
Taxa de câmbio do rial em relação ao dólar americano.
Com o colapso do Bloco Oriental e a propaganda
triunfalista do «fim da história», a burguesia iraniana recém-consolidada — sob
o comando de Khamenei como presidente — gradualmente compreendeu uma verdade
brutal: se quisesse sobreviver após ser abalada pela Revolução e pela Guerra
dos Oito Anos, teria de retornar aos seus métodos mais antigos de dominação.
Ela reviveu todos os truques tradicionais de exploração e fundiu-os com o
domínio emergente do capital financeiro — transformando a própria crise num
modelo de negócios.
À medida que a taxa de câmbio do mercado disparava —
impulsionada não apenas pela decadência interna, mas também por pressões hostis
e manipulações do exterior —, o Estado viu-se cada vez mais incapaz de
controlar o processo. Assim, abraçou a lógica da rendição disfarçada de
estratégia: “Se não podes vencê-lo, junta-te a ele”. A especulação cambial
deixou de ser um efeito colateral criminoso. Tornou-se a pedra angular da
política económica oficial.
Este sistema serviu perfeitamente a duas forças
principais:
1. 1. O Estado, que usou o mecanismo monetário para justificar e manter taxas de juro extremas, remendar orçamentos efectivamente denominados em dólares e financiar subsídios para bens essenciais — medicamentos, alimentos básicos, carne e outros — subsídios que funcionavam menos como «assistência social» e mais como uma ferramenta para evitar explosões sociais. Este arranjo permitiu que governos sucessivos encenassem “reformas” teatrais e rotulassem ajustes financeiros de rotina como políticas radicais ousadas — o chamado “ganho inesperado” de Ahmadinejad é um exemplo desse teatro de propaganda.(5)
2. O sector privado, que explorou o caos como um convite aberto à pilhagem: apropriação de terras, apropriação do mar, apropriação de florestas, apropriação de montanhas — uma orgia de corrupção e desapropriação numa escala sem precedentes na história moderna do Irão.
Todo esse processo se
desenrolou em paralelo com uma crise mais profunda nos próprios centros
capitalistas. À medida que o capitalismo mundial se voltava cada vez mais para
uma economia de papel — construída sobre produtos financeiros «mágicos» e
manipulação especulativa —, a versão rudimentar e periférica dessa mesma lógica
foi exportada e imposta a países como o Irão. Sob sanções e pressão financeira,
surgiu um sistema monetário caótico de taxas múltiplas, institucionalizado e
normalizado pelo Banco Central: o Banco Central negociou taxas de câmbio
separadas, múltiplos pontos de acesso, com Sulaymaniyah, Herat, Sena, Nima e
outros.
Não se tratou de um erro
técnico de política. Foi uma estratégia de classe. Com o tempo, esses canais de
dólar sobrepostos e distorções de preços oficialmente sancionadas criaram o
terreno fértil perfeito para oligarcas, máfias e redes paralelas — uma arquitectura
económica projectada para o roubo, a especulação, o enriquecimento de poucos e
a miséria de muitos. É uma arquitectura que está constantemente a ser actualizada
e agora inclui especulação via bitcoins, incluindo a «Tether coin», defendida
por Nigel Farage, que parece não ter escrúpulos em reforçar a estrutura
existente no Irão..(6)
Algumas dessas máfias são mais conhecidas e amplamente discutidas no discurso público e na media (moeda, futebol, açúcar, arroz e petróleo), enquanto outras são menos conhecidas (papel, ouro, drogas, terras, medicamentos, carne, açafrão, exames de admissão à faculdade, milho, automóveis e antiguidades)..(7)
Assim, enquanto tanto o
Estado como o sector privado mergulhavam de cabeça numa orgia de pilhagem, foi
— como sempre — a classe operária que foi forçada a pagar o preço. A punitiva
taxa de juro de 30%, juntamente com as suas consequências em cascata, foi
imposta directamente sobre a vida dos trabalhadores: salários, habitação e a
sua própria sobrevivência. O resultado não foi estabilidade, mas uma cadeia
ininterrupta de motins, protestos e revoltas que se estendeu ao longo das
últimas duas décadas — cada um deles uma acusação a uma ordem económica
construída sobre a expropriação sistemática.
No entanto, a
brutalidade do regime iraniano tem sido apresentada há muito tempo — tanto
dentro como fora do Irão — como se fosse principalmente de natureza cultural ou
política. Os holofotes têm-se fixado nos códigos de vestuário, na censura e na
repressão aberta, enquanto as bases económicas assassinas do sistema foram
silenciosamente ignoradas ou deliberadamente obscurecidas. Durante anos, a
violência económica — a lenta destruição dos meios de subsistência através da
inflação, da dívida e da usura — foi tratada como secundária, técnica ou
inevitável.
Agora, à medida que as
rivalidades inter-imperialistas se intensificam e se aproximam de uma fase
decisiva, e que as forças capitalistas reaccionárias — tanto nacionais como
internacionais — se alinham umas contra as outras, estão em curso novos
esforços para desviar a atenção da verdadeira origem da crise. A confusão está
a ser promovida, bodes expiatórios estão a ser nomeados e a responsabilidade
está a ser desviada.
Alguns analistas
linha-dura dentro do regime afirmam agora que, nos seus esforços para contornar
as sanções e manter a economia a funcionar, a República Islâmica «criou cobras
na manga» — redes de especuladores e aproveitadores que desde então se
transformaram em dragões e assumiram o controlo do destino do país. Mas isso
não é um erro trágico ou uma consequência imprevista. Essas «cobras» não foram
contrabandeadas por acidente. Elas foram deliberadamente cultivadas, protegidas
e empoderadas pelo próprio Estado. O que estamos a testemunhar hoje não é a
perda de controlo pela República Islâmica, mas o resultado lógico de um sistema
económico projectado desde o início para governar através da incompetência,
especulação, corrupção e guerra de classes.
Enquanto o presidente Masoud Pezeshkian afirmou no mês passado que as reservas de moeda estrangeira do país se esgotaram e que o país está «com um défice de mil milhões de dólares», um membro do parlamento respondeu que «de 2018 até aos primeiros quatro meses deste ano, as exportações não petrolíferas do Irão ascenderam a 270 mil milhões de dólares, dos quais 95 mil milhões não regressaram ao país»..”(8)
Não pode haver qualquer dúvida sobre a
responsabilidade partilhada da criminosa República Islâmica e das chamadas
grandes potências no massacre de milhares de pessoas durante esta revolta. Cada
uma desempenhou o seu papel — seja através da repressão directa, da guerra
económica, da manipulação política ou do silêncio estratégico. Qualquer apoio a
essas forças, sob qualquer pretexto e de qualquer forma, equivale a nada menos
do que cumplicidade no massacre em massa. Seguir as suas políticas — seja em
nome da «estabilidade», «reforma» ou «libertação» — é levar os trabalhadores e
os lutadores directamente à derrota, à repressão e ao matadouro dos interesses
imperialistas e capitalistas.
Contra essa realidade sangrenta, a palavra de ordem
“Pão, empregos, liberdade – poder soviético!” levantada pelos operários de Haft
Tepeh, sobre o qual relatamos em 2018, não é uma fantasia utópica ou um ideal
maximalista distante. Nas condições concretas que se desenrolam hoje – nas ruas
do Irão e num mundo que caminha para a guerra – é a única alternativa realista
e prática. É o único caminho capaz de quebrar o ciclo de repressão, manipulação
e confronto imperialista, e de pôr fim à barbárie que avança abertamente diante
dos nossos olhos.
Nas últimas duas décadas, a classe operária no Irão
demonstrou extraordinária resiliência, coragem e resistência. As suas lutas –
muitas vezes isoladas, reprimidas e traídas – estabeleceram, no entanto, as
bases para algo muito maior. Se a classe operária agir independentemente de
todas as facções burguesas e afirmar uma perspectiva internacionalista, poderá
dar o impulso inicial para o tipo de organização que, por si só, pode enfrentar
o capital, impedir a guerra e abrir o caminho para a emancipação genuína. Esta
não é uma aspiração distante. Nem é apenas uma mensagem para a classe operária
no Irão. Para a classe operária em todo o mundo, a auto-organização é uma
necessidade histórica urgente. Actualmente, a tarefa dos revolucionários em
todos os lugares é acelerar e expandir o processo de unificação política num
partido mundial para propagar o único programa genuíno da classe operária: o
derrube de todos os Estados. Não à Guerra guerra, excepto a Guerra de Classes!
Damoon Saadati
Organização Comunista dos Trabalhadores
22 de Janeiro de 2026
Declaração do Sindicato dos Trabalhadores da Empresa
de Autocarros de Teerão e Subúrbios
Apoio à luta justa do povo, avançando em direcção à verdadeira liberdade e
igualdade, não ao retorno ao passado
Os protestos populares e greves em várias cidades do
país já entraram no seu décimo primeiro dia. Apesar da intensificação do clima
de segurança, da forte presença da polícia e das forças de segurança e das
repressões violentas, o alcance dos protestos continua amplo e diversificado.
Segundo relatos, durante este período, pelo menos 174 locais em 60 cidades de
25 províncias testemunharam protestos, e centenas de manifestantes foram
detidos. Tragicamente, pelo menos 35 cidadãos manifestantes, incluindo
crianças, perderam a vida durante este período. (10)
Desde os protestos de Dezembro de 2017 (28 de Dezembro
de 2017) até Novembro de 2019 (15 de Novembro de 2019) e Setembro de 2022 (16
de Setembro de 2022), o povo oprimido do Irão tem repetidamente saído às ruas
para demonstrar que não tolerará as relações e estruturas económico-políticas
vigentes, baseadas na exploração e na desigualdade. Estes movimentos não
surgiram para regressar ao passado, mas para construir um futuro livre do
domínio do capital — um futuro baseado na liberdade, igualdade, justiça social
e dignidade humana.
Ao declarar a nossa solidariedade com as lutas do povo
contra a pobreza, o desemprego, a discriminação e a repressão, opomo-nos
explicitamente a qualquer retorno a um passado marcado pela desigualdade,
corrupção e injustiça. Acreditamos que a libertação genuína só é possível
através da liderança consciente e organizada e da participação da classe operária
e dos povos oprimidos — não através da reprodução de formas de poder
ultrapassadas e autoritárias. Nesta luta, operários, professores, reformados,
enfermeiros, estudantes, mulheres e, especialmente, jovens, apesar da repressão
generalizada, prisões, demissões e graves pressões sobre os meios de
subsistência, permanecem na linha da frente. O Sindicato dos Trabalhadores da
Companhia de Autocarros de Teerão e Subúrbios enfatiza a necessidade de
continuar com protestos independentes, conscientes e organizados.
Já o dissemos repetidamente e voltamos a repeti-lo: o
caminho para a libertação dos trabalhadores e operários não passa pela criação
de líderes acima das cabeças do povo, nem pela dependência de potências
estrangeiras, nem por facções dentro do establishment dominante. Passa pela
unidade, pela solidariedade e pela criação de organizações independentes nos
locais de trabalho e nas comunidades, e a nível nacional. Não podemos
permitir-nos voltar a ser vítimas das lutas pelo poder e dos interesses das
classes dominantes.
O Sindicato também condena veementemente qualquer
propaganda, justificação ou apoio à intervenção militar por governos
estrangeiros, incluindo os Estados Unidos e Israel. Tais intervenções não só
levam à destruição da sociedade civil e à morte de pessoas, mas também fornecem
mais um pretexto para a continuação da violência e repressão pelas autoridades
governantes. As experiências passadas mostraram que os governos imperialistas
ocidentais não dão qualquer valor à liberdade, aos meios de subsistência ou aos
direitos do povo do Irão.
Exigimos a libertação imediata e incondicional de
todos os detidos e enfatizamos a necessidade de identificar e processar aqueles
que ordenaram e executaram o assassinato das pessoas.
Viva a liberdade, a igualdade e a solidariedade de
classe!
A solução para as massas trabalhadoras é a unidade e a
organização!
Sindicato dos Trabalhadores da Companhia
de Autocarros de Teerão e Subúrbios
7 de janeiro de 2026
Notas:
(1) Irão: Sobre o Hijab como disciplina
laboral e o Slogan "Mulher, Vida, Liberdade"
(2) Rivalidade EUA/Irão: o que
significa realmente Não à Guerra, Senão a Guerra de Classes
(3) Irão: rivalidades imperialistas e
o movimento de protesto "Mulher, Vida, Liberdade"
(4) Estes links fornecem-lhe
alguma informação relevante: instagram.com, wsj.com, jpost.com; e estas
duas entrevistas são apenas para fins informativos, devendo ser consideradas
com cautela.: x.com, x.com
(5) Austeridade no Irão - The Working
Class Face the Biggest Attacks Yet
(9) amIrão: Greves e protestos dos trabalhadores continue e Greves dos trabalhadores no Irão:
desta vez é diferente
(10) Os mortos
agora contam-se aos milhares. lemonde.fr
Sábado, 24 de Janeiro de 2026
Fonte: Iran:
Workers Face Enemies on All Sides | Leftcom
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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